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Jornal O Globo – 18 de agosto de 2002

Coquetel explosivo na África

Um explosivo coquetel composto da pior seca registrada nos últimos dez anos, do alarmante avanço da Aids e da corrupção e da má gestão de recursos por parte de governos locais está detonando uma das maiores crises humanitárias já enfrentadas pela África, comparável à da Etiópia, em 1984, quando 500 mil pessoas morreram de fome. Às vésperas do início da Rio+10 - encontro que começa no próximo dia 26, em Johannesburgo, na África do Sul, e terá como um dos temas principais a pobreza - a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um alerta: 12,8 milhões de pessoas no sul do continente correm o risco de morrer de fome até março, se a comunidade internacional não cooperar. Malauí, Zimbábue, Zâmbia e Lesoto já declararam estado de emergência. Moçambique e Suazilândia também estão em situação precária.

- É a primeira vez que o mundo enfrenta uma crise de fome com percentuais tão altos de Aids. A corrupção e a má gestão dos recursos por parte dos governos contribuem muito para esta crise. Trata-se de uma combinação de fatores que nunca enfrentamos antes. Um coquetel extremamente letal - disse ao GLOBO Luis Clemens, porta-voz do Programa de Alimentação Mundial (PAM) da ONU no sul da África. - Espero que na Rio+10 os chefes de Estado encontrem soluções para a questão da fome: não pode haver desenvolvimento, sustentável ou não, se não há comida.

Informes da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) e da Cruz Vermelha Internacional chamam atenção para a gravidade da situação em Angola. Com o fim de 27 anos de guerra civil, os organismos de ajuda humanitária puderam chegar a muitas regiões do país às quais não tinham acesso e constataram a ocorrência de uma crise de desnutrição sem precedentes. Pelo menos 1,5 milhão de pessoas correm risco de vida.

Na África subsaariana estão 28,5 milhões dos 40 milhões de casos de Aids registrados no mundo. A doença ataca, majoritariamente, a faixa etária mais produtiva da população (dos 15 aos 49 anos), devastando as precárias economias locais. Em alguns países, mais de 30% dos adultos têm o vírus, tornando os números da fome ainda mais dramáticos.

- Morrer de fome é feio, é horrível, mas é um processo muito lento. Mas dessa vez, com a Aids, estamos presenciando um processo muito mais agressivo - contou Clemens.

A crise permanente ganhou contornos mais trágicos entre abril e junho deste ano, quando a seca destruiu a maior parte das plantações de milho - principal cultivo da região e base alimentar da população. O Zimbábue sofre ainda com o programa de reforma agrária do presidente Robert Mugabe, que prevê a remoção de fazendeiros brancos de suas terras e a distribuição das áreas desapropriadas entre os negros. Como o ditador dá pouco ou nenhum apoio aos novos fazendeiros, a produção já caiu 50%. Metade da população do Zimbábue corre o risco de morrer de fome.

Denúncias sobre o uso político da comida

No Malauí, os agricultores conseguiram colher 160 mil toneladas de milho, mas o governo se encarregou de vender a produção e ninguém sabe informar onde está o dinheiro. Em Moçambique, a seca devastou os cultivos do sul do país, mas poupou os do norte. No entanto, enquanto os moçambicanos passam fome, mais de 100 mil toneladas de milho do norte foram destinadas à exportação. Os organismos internacionais que atuam na região recebem diariamente denúncias sobre o uso político da distribuição de comida.

- A situação em Angola é diferente, não foi detonada por uma situação climática, mas sim por anos de guerra - contou ao GLOBO o porta-voz do PAM em Angola, Marcelo Spina Hering. - A principal tática da guerra era a expulsão das pessoas de suas casas. Com isso, temos quatro milhões de refugiados no país, pessoas que viveram anos nas florestas, se alimentando de frutos silvestres, raízes e folhas.

Os recursos para a distribuição de alimentos são escassos. Segundo a ONU, só há comida para mais um mês. São necessários cerca de US$ 400 milhões para o sul do continente e outros US$ 200 milhões para financiar um programa de 18 meses em Angola. O início da estação das chuvas, em outubro, representa mais uma ameaça. Com as inevitáveis enchentes, diversas regiões ficarão completamente inacessíveis à ajuda humanitária.

Roberta Jansen

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