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Folha de S. Paulo - 7 de setembro de 2008

MSF usa experiência em guerras no Alemão

Organização internacional presta atendimento psicológico e emergencial à comunidade de mais de 100 mil moradores

Os Médicos Sem Fronteiras adaptaram ambulância em kombi para circular pelo complexo de 11 favelas, na zona norte do Rio de Janeiro

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

Acostumada a atuar em situações de guerra, a organização internacional Médicos Sem Fronteiras teve que se adaptar no Rio a uma realidade não menos desafiadora: prestar, desde outubro de 2007, atendimento emergencial e psicológico aos 100 mil moradores do complexo do Alemão, conjunto de favelas na zona norte carioca.

Para oferecer um serviço que o poder público diz não ter condições de prestar devido à violência na comunidade -controlada pelos traficantes mais bem armados do Rio-, o MSF precisou mesmo se ajustar.

As ambulâncias, por exemplo, foram adaptadas em kombis para transitar pelas ruas estreitas das 11 favelas do complexo e superar as barreiras montadas para impedir a passagem de carros da polícia.

Uma coisa, no entanto, os médicos da ONG já tinham ciência, com base na experiência de projetos no Haiti e na Colômbia: o atendimento psicológico seria tão importante quanto o emergencial.

"Sabíamos que, sem trabalhar a questão psicossocial daquela população, os serviços poderiam até estar disponíveis, mas muitos moradores teriam dificuldade para aproveitá-los", conta Milena Osorio, responsável pelo projeto.

Os casos que chegam aos psicólogos do MSF são os mais diversos, mas a preferência é dada para situações mais graves, causadas muitas vezes pelo histórico de violência do local.

Assim como boa parte dos cariocas teme passar perto do Alemão, alguns moradores do complexo têm dificuldade -não apenas financeira- de sair da favela e ir a um hospital.

Apesar da situação de violência, os moradores muitas vezes se sentem mais respeitados no morro do que fora dele. É por isso que, às vezes, o papel do MSF é ajudar a população a ser atendida na rede pública de saúde, já que muitos têm dificuldade até de obter informações e convivem com o preconceito por morar nessa favela.

Casos de crianças com comportamento agressivo e dificuldade de aprendizado são freqüentes. "Às vezes, detectamos que o problema com a escola surgiu a partir de um episódio de violência que eles vivenciaram quando os pais não estavam perto. Trabalhamos para que a família, diante disso, não passe a considerar que a criança não leva jeito para o estudo", diz Milena.

A psicóloga Fabiana Gaspar, que atua no posto do MSF desde o começo do projeto, conta que as relações sociais no complexo são marcadas pela solidariedade e pela dificuldade de resolver conflitos pelo diálogo.
"As relações são, sem dúvida, muito atravessadas pela questão da agressividade", diz. Diante disso, os agentes do grupo tentam ajudar as famílias a lidar melhor com os conflitos e diminuir o ciclo de violência.
Douglas Khayat, que atua no Alemão desde o início do projeto, afirma que é um desafio trabalhar com a palavra num local onde a lei do silêncio é regra. "A pessoa tem que estar certa de que o que será dito ali não será exposto. É um canal de expressão inédito para eles, mas a receptividade tem sido boa."


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