| Radiobrás – 17 de
dezembro de 2005
Médicos
Sem Fronteiras acusa a OMC de não discutir produção
de remédios
A organização não-governamental
Médicos Sem Fronteiras (MSF) acusou a Organização
Mundial de Comércio (OMC) de não querer discutir questões
ligadas à produção de medicamentos, durante
a 6ª Conferência Ministerial que se realiza em Hong Kong
até amanhã (18). De acordo com a MSF, apenas uma semana
antes da reunião, a OMC decidiu, em Genebra (Suíça),
tornar permanente uma determinação sobre a exportação
de medicamentos genéricos patenteados, sem discutir sua viabilidade.
Michel Lotrowska, coordenador da campanha de acesso a medicamentos
essenciais da MSF no Brasil, explica que a OMC pretendia, com a
decisão, "tirar o assunto de pauta em Hong Kong, colocando
um ponto final nas discussões sobre medicamentos protegidos
por patentes". No dia 6, a organização tornou
permanente a chamada Decisão de 30 de Agosto, elaborada há
dois anos.
Essa Decisão, segundo Lotrowska, foi uma emenda ao acordo
Trips (Acordo sobre Aspectos de Direitos de Propriedade Intelectual
Relacionados ao Comércio) da OMC. Ela determinaria que um
país, mesmo que quebre a patente (licença compulsória)
de um medicamento, só poderá exportá-lo caso
o possível país importador peça também
a quebra de patente no seu território. Para a OMC, a negociação
deverá ser feita com cada país interessado, remédio
por remédio.
O coordenador disse que a MSF teme especialmente pelos novos medicamentos
anti-retrovirais, usados no tratamento da Aids: "Os medicamentos
mais antigos, que em geral não estão mundialmente
protegidos por patentes, custam até 30 vezes menos que um
novo. Como cada medicamento tem uma patente de 20 anos, a maioria
das pessoas que vive em países menos desenvolvidos dificilmente
terá acesso aos tratamentos chamados de segunda escolha".
A chamada Decisão de 30 de Agosto também não
levaria em consideração a dificuldade de produção
e compra de medicamentos. "Os processos de emissão de
licença compulsória são longos e complexos.
Imagina quanto tempo levaria para que os países, exportador
e importador, conseguissem fechar as negociações,
sendo que muitos medicamentos utilizam matéria-prima patenteada,
que também teria que ter sua patente quebrada", disse
o coordenador.
O processo, acrescentou, é economicamente inviável
para a indústria farmacêutica exportadora. "Não
se leva em conta a economia em escala. A indústria precisa
de um pedido grande para que os preços fiquem baixos. Para
haver competição é necessário ter a
oferta de várias industrias exportadoras, o que a Decisão
de 30 de Agosto inviabiliza".
Aline Beckestein
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