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Revista Isto É –
novembro de 2002
No mundo
da rua
Perfil das pessoas que dormem nas praças e
calçadas do Rio de Janeiro não é de mendigos,
bêbados ou meninos. São trabalhadores adultos que muitas
vezes não têm dinheiro para voltar para casa.
Ricardo Miranda e Renato Velasco (fotos)
Casaco surrado, calça jeans e sandália, um homem dorme
em uma calçada no Largo do São Francisco, no centro
do Rio de Janeiro, entre a sarjeta fétida e a porta lacrada
de uma loja. Só acorda de madrugada quando ouve algum barulho
estranho – pode ser a Guarda Municipal, pode ser algum “playboy
tirando sarro de mendigo”, pode ser um “rato”
da noite – ou para chorar baixinho de saudade da família.
Ora acomodado em um canto da calçada, ora sob marquises,
ora em um depósito de carga na Central do Brasil, dorme abraçado
a uma muda de roupa e a uma garrafa de cachaça, companheira
contra o frio da noite. O carioca Ricardo de Oliveira Reis, 26 anos,
acha que tem sorte. Está melhor que a maioria dos amigos,
desesperados por não terem como garantir o sustento ou alimentar
os filhos. Como vendedor de cachorro-quente e pipoca na avenida
Presidente Vargas, uma das principais ruas do centro, não
consegue faturar mais que R$ 10 por dia, dinheiro insuficiente para
comer e pagar passagem de ônibus todo dia – uma despesa
de quase R$ 6. Já teve carteira assinada duas vezes, como
entregador de farmácia e carpinteiro. “A única
coisa que não faço é roubar e matar”,
esclarece. Em casa, um barraco em Ponto Chic, bairro pobre, sem
saneamento e sem calçamento, em Nova Iguaçu, mora
com as seis irmãs – Rita, Valéria, Vilma, Fabiana,
Micheli e Tatiana. “Vou pra lá no sábado, quando
durmo numa cama quentinha. Tenho duas casas”, explica Antônio,
com bom humor inesperado, recebendo ISTOÉ de madrugada na
segunda casa, aquela sem portas, janelas ou paredes. De noite, ele
guarda sua carrocinha e dorme na rua. Isto de segunda a sexta. Só
volta para casa no fim de semana. “É uma vida maldita,
mas a gente acostuma”, diz resignado.
Ricardo é ambulante e os R$ 10 que ganha por dia não
são suficientes para pagar a passagem e voltar para casa.
Há um mês, o carioca Edilton Teteo da Silva, 30 anos,
realizou o primeiro de três sonhos: ter um emprego. Trabalha
como técnico em eletrônica em um loja na avenida Rio
Branco, onde fica das 7h às 20h e ganha R$ 350. Lá
ele diz que mora em Jacarepaguá. Na verdade, dorme na rua
– o endereço atual é a marquise do prédio
onde fica a sede da Confederação Nacional do Comércio
(CNC), no centro. “É para evitar o preconceito. Se
falar que durmo na rua, vão me olhar diferente”, explica.
Edilton, segundo grau quase completo, era casado, tinha casa em
Duque de Caxias e uma moto. Trabalhava em um lava-jato. Perdeu mulher,
casa, emprego e moto – nessa ordem. “Foi tudo de repente.
Numa hora, eu tinha tudo. Na outra, nada.” Seu segundo sonho
é ter onde morar, algo ainda distante. O terceiro, espera
realizar em breve: juntar R$ 35 para colocar dentes postiços
para “tapar o buraco no sorriso”. Tem almoçado
pão com mortadela para economizar. O que lhe restou na vida
cabe dentro de uma mochila: gel de cabelo, loção,
pasta e escova de dentes, três camisas, uma calça,
um par de sapatos, um par de meias e – com muito orgulho –
a carteira de trabalho assinada e o jaleco azul que usa para trabalhar.
Camisa do Flamengo, no Rio desde os 18 anos, Joanir Braga Medeiros,
paulista de Aparecida, hoje com 28, é casado e tem três
filhos – de três mulheres diferentes. O mais novo, Jonathan,
de um ano e um mês, dorme com ele e a companheira Patricia,
no Largo da Carioca, dentro de uma carroça de madeira de
três metros quadrados – a mesma usada por ele para recolher
papelão e fazer carretos. Há alguns dias o filho não
resistiu às baixas temperaturas da madrugada e foi internado
com pneumonia. “Me sinto culpado”, diz.
