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Jornal O Globo – 23 de fevereiro de 2003

Pesquisas traçam perfil de moradores de rua

Maioria tem casa, mas vive ao relento na Zona Sul do Rio em busca de bicos, por falta de um emprego fixo

Letícia Matheus

Homem, negro ou pardo, menos de 45 anos, primeiro grau incompleto, catador de latinha ou de papelão. Este é o típico morador de rua entre os cerca de 1.500 que sobrevivem no Rio. Duas pesquisas distintas — feitas com moradores de rua pela Uerj e pela organização Médicos Sem Fronteira — mostram que a maioria trabalha em alguma atividade informal. Grande parte está na rua por conta do desemprego e de desestruturação familiar.

Segundo pesquisa realizada em agosto de 2001 pela Uerj com 911 moradores de rua na cidade, 37% deles têm problemas psicológicos e 20% têm problemas de saúde, alguma deficiência física ou mental. A maior concentração é na Zona Sul, principalmente na orla, e no Centro. Grande parte dessas pessoas tem casa, mas passa alguns dias nas ruas, de onde tira seu sustento, como Geraldo Marcelo Almeida de Oliveira, de 34 anos, morador de Nova Iguaçu. Pai de sete filhos, Geraldo conta que nunca teve um emprego formal:

— Passo quatro dias no Leblon e em Ipanema catando e vendendo papelão e depois volto para casa. Consigo até R$ 100 por dia — revelou.

Idosos são em menor número nas ruas

De acordo com a pesquisa, 69% da população de rua tem até 45 anos, 22,4% têm entre 46 e 60 anos e os maiores que 60 são apenas 7,8%. Com 64 anos, João Leopoldino conta que vive nas ruas do Centro há 15 anos, empurrando um carrinho de transportar papelão:

— Tenho três filhas, um filho, netos e bisnetos, mas não quero depender de ninguém. Deste sangue do meu braço sai tudo — disse.

Outra pesquisa, realizada pela organização Médicos Sem Fronteiras, detalha alguns aspectos da vida de 593 moradores de rua do Centro. Dos 300 entrevistados, apenas 16% disseram não ter nenhuma profissão.

Os outros contaram que já tiveram emprego nos setores de comércio, construção civil, setor automotivo, serviço público, e até que já foram traficantes (menos de 1%). Apenas 5,5% são analfabetos.

Os principais motivos para estar nas ruas são o desemprego (36%), problemas com a família (32,4%) e dependência química (9,6%).

Só 1% vive de esmolas no centro

ONG oferece atendimento médico, psicológico e assistência social Apesar de serem chamados freqüentemente de mendigos e de pedintes, a pesquisa realizada pela organização Médicos Sem Fronteira com moradores de rua no Centro revela que apenas 1% dos entrevistados depende do que as pessoas lhes dão. A pesquisa foi realizada durante os atendimentos médico, psicológico e de assistência social do projeto Meio-Fio, que há dois anos e meio atende aos moradores de rua do bairro.

De segunda a quinta-feira, das 18h às 21h, uma equipe de profissionais percorre 16 pontos de concentração de moradores de rua no Centro, principalmente na Avenida General Justo, na Avenida Presidente Vargas, na Lapa e na Praça da Cruz Vermelha.

Problemas de saúde mais comuns são doenças de pele

O maior número de atendimentos médicos é de pequenos curativos e tratamento de doenças de pele. Mas, segundo o coordenador do projeto, Xavier Tislair, as consultas médicas são apenas uma parte do trabalho, que inclui o encaminhamento a abrigos públicos e orientação educacional. Segundo Tislair, a maioria gostaria de sair das ruas, mas eles precisam vencer a vergonha, a baixa auto-estima, a dependência química e principalmente o estigma:

- É impossível para um morador de rua arranjar um emprego formal. Ele pode ter alguma chance através de uma instituição.

Morador de rua não se adaptou à Leão XIII

O coordenador explicou que a pessoa que vive na rua precisa ter a confiança conquistada até aceitar a idéia de ir para um abrigo público. Além disso, experiências anteriores podem ter sido ruins.

O morador de rua Leandro Francisco, de 53 anos, por exemplo, contou que ficou muito tenso durante o mês que passou na Fundação Leão XIII e que, por isto, preferiu deixar a instituição.

- A rua é para essas pessoas como sua casa e o abrigo é uma casa estranha. Os abrigos são locais de convivência, onde é necessário falar de suas vidas, o que traz lembranças dolorosas. São locais onde há regras, daí a resistência dos moradores de rua a permanecerem neles - explicou a psicóloga Tânia Helena Santos Souto, assessora da diretoria do Cemasi Ayrton Senna, em Vila Isabel.

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