| O Estado de S. Paulo – 14
de setembro de 2002
Rede mundial
vai combater 'doenças especiais'
Grupo tentará produzir remédios para moléstias
negligenciadas pelo mercado
Uma rede internacional de pesquisa será lançada até
dezembro para combater um grave problema de saúde mundial:
a falta de medicamentos eficazes para doenças como malária,
leishmaniose e mal de Chagas. O objetivo é reiniciar estudos
com substâncias potencialmente úteis, mas que tiveram
seu desenvolvimento interrompido por falta de interesse econômico
das indústrias farmacêuticas. A partir da identificação,
formar uma cooperativa dos centros de estudo, cada um encarregado
de etapas distintas do projeto, até chegar à produção
do remédio para o consumidor.
A idéia surgiu da organização Médicos
Sem Fronteiras, que em 1999 fez um estudo sobre doenças negligenciadas
- a expressão dada para os males que matam anualmente milhões
de pessoas, mas que não têm tratamento eficazes disponíveis.
"A população atingida é tão pobre
que não conseguiria arcar com o pagamento de qualquer tratamento.
Sem mercado atraente, não há pesquisa", resume
Michel Lotrowska, representante do Médicos Sem Fronteiras.
Os números impressionam. A começar pelo uso dos medicamentos.
Os países em desenvolvimento são responsáveis
por apenas 20% das vendas mundiais de remédios. Mas nesses
países vivem cerca de 80% da população mundial.
De acordo com o estudo, nos últimos cinco anos, nenhuma droga
para doenças consideradas extremamente negligenciadas foi
lançada no mercado.
Para reverter o problema, formou-se um grupo encarregado de angariar
recursos para desenvolvimento da pesquisa e identificar centros
capazes de desenvolvê-las. Membros fundadores dessa nova instituição,
DND-I (a sigla em inglês de Iniciativa de Drogas para Doenças
Negligenciadas) já foram escolhidos. Além do Médicos
Sem Fronterias, fazem parte a Fundação Oswaldo Cruz,
o Instituto Pasteur, o Conselho Indiano para Pesquisas Médicas
e o Ministério da Saúde da Malásia.

Projetos – Embora o lançamento do
DND-I esteja previsto para dezembro, quatro projetos-piloto já
foram iniciados, com recursos da Médico Sem Fronteiras. Um
deles é coordenado pela diretora da Farmanguinhos, Eloan
dos Santos Pinheiro. A pesquisa avalia o potencial tóxico
da associação de duas drogas para o tratamento da
malária. Pelos cálculos da diretora, o trabalho deverá
terminar em 2003. Em outra etapa, os dados serão analisados
em uma instituição na Malásia. "É
a grande saída: parcerias para desenvolvimento de remédios",
comerora Eloan.
Além da Farmanguinhos, outro centro, em Bordéus,
está avaliando a associação de mais duas drogas,
também para o tratamento da malária. Há ainda
um grupo pesquisando uma substância para leishmaniose. O vice-presidente
da Fundação Oswaldo Cruz, Paulo Gadelha, um dos membros
da DND-I não esconde seu entusiasmo. "Não há
uma fórmula pronta. A cada projeto, serão escolhidas
instituições de melhor perfil para cada etapa",
diz.
Lígia Formenti |