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Portal do Voluntário – 7 de janeiro de 2008

Entrevista da Semana com Médicos Sem Fronteiras

No mundo inteiro pessoas lutam diariamente para sobreviver à violência, deslocamentos forçados, doenças, fome e catástrofes naturais. A organização Médicos Sem Fronteiras (Médecins Sans Frontières) foi criada na década de 70 por um grupo de jovens médicos franceses com o objetivo de levar cuidados de saúde para quem mais precisa, independentemente de interesses políticos, raça, credo ou nacionalidade. O pequeno grupo de jovens cresceu e conta agora com mais de 22 mil profissionais trabalhando em mais de 70 países. Em 1999, a MSF recebeu o Prêmio Nobel da Paz em reconhecimento ao trabalho humanitário desenvolvido em diversos locais do mundo. A Diretora-Executiva do MSF no Brasil, Simone Rocha, fala sobre a importância da organização e o que fazer para se tornar um médico sem fronteiras.

Portal do Voluntário – Como surgiu a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF)?

Simone Rocha - Médicos Sem Fronteiras foi criada em 1971 por um grupo de jovens médicos franceses que haviam trabalhado como voluntários em Biafra, região da Nigéria que, no final dos anos 60, vivia uma guerra civil brutal. O sentimento de frustração desse grupo e a vontade de assistir às populações mais necessitadas deram origem a MSF. A população civil vivia uma situação de penúria alimentar gravíssima. Enquanto isso, as autoridades do país dificultavam ao máximo a chegada da ajuda humanitária e de de jornalistas. Como resultado, pouco se sabia no resto do mundo sobre a situação. No ano seguinte, MSF fez sua primeira intervenção, na Nicarágua, após um terremoto que devastou o país.

Portal do Voluntário – Desde que foi fundada, a MSF atua em situações de emergência em todo o mundo. Como funciona o trabalho?

Simone Rocha - Em geral, quando há uma situação de emergência o primeiro passo é enviar uma equipe para fazer um levantamento dos problemas na região. Uma vez feito isso, MSF atua levando cuidados médicos. Nos casos de epidemia, implementamos vacinação em massa, campanhas de sensibilização etc. Se for uma situação de fome, são montados centros de nutrição para a recuperação das crianças desnutridas. Tratamento, distribuição de água e construção de latrinas para a população afetada são atividades freqüentes no trabalho de emergência de MSF, além da distribuição de materiais emergenciais. Algumas vezes, MSF permanece junto às populações atingidas mesmo depois de controlados os problemas que motivaram sua presença em determinada região.

Portal do Voluntário – Em 1999, a MSF foi laureada com o prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento ao trabalho humanitário pioneiro em vários continentes. O que mudou para a organização depois desta honraria?

Simone Rocha - Certamente o Prêmio Nobel foi um reconhecimento público importante e que muito nos alegrou. Com ele, a organização tornou-se ainda mais conhecida e respeitada, mas nossa ação permaneceu a mesma. Simbolicamente, MSF utilizou o valor recebido para criar a Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais, que trabalha a questão da inexistência de medicamentos e diagnósticos apropriados para doenças ditas 'negligenciadas", como a doença do sono, a doença de Chagas e outras. Além disso a Campanha defende a diminuição do custo dos medicamentos anti-retrovirais para o HIV/Aids.

Portal do Voluntário – A MSF está presente no Brasil desde 1991. Quais foram os motivos que a trouxeram?

Simone Rocha - Médicos Sem Fronteiras começou a trabalhar no Brasil em 1991, para combater uma epidemia de cólera na Amazônia. Desde então, vários projetos foram desenvolvidos, desde atendimento a populações indígenas ao atendimento a comunidades em áreas de violência urbana e com pessoas vivendo nas ruas no Rio de Janeiro.

Portal do Voluntário - Atualmente, como se encontra esse trabalho?

Simone Rocha - No Brasil, nosso objetivo é impulsionar atividades já existentes e que possam ser aprimoradas com nossa contribuição, investindo em iniciativas que serão consideradas exemplares e que possam ser reproduzidas. Esse é o caso, por exemplo, de um projeto que desenvolvemos com a Fundação Oswaldo Cruz, que inclui o treinamento para diagnóstico e tratamento da doença de chagas em fase aguda, na região amazônica. No sentido de contribuir e impulsionar, temos também uma linha de oficinas para ONGs e instâncias públicas baseadas na nossa experiência de mais de 10 anos de trabalho junto a população do Rio de Janeiro. Também trabalhamos no acesso a medicamentos e damos suporte técnico à sociedade civil brasileira em termos de acesso ao tratamento do HIV/aids. Além disso, estamos em fase de montagem de um projeto de assistência de saúde mental e pré-emergência numa área de muita violência no Rio de Janeiro.

Portal do Voluntário – O que fazer para se tornar um “médico sem fronteira”?

