| Folha de São Paulo –
16 de outubro de 2005
Trauma
no pós-desastre desafia vítimas
Pessoas que viveram
catástrofes como o tsunami enfrentam depressão e ansiedade
ao tentar superar experiência
Vítimas de grandes desastres como o furacão
Katrina, o tsunami na Ásia e o recente terremoto no Paquistão
enfrentam no período pós-catástrofe obstáculos
tão desafiadores quanto o evento em si: a superação
de traumas e a tentativa de retomar a vida normal.
Pessoas que passaram pela experiência de perder parentes próximos
e a maioria de suas posses apresentam sintomas de depressão,
estresse e ansiedade, afirmam especialistas. Renato Souza, psicólogo
brasileiro que trabalha há quatro anos na organização
Médicos sem Fronteiras, constatou em uma pesquisa que 70%
dos membros de uma comunidade afetada pelo tsunami na Indonésia
apresentavam esse quadro seis meses após o ocorrido. Os efeitos
no pós-desastre foram objeto de preocupação
da Organização Mundial da Saúde, que orçou
em US$ 67 milhões o custo do tratamento inicial de saúde
mental para as vítimas do desastre asiático.
Souza, que passou quatro meses em Banda Aceh, uma das regiões
mais atingidas, relata que "muitas pessoas têm pesadelos
com o desastre e outros sentem tremores apenas ao ouvir o barulho
do mar". Para o psicólogo brasileiro, uma das maiores
dificuldades nesse tipo de tratamento é que não existe
uma padronização dos procedimentos de tratamento de
saúde mental como há para outras doenças. "Sempre
é preciso avaliar as estratégias caso a caso."
Em Banda Aceh havia um elemento que agravava a situação
das vítimas do tsunami: o conflito separatista na região,
que desde 1976 matou cerca de 15 mil pessoas. Só neste ano
foi feito um acordo de paz entre o governo da Indonésia e
grupos guerrilheiros.
Segundo Renato Souza, as pessoas já eram submetidas a certas
situações de estresse e tiveram de enfrentar outras,
diferentes. "No conflito armado, as pessoas estão a
todo momento vivenciando o problema, o que inculca o medo de incidentes
violentos com pessoas próximas e a falta de perspectiva para
o futuro. Com o desastre natural, em apenas um dia ocorre um grande
impacto de algo que não se esperava."
O psicólogo, que partiu na última sexta-feira para
Muzaffarabad, capital da Caxemira paquistanesa e epicentro do terremoto
de 7,6 graus na escala Richter que matou cerca de 25 mil pessoas,
diz que uma das mais importantes ações para reduzir
as conseqüências psicológicas é prover
as vítimas com informação sobre o que está
ocorrendo.
"Sempre há a impressão na pessoa afetada pelo
desastre de que ela está desamparada, esquecida em meio às
centenas de outras na mesma situação e sem saber como
estão seus parentes e amigos. A informação
minimiza o impacto da catástrofe", diz.
Desastre tecnológico
O sociólogo J. Steven Picou, um dos responsáveis por
uma pesquisa com moradores de Prince William Sound -cidade do Alasca
que, em 1989, teve seu ecossistema severamente afetado pelo derramamento
de 37,5 mil toneladas de petróleo no mar pelo navio Exxon
Valdez- afirma que o impacto de uma catástrofe natural é
menor do que o chamado "desastre tecnológico",
que implica a ação do homem: "Estima-se que,
no primeiro caso, o abalo seja reduzido em três anos, enquanto
o segundo pode durar até 15 anos".
Picou explica que eventos como o do Exxon Valdez ou de Tchernobil,
o pior acidente nuclear da história, envolvem a recuperação
do ecossistema de uma comunidade e, um dos fatores que causam mais
estresse, as batalhas legais com os responsáveis pelo acidente,
que podem durar anos.
Segundo a pesquisa do professor da Universidade de South Alabama,
entre 50% e 65% dos pescadores que dependiam do ambiente afetado
pelo desastre do Exxon Valdez tinham problemas médicos e
emocionais. Mais de 40% tinham sintomas de depressão forte
seis anos após o evento.
O caso do furacão Katrina, segundo J. Steven Picou, é
um híbrido entre catástrofe natural e desastre tecnológico,
porque incluiu a destruição de várias indústrias
petroquímicas da área de Nova Orleans que resultou
na contaminação da água por fluidos tóxicos.
"Isso se traduz em um cenário em que muitas pessoas
cujas moradias se tornaram impossível de habitar são
obrigadas a uma diáspora forçada. O Katrina está
se tornando cada vez mais um desastre tecnológico, até
pelas controvérsias legais que irá suscitar. E, nesse
caso, as pessoas tendem a se tornar muito nervosas, porque é
o tipo de evento em que elas podem apontar o dedo para os responsáveis
e dizer: "Por que isso aconteceu?'", diz Picou.
Comunidades de Nova Orleans poderão nunca mais retomar as
condições anteriores. Assim, o desafio para esses
grupos, afirma, é imaginar uma nova forma de reinvenção:
"A saída para essas comunidades é se perguntar:
no que podemos nos transformar? O que queremos ser no futuro?".
Shin Oliva Suzuki
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