Ganha R$ 20 por dia e consegue comprar comida e fralda para a
criança. Sobra muito pouco para voltar para casa, por isso
dormem os três na rua até sexta-feira. No sábado,
vai para Cabuçu, onde vive sua irmã. Joanir já
teve carteira assinada – como faxineiro de um supermercado
e segurança em uma loja de sapatos. “Meu sonho? Tirar
meu filho da rua”, diz, sem pensar, o homem que foi abandonado
quando tinha um ano e passou a infância em colégios
internos.
O fosso social do Brasil parece não ter fundo, mesmo em
um país que convive a cada palmo de asfalto com mendigos
trôpegos e meninos cheirando cola. Mas, nesse condomínio
a céu aberto formado por moradores de rua, cresce um personagem
recente na galeria da miséria brasileira: o desabrigado com
teto. Se voltassem todos os dias para casa de ônibus ou de
trem, homens como Ricardo, Edilton e Joanir teriam que usar o dinheiro
guardado para comprar comida. Por isso, dormem na rua. Estima-se
que, de cada quatro moradores que passam a noite nas ruas e praças
do Rio, um tem casa ou lugar onde dormir. Moram na periferia, em
lugares como Santa Cruz e Paciência, ou em conjuntos habitacionais,
como o Nova Sepetiba, na zona oeste, criado pelo governo do Estado
para atender justamente o trabalhador que mora longe. Não
adiantou. Como fica a quase duas horas do centro, moradores do Nova
Sepetiba voltam a morar nas ruas. “São trabalhadores
sem o direito de ir-e-vir por falta de dinheiro”, define Maria
Juraci, diretora da Fundação Leão XIII, ligada
ao Estado do Rio, que administra abrigos e albergues no Rio, insuficientes
para atender a essa nova demanda.
“É uma nova manifestação
do caso de exclusão extrema que vem se expressando nas grandes
metrópoles brasileiras”, aponta o economista Chico
Menezes, diretor de programas do Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas (Ibase). Já houve um tempo em
que trabalhadores como Antônio, o vendedor de cachorro-quente,
eram minoria em meio a um exército de esfarrapados formado
em sua maioria por alcoólatras e doentes mentais. A miséria
urbana mudou o perfil dos moradores de rua. Hoje, camelôs,
catadores de papel, encartadores de jornais, entregadores, flanelinhas
e outros “profissionais” da crise dormem nas ruas durante
a semana. Transformam em casas trechos das avenidas Presidente Vargas
e Rio Branco, dos largos do São Francisco e da Carioca, das
praças Onze, da República e da Cruz Vermelha, entre
outros lugares. O fenômeno é tão sério
que entidades que lidam com essas populações carentes
já fazem diferenciação entre “morador
de rua” e “morador na rua”.
Tislair, do Projeto Meio-Fio, diz: “É
uma população que muitos gostariam que fosse invisível”
Nova imagem – Os números variam,
mas, segundo o professor Dário de Souza e Silva Filho, chefe
do Departamento de Sociologia Urbana da Uerj, é uma população
que “não supera dez mil pessoas”, sendo que a
capital concentra 70% dos moradores de rua do Rio de Janeiro. Perto
de três mil perambulam entre abrigos e albergues. Numa cidade
com 457 favelas, território já ocupado por trabalhadores
de baixa renda, a rua abriga os excluídos dos excluídos.
Isso que os estudiosos chamam de “estratificação
da pobreza”. “É uma população que
muitos gostariam que fosse invisível, mas que aumenta a olhos
vistos como reflexo da pobreza do País”, diz o psicólogo
belga Xavier Tislair, 29 anos, que deixou família e namorada
na Bélgica para coordenar, no Rio de Janeiro, o Projeto Meio-Fio,
criado pela ONG multinacional Médicos Sem Fronteiras para
atender à população de rua na cidade. “Estamos
desconstruindo a imagem que a sociedade tem dessa população”,
completa a psicóloga Lurdilena Ester dos Santos, 35 anos.
A grande maioria é de adultos em idade produtiva, com algum
tipo de emprego, formal ou informal. Ao identificar mais de 500
pessoas vivendo apenas em ruas do centro, a Médicos Sem Fronteira
descobriu que 60% têm alguma referência familiar (parentes
conhecidos), um terço vive há menos de seis meses
nas ruas e apenas uma pequena parte mendiga ou vive de atividades
criminosas. Nove em cada dez são trabalhadores: 42% recolhendo
material reciclável, 13% como biscateiros, 9% como vendedores
ambulantes e até funcionários públicos, garis,
diaristas e operários da construção civil e
indústria naval. Só 17% não têm ocupação
definida.