Simone Rocha - Médicos Sem Fronteiras está à procura de médicos especializados em Ginecologia, Medicina Tropical, Saúde Pública, HIV/Aids, Saúde da Família, Cirurgia e Anestesiologia, para trabalharem fora do Brasil. Procuramos também enfermeiros (especialmente obstetras), farmacêuticos, administradores e engenheiros. Não há limite de vagas. Para participar dos projetos da organização são exigidos motivação, disponibilidade, experiência profissional e fluência de outro idioma (inglês ou francês). Para se candidatar, basta enviar um currículo e uma carta de motivação para o e-mail: recrutamento@msf.org.br Os aprovados entram num período de espera. Em seguida, são convidados a participar de um treinamento sobre o trabalho da organização na sede de MSF em Bruxelas, na Bélgica, antes de partirem para trabalhar em um dos projetos, em outro país. A duração-padrão dos períodos de trabalho é de seis meses a um ano. A escolha do país de atuação é feita com base na necessidade de ajuda humanitária e não no interesse pessoal do profissional.

Portal do Voluntário – Como funciona o trabalho da MSF com os diversos governos em que atua?

Simone Rocha - Isso varia de país a país, mas em geral a relação é boa e construtiva. Em muitos casos atuamos em situações de estado de sítio, de emergência, ou até mesmo falta de governo, como é o caso da Somália. Além disso, não nos relacionamos apenas com governos, mas também com as diversas partes dos conflitos. Nossa ação é estritamente humanitária e, na maioria dos casos, governos e beligerantes conseguem entender isso e nos deixam trabalhar junto à população. Quando testemunhamos violações massivas nos dirigimos primeiro aos perpetradores, sejam eles governos ou não. Em seguida nossos dados médicos, que são nossa maneira de testemunhar sobre o que está acontecendo, chegam até a mídia ou instâncias inter-governamentais como as Nações Unidas.

Portal do Voluntário – Quais as maiores dificuldades encontradas para atuar em outros países?

Simone Rocha - Freqüentemente a maior dificuldade é a falta de acesso a populações em situações de emergência. Isso se deve a dificuldades impostas por governos, grupos rebeldes ou partes de um conflito, que não querem que a população seja assistida ou não querem testemunhas dos excessos cometidos. Mas quase sempre conseguimos negociar até obter acesso de nossos profissionais e de equipamento a essas áreas.

Portal do Voluntário – Qual foi o pior cenário encontrado pela MSF?

Simone Rocha - É muito difícil comparar situações, já que cada um provoca imenso sofrimento à população onde ocorre. Dito isso, penso que a maior catástrofe humanitária dos últimos vinte anos se deu em Ruanda, nos campos de refugiados para ruandeses na vizinha República Democrática do Congo (RDC), durante o genocídio de 1994. Em questão de alguns dias, quase um milhão de pessoas cruzou as fronteiras e não havia capacidade de resposta possível face a tal fluxo. Nessas condições uma epidemia de cólera foi devastadora. Além disso, muitos genocidários haviam se misturado à população em fuga e continuaram a matança do outro lado da fronteira. Mas também tivemos a fome durante a guerra no sul do Sudão, em 1998, a fome do pós-guerra em Angola, em 2002, as Tsunamis. Atualmente, o leste da RDC e a região do Darfur, no oeste do Sudão, vivem crises humanitárias de grande proporção.

Portal do Voluntário – De onde vem os recursos utilizados pela MSF?

Simone Rocha - A maior parte dos recursos da organização vem de doações privadas. São indivíduos de vários países do mundo que contribuem para que possamos continuar desenvolvendo nosso trabalho. Isso nos dá liberdade para levar ajuda humanitária aonde e quando necessário, e nos permite manter independência de interesses políticos, econômicos e religiosos. Hoje, temos cerca de 3,5 milhões de doadores no mundo. Para contribuir, o interessado pode acessar o nosso site ou ligar para o número (21) 2215-8688.

Minha experiência como uma médica sem fronteiras...

Nem 4 ou 5 páginas seriam suficientes para descrever tudo que vi e vivi. Cheguei à MSF depois de um processo de trabalho com direitos humanos e de um mestrado sobre a ajuda humanitária. Foi uma decisão madura, que tomei aos 30 anos, tendo uma idéia do que enfrentaria. Nesses dez anos com a MSF trabalhei numa dezena de países africanos e asiáticos, em situações que foram desde um pós-guerra tranqüilo como Moçambique, até pós-conflitos extremamente tensos como Libéria ou Afeganistão, além de atuar em epidemias, guerras, fome. Há momentos particularmente marcantes, mas é sobretudo a totalidade da experiência que é indescritível, pela proximidade com a (des)humanidade.

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Médicos Sem Fronteiras é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a vítimas de catástrofes, conflitos, epidemias e exclusão social, independentemente de raça, política ou crenças. É também nossa missão sensibilizar a sociedade sobre as condições de vida das populações que atendemos - clique para saber mais