| Jornal O Globo – 15 de julho
de 2004
Crianças
não têm terapia anti-Aids adequada
Maioria dos menores doentes vive em países
pobres. 'Mercado não é atraente', denuncia Médicos
Sem Fronteiras
BANGCOC. Embora existam mais de dois milhões de crianças
com Aids em todo o mundo, há poucos remédios voltados
exclusivamente para elas. De acordo com denúncia feita pela
organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) durante
a 15ª Conferência Internacional de Aids, em Bangcoc,
na Tailândia, a indústria farmacêutica e os governos
não se empenham no desenvolvimento e na produção
de medicamentos para menores.
- A indústria farmacêutica não desenvolve formulações
pediátricas para medicamentos de Aids porque as crianças
não são um mercado atraente - denunciou David Wilson,
coordenador dos programas da MSF na Tailândia.
Mais de 90% das crianças com Aids estão na África
subsaariana - pouquíssimas vivem em países ricos -
e metade delas morre antes de completar 2 anos.
- Crianças que precisam de tratamento tomam xaropes com um
gosto horrível e engolem comprimidos muito grandes, quando
têm acesso aos remédios - afirmou Wilson.
Tratamento para menores é muito mais caro
Formulações voltadas especialmente para crianças
são mais caras do que suas versões para adultos. O
custo mais baixo de um tratamento anti-HIV para menores é
de US$ 1.300 por paciente, enquanto o equivalente para adultos custa
apenas US$ 200.
Mesmo nos países ricos, alertam os especialistas, há
uma carência considerável de produtos voltados para
crianças. A única esperança, dizem, é
que os laboratórios de drogas genéricas passem a produzir
medicamentos de doses combinadas para crianças.
Os remédios não são o único problema,
segundo a MSF. Kits de diagnóstico da doença também
não são voltados para menores de 18 anos. Monitorar
o tratamento também é mais complicado, disse Wilson.
Os aparelhos para medir os níveis de CD4 (que indicam a eficácia
da terapia) não são adaptados para uso em crianças.
- A não ser que haja uma pressão crescente sobre
os fabricantes e a intervenção dos governos, levará
anos até que novas terapias estejam disponíveis para
crianças - afirmou o farmacêutico Fernando Pascual,
da MSF.
|