| Folha de São Paulo –
20 de janeiro de 2006
Cresce
a violência contra civis no Haiti
Grupo Médicos
Sem Fronteiras aponta aumento de ferimentos com armas; metade é
mulher, criança ou idosa.
Entre outubro e dezembro do ano passado, o Haiti
sofreu uma escalada da violência contra a população
civil, com crescimento alarmante dos casos de ferimentos com armas
brancas e armas de fogo, segundo informe da organização
internacional de ajuda humanitária Médicos Sem Fronteiras
(MSF) divulgado ontem.
O relatório aponta que o pico de violência ocorreu
nos meses de junho e julho do ano passado, sofrendo uma queda até
outubro, e, então, retomando a tendência de aumento.
Apesar da oscilação, os números revelam um
crescimento exponencial de ataques contra civis em comparação
com dezembro de 2004.
A Minustah (Missão de Estabilização da ONU
no Haiti), cujo comando militar é do Brasil, está
no país desde junho de 2004.
"Interpretamos esses números como um aumento preocupante
da violência contra civis na capital do país, especialmente
porque não estamos falando de qualquer tipo de uso da violência,
mas de um uso letal. São feridos a bala que vão de
bebês pequenos até pessoas de 70 ou 75 anos",
afirmou à Folha Simone Rocha, diretora do MSF no Brasil.
Segundo Rocha, metade das pessoas atingidas é composta por
mulheres, crianças e idosos. O informe considera apenas o
atendimento emergencial feito por equipes do MSF em dois centros
médicos, o St. Joseph, no bairro de Turgeau, e o Choscal,
na favela de Cité Soleil, ambos na capital haitiana, Porto
Príncipe. No segundo caso, há dados disponíveis
apenas a partir de setembro de 2005.
Em outubro, por exemplo, os dois centros registraram 96 casos de
ferimentos por arma de fogo e 91 de ferimentos por arma branca.
Esses números aumentaram para 200 e 117 em dezembro passado,
respectivamente.
Doze meses antes, em dezembro de 2004, essas ocorrências
somavam 23 casos no St. Joseph.
Em terceiro lugar no número de ocorrências vêm
as surras, que, no entanto, decresceram de 19 casos em outubro para
17 em dezembro. A incidência, porém, é oito
vezes maior do que em dezembro do ano anterior, em dados do St.
Joseph.
Já os casos de violência sexual dobraram de 7 incidentes
em outubro para 14 em dezembro passado no mesmo centro médico.
O número total de casos de violência, que inclui ainda
a violência doméstica e ataques com granadas e bombas,
subiu de 267 em outubro para 390 em dezembro passado nos dois centros.
O grupo indica ainda que a violência não dá
sinais de arrefecimento. "Não diria que esse é
um sinal da falência [das forças da ONU] no país
porque sempre há vários fatores envolvidos. Mas gostaríamos
de ver um esforço maior por parte de todos os grupos armados
e das forças da Minustah para a proteção dos
civis, que estão pagando um preço alto - a própria
vida", disse Rocha.
Carolina Vila-Nova
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