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19 de dezembro de 2005
Ajuda
ao tsunami foi a melhor até hoje, diz ONU
LONDRES (Reuters) - Um ano após o tsunami
no Oceano Índico, as milhões de pessoas que contribuíram
para ajudar as vítimas da tragédia, numa demonstração
de generosidade sem precedentes, podem estar imaginando como seu
dinheiro foi gasto.
Alguns ficarão surpresos ao descobrir que, doze meses depois,
a grande maioria do 1,8 milhão de pessoas que perderam suas
casas no desastre de 26 de dezembro ainda está em acomodações
temporárias.
Mas, se o ritmo da reconstrução é decepcionante,
os esforços iniciais de ajuda tiveram resultados muito melhores.
Necessidades básicas foram atendidas imediatamente, ajudando
a prevenir uma epidemia que poderia ter matado milhares de pessoas.
"A reação mundial ao tsunami foi a melhor já
vista", afirmou o coordenador de emergências das Nações
Unidas, Jan Egeland.
"Governos, setor privado e pessoas em todo o mundo abriram
seus corações e suas carteiras. As doações
privadas para as vítimas do tsunami foram um recorde",
ele disse à Reuters. Em comparação, desastres
como o furacão Mitch, que devastou a América Central
em 1998, e o terremoto em Bam, no Irã, em 2003, receberam
apenas metade do dinheiro prometido, disse Egeland.
Dezenas de governos, o Banco Mundial e o Banco de Desenvolvimento
Asiático se comprometeram com mais de 7 bilhões de
dólares.
Até agora, 6 bilhões de dólares foram alocados,
segundo pesquisa da Reuters. O público doou outros 5 bilhões
de dólares.
Doações demais
O grupo Médicos sem Fronteiras (MSF), que nem chegou a fazer
um apelo oficial, recebeu tanto dinheiro nos primeiros dias que
tomou a decisão inédita de recusar doações
e pedir às pessoas que já haviam contribuído
para reverter o dinheiro para ajudar em outras tragédias.
Mais de 99 por cento das pessoas concordaram.
"Muitos insistiram em fazer doações e ficaram
bravos quando dissemos que não precisávamos. Tivemos
de fechar as portas do escritório em Hong Kong, porque tinha
gente chegando com envelopes de dinheiro", disse o chefe das
emergências da entidade na Holanda, Marcel Langenbach.
Dos 110 milhões de dólares recebidos pelo MSF, cerca
de 25 milhões de dólares foram gastos no tsunami.
O restante foi para um território no Paquistão e situações
de emergência no Níger e em Darfur (Sudão).
O imenso volume de ajuda humanitária ajudou a superar graves
problemas logísticos após o tsunami -- que matou mais
de 230 mil pessoas numa dezena de países e arrasou cidades,
portos e estradas --, mas também contribuiu para a falta
de coordenação.
As agências de socorro decidiram sozinhas o quanto dar a quem
e como distribuir os recursos, em vez de participar do processo
coordenado pelas Nações Unidas.
Isso levou a um quadro fragmentado do que era necessário
e onde. Algumas comunidades receberam ajuda demais, outras de menos.
"As grandes organizações não-governamentais,
com as quais trabalhamos no mundo todo, entendem o valor da coordenação",
disse Egeland. "O mesmo não acontece com todas as novas
entidades."
A competição entre as agências para saber quem
deveria atuar em qual território também desencorajou
a cooperação.
"É como o velho oeste", afirmou um consultor da
Federação Internacional da Cruz Vermelha em Aceh.
"Os grupos de ajuda têm muito dinheiro e estão
competindo para marcar seu território."
Falta de coordenação
A falta de coordenação não apenas desperdiça
dinheiro como também, em alguns casos, põe em risco
as comunidades.
Segundo Langenbach, os médicos do MSF acabaram vacinando
crianças e só mais tarde descobriram que outros grupos
já haviam aplicado as vacinas, mas não deixaram registro.
"No final, ninguém mais sabe quem foi vacinado, então
há o risco de algumas pessoas serem vacinadas duas ou três
vezes, enquanto que outras fiquem sem vacinas", afirmou.
Na ânsia de mostrar aos doadores o que estavam fazendo, muitas
agências correram para fornecer barcos de pesca sem pensar
nas consequências a longo prazo.
Segundo a Cruz Vermelha, Sri Lanka e Aceh têm barcos demais,
com riscos de excessiva extração pesqueira.
A lição a ser aprendida dessa experiência, de
acordo com as agências, é a necessidade de consultar
e envolver as comunidades.
Isso não apenas garante que a ajuda seja adequada, como é
importante psicologicamente para ajudar os sobreviventes a retomar
o controle de suas vidas e construir uma sociedade estável.
"Há uma distinção importante entre operar
em caráter de urgência e operar apressadamente",
afirmou o enviado especial da ONU para a recuperação
após o tsunami, Eric Schwartz.
"A recuperação é muito mais difícil
do que a ajuda."
Emma Batha
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