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Revista Marie Claire - 01 de julho de 2008

Médicas Sem Fronteiras: Missão (quase) impossível
Profissionais brasileiras de MSF compartilham suas experiências

Em meio a catástrofes naturais, epidemias e guerras, médicas brasileiras estão aprendendo a aliviar o sofrimento de povos assolados pela dor. Elas deixam o país para ingressar nos Médicos Sem Fronteiras, uma das ongs mais respeitadas do mundo, que abriu as portas no país para recrutar novos talentos. Marie Claire conversou com três delas, Maria Carolina, Raquel e Lúcia. Ajudando a cicatrizar feridas históricas, a experiência dessas notáveis mulheres se mistura com a dos países e pessoas com quem travaram contato.

Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) se tornaram uma grife no mundo das ongs. Resultado concreto do sonho de um punhado de jovens médicos e jornalistas que, nos anos 60, tinham trabalhado como voluntários na então beligerante Biafra, na Nigéria, a organização fundada em 1971 congrega hoje mais de 22 mil profissionais de 70 países. Por muito tempo, o Brasil foi apenas o destino das missões humanitárias. Mas, há dois anos, o MSF abriu uma filial no Rio de Janeiro e tornou mais fácil o recrutamento da mão-de-obra nacional: em vez de pagar do próprio bolso passagens para Bruxelas, onde eram feitas as entrevistas, os brasileiros passaram a ser avaliados no próprio país. A surpresa ficou por conta das mulheres. Além de ser maioria na filial carioca, dirigida pela jornalista Simone Rocha, 40 anos, elas já são mais da metade entre os selecionados: "As brasileiras estão se destacando em todo o mundo", diz. No ano passado, o MSF recebeu mais de 1.200 currículos. Aprovou apenas 44 -entre eles, 24 mulheres. As escolhidas não hesitaram em deixar a família ou salários bem melhores do que o piso de 1.040 euros (cerca de R$ 3 mil) para assinar contratos temporários de trabalho humanitário, que podem durar de três meses a um ano. Aqui, elas contam o impacto dessa experiência nas suas próprias vidas.

NOME: Maria Carolina Batista dos Santos, carioca, 31 anos
ESTADO CIVIL: solteira
MISSÃO: Somália
DURAÇÃO: três meses

"Quando cheguei à Somália, a minha impressão era de que tinha acabado de cair uma bomba. Tudo o que li era pouco para expressar a realidade desse lugar devastado por mais de 15 anos de guerra civil, sem um governo formal. É tudo muito árido, desértico, você só vê alguns camelos e mais nada. Existe um cheiro de abandono no ar. Nesse cenário tão desolador, comecei a reparar nas pessoas, todas muito coloridas, mulheres com roupas lindas. As pessoas fazem casas de galhos de árvores e pedaços de pano. De longe, parece bonito. Só quando se chega perto é que se percebe que se trata de uma cabaninha onde não caberia nem uma pessoa em pé, mas onde moram famílias inteiras. Do trajeto do aeroporto para o acampamento, vi mães com filhos famintos nas costas, guerrilheiros armados até os dentes. Chorei, mas estava feliz por realizar um sonho profissional. Me vesti como muçulmana para mostrar o meu respeito pela cultura e também para proteger o corpo de doenças. Passava repelente, só bebia água mineral.

Minha casa era muito simples. Tinha uma cama de tábua e um colchonete bem fino. Um cozinheiro somali fazia a comida, quase sempre carne de bode e de camelo. Às vezes, chegavam frutas. Durante os três meses em que vivi no país, não comi uma só alface. A casa tinha quintal de areia. Era lindo à noite, a lua cercada por milhões de mesquitas, eu ouvia o canto dos muçulmanos... e os tiros. Um dia, inventei de fazer yoga. Meus colegas de trabalho toparam. Os guardas olhavam a gente de cabeça para baixo e não entendiam nada. Era bom, eu ficava menos estressada.

Andava sempre com seguranças armados, 24 horas por dia. Só via as coisas pela janela do carro, por condições de segurança estabelecidas pelo MSF. O país estava num momento delicado. Durante o dia, ouvia barulho de bombas. No hospital, havia feridos por granadas e balas. Certo dia, fui dormir lá porque alguns pacientes estavam em estado grave. Foi quando recebi a ligação do coordenador informando para eu não sair de onde estava. Fiquei quatro horas quieta, sentada em um canto, longe da janela, sem poder me mexer. Pensava: 'Eles vão invadir o hospital e metralhar a gente'. Felizmente, nada aconteceu.

Na Somália, tudo é superlativo: a tristeza, a alegria, a miséria. É assim também na relação entre as pessoas. É como estar num 'Big Brother' forçado. Certa vez, eu estava sozinha na casa com o Sayd, um enfermeiro queniano. O telefone tocou, ele atendeu e ficou mudo, a face congelada: seu irmão estava morto. Jovens muçulmanos não podem abraçar mulheres. Mas, quando ele desligou, veio na minha direção e eu o abracei. Choramos juntos, abraçados, por dez minutos, rompendo uma barreira cultural. Quando fui embora, ele me deu uma carta. Estava escrito: 'Nunca vou esquecer aquele seu abraço, me senti abraçado pelo mundo'.

