| Jornal O Globo – 12 de setembro
de 2004
Repressão
a mendigos será denunciada à ONU
Acusação de maus-tratos a moradores
de rua tem dossiê feito pela Justiça Global e Médicos
Sem Fronteiras.
Antônio Werneck
Um menino que vive com os pais nas ruas do Centro e perdeu a bicicleta
nova, presente de um funcionário da Petrobras; um lavador
de carros que ficou sem roupas, remédios, documentos e R$80
em dinheiro; e um enfermeiro, que já morou na Barra da Tijuca
antes de perder o emprego e ir parar nas ruas, e que teve seus documentos
carregados. Relatos como esses estão em um dossiê de
mais de 30 páginas com denúncias de violações
de direitos humanos e maus-tratos à população
de rua do Rio, que será encaminhado amanhã a ONU pelo
Centro de Justiça Global e a organização Médicos
Sem Fronteiras (MSF), premiada com o Nobel da Paz em 1999.
Objetivo da operação seria retirar entulho
O documento foi feito com base em depoimentos de moradores de rua
atingidos nos últimos 20 meses pela operação
batizada de Cata-Tralha, coordenada pela prefeitura do Rio. É
uma ação conjunta que envolve a Secretaria de Governo,
a Comlurb e a Guarda Municipal e tem como objetivo retirar entulho
das ruas, mas que, segundo a denúncia, está causando
danos irreparáveis para dezenas de famílias que perderam
tudo na vida e agora lutam para sobreviver embaixo de marquises
no Centro do Rio.
— Eles chegam chutando a gente, nós não somos
bandidos. Bandido é bandido, população de rua
é população de rua — contou o enfermeiro,
de 42 anos.
O homem lembrou que seus documentos foram levados no dia em os funcionários
da prefeitura pegaram tudo e ainda o jogaram dentro de um ônibus:
— Quando percebi estava na Penha, sem dinheiro para voltar.
Tem uma senhora que chora dia e noite de pânico. Ela e o filho.
Medo de morrer mesmo; de ser levada e nunca mais voltar —
disse o enfermeiro.
A Secretaria de Governo da prefeitura informou que as operações
Cata-Tralhas recolhem apenas entulho, preservando os pertences particulares
dos moradores de rua.
Sumiço de remédios aumenta gastos públicos
com saúde
Susana de Deus, coordenadora-geral dos Médicos Sem Fronteiras,
disse que desde 2003 e mais acentuadamente este ano os profissionais
da organização passaram a ouvir queixas de moradores
de rua sobre as operações Cata-Tralha. Segundo ela,
são recolhimentos forçados de bolsas com medicamentos,
laudos médicos, documentos e até dinheiro.
— Um medicamento que vá junto a uma bolsa vai interromper
o tratamento, criar resistência e temos aqui um problema sério
de saúde pública. Note-se que sempre que um medicamento
ou documento é recolhido, a pessoa vai retornar às
estruturas públicas e com isto duplicar os gastos —
disse Susana de Deus.
“Estão tratando morador de rua como lixo"
Médicos sem Fronteiras é uma organização
não governamental internacional e que monitora, através
do projeto Meio-Fio, moradores de rua. A equipe do Meio-Fio é
formada por médicos, enfermeiros, educadores, assistentes
sociais e psicólogos que percorre as ruas todos os dias.
O objetivo, explicou Susana, “é aumentar a integração
da população de rua dentro das estruturas públicas
de saúde e de assistência social”.
Sven Hilbig, coordenador de Projetos do Centro de Justiça
Global, disse que o dossiê será enviado aos relatores
especiais Miloon Kothari (ligado a
questões de moradia) e Paul Hunt (saúde) da ONU.
— Os moradores de rua já vivem sob condições
de moradia inadequadas e além disso enfrentam muitas dificuldades
para acessar serviços públicos, como saúde
e educação. O recolhimento de roupas, remédios
e materiais de trabalho dessa população carente, sem
qualquer base legal pelos agentes do Estado, potencializa a situação
de risco e vulnerabilidade na qual estão inseridos. E caracteriza
evidente violação do direito à moradia. As
autoridades cariocas estão tratando os moradores de rua e
seus pertences como lixo — afirmou Sven Hilbig.
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