“Derrubamos dois mitos. Primeiro, o de que a população
de rua é de migrantes rurais. São pessoas nascidas
ou criadas no Estado. Segundo, o de que é uma turba de bêbados,
loucos e drogados. São trabalhadores em idade produtiva,
com instrução primária, sem emprego, sem casa
ou sem condições de voltar para casa”, aponta
o professor Dário de Souza, autor de Feios, sujos e malvados,
o mais completo estudo sobre moradores de rua na cidade. O trabalho
mostra que 58% dos moradores de rua do Rio já tiveram carteira
de trabalho assinada. Desabaram do mercado formal direto para as
ruas. Outros ainda têm e a exibem quando são abordados
pela polícia. “Eles não admitem ser confundidos
com mendigos”, diz Souza. O perfil dos “adultos de rua”
é bem definido: homem, negro ou pardo, já frequentou
a escola (quatro anos e meio de estudo, mesma média do País),
está no auge de sua idade produtiva (média de 38 anos)
e vive de atividades informais. Muitos foram expulsos pelo desemprego.
Outros pelo preço dos imóveis, inclusive nas favelas,
que não têm mais para onde crescer e acabam loteando
seus barracos a preços cada vez mais altos. Ou pela violência
do tráfico. E um número cada vez maior pela impossibilidade
de pagar o transporte de volta para casa.
ABRIGO – Albergues como o Plínio
Marcos, da Prefeitura do Rio, são insuficientes para atender
à demanda, que só aumenta
Não há vagas nos albergues e abrigos mantidos pelo
Estado. Os quatro albergues e um abrigo do município estão
lotados, enquanto o Centro de Triagem, no Alto da Boa Vista, montado
para selecionar os moradores que podem pernoitar, tem até
lista de espera. Um morador de rua conta que já esteve dez
vezes no centro e não conseguiu um lugar para dormir. Cerca
de 500 pessoas dormem nesses cinco locais, onde ficam em média
de três a seis meses. Outro ponto é o Hotel Popular,
na Central do Brasil, mantido pelo governo do Estado, que cobra
R$ 1 por noite. O problema é que para passar a noite ali
o trabalhador tem que exibir comprovante de residência e carteira
assinada, moeda difícil nestes dias de crise. “Ninguém
é produto do asfalto. Essas pessoas vivem nas ruas porque
foram expulsas pelo sistema”, reconhece a assistente social
Bernadette Jeolás, coordenadora do sistema de assistência
social da Prefeitura do Rio, onde trabalha há 20 anos.
O recifense Moacir José de Andrade, 42 anos, há 24
morando no Rio, já mudou de “cama” três
vezes nas últimas semanas. Para evitar que a frente de suas
lojas vire dormitório, comerciantes têm usado um método
desinfetante: lavar as calçadas com creolina. Quando não
é a creolina, é a Guarda Municipal. Com a alegação
de limpar o lixo das ruas, a Subprefeitura do centro tem usado a
“Operação Cata-Tralha” para recolher objetos
pessoais e até medicamentos de quem dorme nas calçadas.
“Eles batem na gente, levam nossas coisas, nos expulsam”,
conta Andrade, que hoje vive como catador de papelão, mas
já teve carteira assinada. O último emprego foi como
faxineiro da sede do Fluminense, em Laranjeiras. “Dormir na
rua leva-os não apenas a ser tratados como lixo largado na
calçada, mas a perder as próprias referências.
A auto-estima se esfacela. Com o tempo, ou a família os esquece
ou eles se escondem dela, envergonhados de dormir na sarjeta”,
define a enfermeira Eriedna Santos Barroso, 29 anos, integrante
da Médicos Sem Fronteira, que passa parte de suas noites
limpando feridas e fazendo curativos em moradores nas ruas do centro.
“Quem é mendigo hoje? Olhando o passado dessa gente,
enxergamos nossas próprias vidas e constatamos que qualquer
um de nós podia estar ali agora”, questiona. Quem abrir
bem os olhos vai perceber que as ruas do Rio não estão
infestadas de feios, sujos e malvados. É só querer
enxergar.

SONHO – Joanir, que dorme em sua carroça:
“Quero tirar meu filho das ruas”
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