Minha experiência mais emocionante aconteceu quando estava no hospital e chegou uma moça de 18 anos, em trabalho de parto, mas com o órgão genital fechado por causa da mutilação genital, comum no país. Ela estava mal, com convulsões. Os pais dela tinham caminhado dois dias pelo deserto, levando a filha grávida numa rede. Achávamos que a moça iria morrer. Apesar de não falar somali, eu lia uma súplica no olhar da mãe dela. Aquela senhorinha de 60 anos dizia: 'Pelo amor de Deus, salve a minha filha'. Conseguimos fazer um parto cesariana, mas ela ficou dois dias em coma. Quando a moça acordou, aquela senhora sorriu, chamou o tradutor e quis saber meu nome. Então me disse que o bebê se chamaria Carolina. Ela entregou a mim toda a gratidão que sentia. Quando voltei para o Brasil, percebi que não tinha ajudado ninguém. Eles é que me ajudaram a me tornar uma pessoa melhor."

NOME: Raquel Yokoda, paulista, 28 anos
ESTADO CIVIL: solteira
MISSÃO: Moçambique
DURAÇÃO: um ano

"Eu poderia trabalhar com o meu pai, que também é médico, já tive um salário ótimo, morava numa casa super, mas tinha alguma coisa que me deixava completamente descontente. O que me atrai no MSF é que eles se mobilizam para que o cuidado chegue. E eu acho isso magnífico. É para isso que escolhi ser médica. O sentimento humanitário é filho da boa vontade e do amor pela humanidade. É um entusiasmo sublime que se preocupa com a dor das outras pessoas e com a necessidade de aliviar essa dor. No dia do embarque, meu pai soube que estava com câncer no fígado. Mas a família só decidiu me contar quando eu já estava em Moçambique: eles estavam orgulhosos de mim e queriam que eu ficasse por lá. Isso me deu muita força.

Moçambique tem 600 médicos para atender 20 milhões de habitantes. Destes, cerca de 400 estão na capital. É muito difícil atrair profissionais para o interior do país e, por isso, eu fui enviada para Tete, a três mil quilômetros da capital, Maputo, numa zona que fica bem no meio de outros três países, o Zimbábue, o Malawi e a África do Sul. Essa cidade é rota de passagem e, por isso, zona de risco para doenças infecto-contagiosas. Em todo o país, a taxa de infecção por HIV é de 16%, mas em Tete é de 25%. Ou seja, uma em quatro pessoas está infectada com o vírus da aids. Uma vez por semana, eu ia para Zobue, um vilarejo que parecia um outro país. Saí do Brasil achando que iria falar português, o idioma oficial. Mas depois notei que a maioria dos meus pacientes, as mulheres, não sabia português. Durante a consulta, só os maridos falavam e interpretavam o que elas queriam dizer. Havia um desconforto nítido: eles não contavam tudo para mim. E eu precisava entender tudo. Para ter a privacidade necessária na consulta, tinha de tirar os homens de lá de dentro. E só conseguiria fazer isso se aprendesse o idioma delas.

Então, comecei a estudar os dialetos Chechewa, de Zóbuè, e Nyungue, de Tete. Como eu estava na cidade mais quente do país, sob 47o C, dormia apenas quatro horas, e estudava à noite. Aprendi a falar Nyungue em dois meses. O outro demorou seis meses. Aos poucos, passei a compartilhar da infelicidade conjugal dessas mulheres. Como os casamentos são forçados, muitas sofriam estupros. A palavra desejo sequer existia no vocabulário... Como os pacientes me ouviam falando várias línguas, achavam que eu tinha poderes mágicos.

No hospital, eu trabalhava com dois enfermeiros, a Laura e o Mariano. A Laura estava no MSF há 20 anos. Ela tinha perdido a perna esquerda na guerra civil e andava de muletas, mas isso não a impedia de manter um orfanato para 60 crianças. Os pacientes a respeitavam muito também porque ela tinha 54 anos: a expectativa de vida no país é de 49 anos. Meu intenso desejo de adotar uma criança no futuro brotou da nossa convivência.

As pessoas têm necessidades básicas em Moçambique. O capítulo comida é especialmente complicado. Em um país sem indústria, tudo custa caro. Um dia, encontrei guaraná Antarctica e fiquei superfeliz, mas quando fui ver o preço... R$ 19 ! Eu quebrava os ovos e via gemas brancas -até as galinhas são desnutridas. Não existe geladeira; quando você vai ao açougue, escolhe o bicho vivo e eles matam na hora. Não me sentia bem com isso, então ficava nos peixes. Mas comia bastante, tinha medo de emagrecer e pegar tuberculose.

