| Site UOL – 28 de novembro
de 2005
Aids: falta
de remédios causa tragédia infantil na África
Nairóbi - Metade das crianças soropositivas
morre antes de completar dois anos nos países pobres devido
à falta de remédios anti-retrovirais especiais para
elas e de exames acessíveis para detectar a doença
nos recém-nascidos, denunciou hoje a organização
Médicos Sem Fronteiras (MSF).
"O tratamento dos adultos é fácil, pois há
uma dose fixa com uma combinação de três anti-retrovirais
tomados duas vezes ao dia.
Infelizmente, não temos uma dose para crianças, sendo
preciso tomar apenas parte do comprimido, com o risco de não
ser ingerida a quantidade correta", explicou Wangari Realmary,
enfermeira da MSF.
"Amasso os comprimidos, mas às vezes cai uma parte
no chão e não sei se minha filha recebe a quantidade
de remédio que precisa", contou Catherine Atieno, de
31 anos, soropositiva e mãe de Joan, de cinco anos, que também
tem aids.
A overdose de anti-retroviral pode ser tóxica para uma criança,
enquanto uma dose menor que a necessária pode fazer com que
o vírus desenvolva resistência ao remédio.
A três dias do Dia Mundial de Luta contra a Aids, a MSF exigiu
à indústria farmacêutica um maior compromisso
para desenvolver tratamentos pediátricos.
A eficácia dos laboratórios está comprovada,
afirmou a organização humanitária, mas quase
não há doses de anti-retrovirais para crianças.
Além disso, muitos são xaropes que devem ser colocados
em refrigeração, o que é quase impossível
em lugares como Kibera, o maior bairro de favelas da capital queniana
e do leste da África.
"Em países desenvolvidos, há poucas crianças
com aids porque são aplicados tratamentos para prevenir o
contágio do feto pela mãe", explicou Rachel Thomas,
coordenadora médica da clínica que a MSF tem em Kibera.
Nove em cada 10 crianças infectadas com o vírus da
imunodeficiência humana (HIV) vivem na África. Do total,
95% delas adquiriram a doença ainda na barriga da mãe,
no parto ou durante a amamentação. Conseguir tratá-las
a tempo "é uma dura batalha", disse a MSF.
"O teste usado no mundo desenvolvido para detectar se um recém-nascido
é soropositivo é muito caro, complicado e não
se adapta para o uso em clínicas com recursos muito limitados",
afirmou Realmary.
Em países como o Quênia, o único teste economicamente
acessível só pode ser feito aos 18 meses de idade
do bebê. Antes, é impossível saber se os anticorpos
encontrados no sangue pertencem à criança ou à
mãe.
Caso sejam soropositivas, as crianças têm dificuldades
de obter remédios anti-retrovirais se não pesarem
pelo menos 25 quilos. Por tudo isso, acrescentou Rachel Thomas,
"a metade dos bebês com HIV não chegará
aos dois anos".
Esta situação continuará ocorrendo enquanto
não houver testes que permitam detectar o vírus antecipadamente
e determinar a dose de tratamento para as crianças com aids,
doença que matou 300 mil menores na África em 2004.
No Quênia, há 120 mil crianças infectadas com
o HIV, e das 18 mil que precisam de tratamento com anti-retrovirais,
apenas 1.300 o estão recebendo.
Entre elas, está a pequena Faith Wangari, de 10 anos, que
explica sorridente que nunca se esquece de tomar seu remédio.
"Tomo de manhã e de noite. E sei que terei que tomar
por toda minha vida", disse a menina sorridente. Mas sua mãe,
Esther Nchororo, de 39 anos e também soropositiva, confessou
seus temores.
"O que acontecerá se eu morrer, quem cuidará
dela? Se estes médicos vão embora, quem nos dará
os remédios? Nairóbi é muito cara e eu gostaria
de viver no campo, mas não sei se há remédios
lá", disse.
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