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Jornal O Globo – 23 de maio de 2004

Mundo ignora tragédia da guerra no Sudão

Em um mês, o número de pessoas atingidas por conflito no país dobrou. Já há dois milhões de refugiados.

Roberta Jansen

A mais grave crise humanitária do mundo atual se desenrola no Sudão,
silenciosamente, sem que a comunidade internacional tome conhecimento ou intervenha. O alerta foi feito esta semana pela Organização das Nações
Unidas (ONU) e pela ONG Médicos Sem Fronteiras.

Em menos de um mês, o número de pessoas atingidas pelos conflitos que
assolam o país africano praticamente dobrou, passando para dois milhões. No vizinho Chade, campos de refugiados estão abarrotados de sudaneses que tentam escapar da guerra civil, do ataque de milícias, de incêndios
criminosos, da fome.

O Sudão é palco da guerra civil mais antiga da África, cujas origens remontam a 1983 - ano em que os rebeldes do Exército Popular de Libertação do Sudão levantaram armas para exigir a separação do sul de maioria cristã do norte muçulmano. A situação do país piorou sensivelmente no ano passado, quando milícias muçulmanas aparentemente apoiadas pelo governo começaram a expulsar sistematicamente civis de suas terras, adotando a tática de incendiar vilas inteiras, sobretudo na região de Darfur, foco de resistência não-muçulmana.

- A situação piora a cada dia nessa região porque a população não-muçulmana não tem infra-estrutura, escola, serviços de saúde - revela Jean de Cambry, coordenador emergencial de MSF na região, em entrevista ao GLOBO por telefone, da Bélgica, onde chegou há menos de uma semana. - Os relatos dos refugiados são coincidentes. As milícias invadem as vilas, matam os homens, estupram as mulheres e botam fogo nas casas.

Chade já recebeu mais de 100 mil refugiados

Chegada da estação chuvosa pode dificultar ajuda

Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que existem hoje 900 mil deslocados somente na região de Darfur, no Sudão. Cem mil pessoas já cruzaram a fronteira e se encontram em campos de refugiados no Chade, onde a situação é praticamente insustentável, segundo Jean de Cambry, coordenador emergencial de Médicos Sem Fronteiras (MSF) na região.

- A assistência não está chegando, comida e água não são suficientes, as
doenças se espalham - relata Cambry. - As projeções foram feitas para um
número de refugiados de no máximo 40 mil, mas já temos mais do que o dobro disso nos campos.

A iminente chegada da estação chuvosa poderá tornar praticamente impossível o trabalho das agências humanitárias na região, alertou a ONU. "Parece que a mensagem não tem sido ouvida, por isso estamos repetindo-a mais alto. A saúde dos refugiados já piorou porque água potável, comida e abrigo não são suficientes. Se medidas extremas não forem adotadas imediatamente, há um grande risco de que a situação piore, especialmente devido à chegada da estação chuvosa", reforçou Donatella Massai, responsável pelas operações de MSF no Chade, num informe.

Nos campos, há um vaso sanitário para 400 pessoas.

A situação é tão catastrófica nos campos de refugiado que faltam até vasos
sanitários. Num dos campos, há uma latrina para cada grupo de 400 pessoas - quando o padrão internacional é de 20 pessoas para cada vaso sanitário.

Como a comida é insuficiente, o número de casos de desnutrição aumenta a cada dia.

- Em meados de abril, recebíamos em nossos centros de nutrição terapêutica, em Iriba, de três e quarto crianças por semana com desnutrição aguda grave - conta Cambry. - Este número subiu para quase 25 crianças por semana. A escassez de água também é um sério problema. Padrões internacionais determinam que o mínimo de água necessário por pessoa é 20 litros por dia. Nos campos do Chade, esse volume não ultrapassa os seis litros.

- Não há água suficiente para o consumo, para cozinhar, lavar louça e fazer a higiene pessoal. Também não há sabão - enumera Cambry. - Isso está provocando sérios problemas de higiene. Num mês, o número de casos de diarréia hemorrágica passou de cinco para 15.

Conjuntivites e infecções respiratórias também são comuns nos acampamentos.

- Trata-se de uma região semidesértica, com muita areia, que o vento carrega para os olhos e os pulmões dos refugiados que, em muitos casos, não contam nem com uma tenda para se abrigar - explica Camby.(R.J.)


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