Quando cheguei, não existia quase nada para as crianças com HIV. Elas não são valorizadas. Para se ter uma idéia, as casas são feitas de tijolo e telhado de capim, sem janelas e apenas com um cômodo, reservado aos pais -as crianças dormem em esteiras, fora da casa. Decidi criar um lugar no hospital onde as crianças infectadas pudessem brincar, contar histórias, inventei jogos de tabuleiro para estimulá-las a tomar remédio e não achar tudo chato até abandonar o tratamento, como acontecia antes. Produzi um material de referência 100% moçambicano, que foi aprovado oficialmente e estendido a todo o país. Não sei no que me inspirei para criar aquilo. Só sabia que algo precisava ser feito. E fiz."

NOME: Lúcia Aleixo Resende Alves, mineira, 46 anos
ESTADO CIVIL: casada
MISSÃO: Quênia
DURAÇÃO: previsão de um ano

"Me formei na Universidade Federal de Minas Gerais aos 24 anos. Depois, fiz o doutorado e o pós-doutorado em Imunologia nos Estados Unidos, focada no trabalho com pacientes com HIV. Conquistei ótimos cargos e até um posto na Organização das Nações Unidas (ONU), em Viena, na Áustria. Minha vida acadêmica e profissional foi acontecendo dessa forma e meu desejo de fazer parte dos MSF ficou adormecido. Quando voltei ao Brasil, há quatro anos, soube que eles iriam abrir um escritório no país e me candidatei. Fui aprovada. Por coincidência, a viagem foi marcada para um dia depois da data do meu casamento, em junho de 2007. Estava apaixonada, mas nem passou pela minha cabeça desistir. Casei e parti para minha missão. O Paulo, meu marido, que é psiquiatra, entendeu o meu desejo e me incentivou a ir.

Na Europa, os médicos têm tudo de que precisam, eu não sentia que fazia tanta diferença na vida dos outros. E eu queria ir para um lugar onde eu realmente fizesse diferença. Queria fazer o que ninguém tem coragem de fazer porque as condições de trabalho são duras, sem atrativos e sem bons salários. Certa vez, passei uma semana na fronteira com a Etiópia, como cirurgiã. De repente, vi que, se não fosse pela minha intervenção, uma garotinha não teria sobrevivido. É emocionante sentir o poder de salvar a vida de um ser humano. Daí, o tempo vai passando, e você começa a contar e percebe que não foi só uma, mas duas, três, quatro, cinco vidas salvas. Aqui, os pacientes me agradecem o tempo todo. Posso trabalhar 24 horas por dia sem perceber o cansaço. Sinto extrema satisfação no que faço.

Nunca tive receio em pôr minha vida em risco. Mas é claro que já senti medo. Em dezembro do ano passado, logo depois do Natal, fui chamada para atender pacientes feridos a tiro em Nairóbi, no Quênia, e também na cidade de Naivasha, a uma hora e meia da capital. Trabalhei uma noite inteira e, na manhã seguinte, enquanto fazia uma anestesia, olhei para fora e vi muita gente correndo pelas ruas, armada com facões e colocando barreiras nas estradas. [Nota da Red.: Uma onda de violência sem precedentes tomou conta do país no fim de 2007, logo depois de confirmada a reeleição do presidente Mwai Kibaki. Dezenas de pessoas morreram e até mesmo crianças foram queimadas vivas.] Não sabíamos se eles iam entrar no hospital e destruir tudo. Então, decidimos pegar o ônibus do MSF e voltar para Nairóbi. Seguimos devagarzinho pelo acostamento em um ônibus velho. Pela janela, eu via os rebeldes ateando fogo nas casas, invadindo lojas, quebrando tudo. Demoramos mais de três horas para voltar. Quando essas rebeliões começam, não há o que fazer, apenas aguardar. Depois disso, passei oito longos dias sem sair de casa. Senti medo, mas nunca questionei a minha escolha. O que me ajuda nessas horas é o fato de ser budista: enxergo as situações com serenidade.

Nessa minha missão (a primeira foi na Somália), o Paulo veio comigo. Para ele, o meu ingresso no MSF representou uma grande mudança também. Ele fechou o consultório em que trabalhava há 30 anos, deixou a estabilidade para trás, se candidatou e foi aprovado para o MSF aos 60 anos de idade. Mas, na área dele, é um pouco mais difícil ser alocado numa missão. Por enquanto, está à espera. Eu gostaria de continuar aqui na África. Antes de falar com você, estava conversando com ele, dizendo que vou ficar triste se não surgir outra missão logo para mim. Eu me desvinculei de tudo o que tinha no Brasil. Foi uma opção. É claro que eu não quero morrer numa situação trágica, de guerra, mas todos nós vamos morrer mesmo, então é preferível que seja fazendo alguma coisa de que gosto a ficar frustrada no meio da rotina."

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