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Folha Online – 14 de janeiro de 2008

Antes da crise, Nairóbi era metrópole habitada por estrangeiros

FÁBIO DE PAULA
da Folha Online

Antes de ser tomada pela crise que atinge o Quênia desde dezembro de 2007, a capital do país africano, Nairóbi, era uma grande metrópole como as outras do mundo todo, com agitação noturna e habitada por estrangeiros. Hoje, a cidade está cercada pela violência, com bancos e escolas fechados, bloqueios em estradas, dificuldade de locomoção e centenas de milhares de pessoas em busca de ajuda e abrigo em campos de refugiados.

"Nairóbi é uma cidade grande, onde se pode encontrar de tudo, diversas ruas com lojas, restaurantes, bares, casas, edifícios e shoppings. É uma grande metrópole, que já tinha preocupação com a segurança, mas que estava mais relacionada a assaltos e à violência urbana comum às grandes cidades", conta a psicóloga paulistana Anna Cecilia Moraes, 25, que esteve no Quênia por quase um mês a serviço dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Além da mudança no cenário da capital, a crise --que teve início em 27 de dezembro, após o anúncio da vitória de Mwai Kibaki nas eleições presidenciais-- já deixou cerca de mil mortos. Líderes da oposição contestam o resultado, porque dizem acreditar que os 1 milhão de votos recebidos pelo atual governante foram fraudulentos.

Segundo Moraes, que esteve no Quênia entre os dias 4 de janeiro e 2 de fevereiro, as áreas mais atingidas pela violência são, além das favelas de Nairóbi, outras cidades grandes como Naivasha, Nakuru e Eldoret.

"No interior do vale do Rift (oeste), onde há campos de refugiados, nós também tivemos um aumento no número de pessoas que chegavam", diz ela.

"É muito duro se ver às voltas com pessoas que abandonaram tudo o que tinham, ainda que não fosse muito, como uma casa, alguns móveis, uma vaca, umas galinhas. Pessoas que fugiram só com a roupa do corpo. Esse desespero humano é muito difícil de ver", conta a psicóloga brasileira formada pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), que acompanhou de perto a realidade dos campos que abrigam cerca de 300 mil quenianos desalojados.

Leia a íntegra da entrevista exclusiva dada por Moraes à Folha Online:

Folha Online - Você já havia estado no Quênia anteriormente?

Moraes - Sim, em março de 2006. Eu estava a caminho do Burundi e fiz uma escala no Quênia. Passei um dia em Nairóbi.

Folha Online - Qual foi sua primeira impressão da cidade?

Moraes - Nairóbi é uma cidade grande, onde se pode encontrar tudo, diversas ruas com lojas, restaurantes, casas, edifícios e shoppings. É uma metrópole, que antes já se preocupava com a segurança, mas que antes estava mais relacionada a assaltos e outros tipos de violência urbana comum às grandes cidades. Há cadeados, grades nas janelas, muros altos. Prédios e condomínios que contratam empresas de segurança para fazer o controle de portarias. Mas era uma cidade agradável, e havia muitos estrangeiros morando em Nairóbi.

Folha Online - E atualmente, qual foi sua impressão?

Moraes - Nesse último mês em que eu estive lá, a movimentação do MSF estava bastante restrita, então não podíamos ir para qualquer lugar, porque havia risco de haver bloqueios nas ruas, ou de estar acontecendo alguma manifestação e a gente poderia ficar preso em algum local de onde depois não conseguiríamos mais sair. Não há avenidas tão grandes como nas cidades brasileiras, a estrutura da cidade é um pouco mais simples. Então eu vi pouco de Nairóbi dessa vez, fiquei muito mais tempo dentro do escritório e da casa onde eu estava morando. Assim, acho que a impressão geral que mais marcou meu trabalho é de que o bloqueio das ruas atrapalhavam a circulação de toda população porque os próprios funcionários quenianos tinham dificuldade de chegar ao trabalho ou de voltar pra casa.

Folha Online - Você esteve na zona rural do país. Lá também há bloqueios e violência?

Moraes - O MSF trabalha principalmente na região oeste do país, com os refugiados internos. São os quenianos obrigados a abandonar suas casas e a encontrar locais onde corram menos riscos. Por isso, nós vemos uma grande população caminhando nas estradas, e nossos campos a cada dia recebem mais famílias procurando espaço, tendas, qualquer tipo de auxílio que as organizações possam dar. Mas algumas das estradas estavam fechadas.

Para voltar de Kitale, que é a cidade onde eu estava, a princípio nós poderíamos ir a Eldoret, onde há um aeroporto muito grande para pegar um avião de carreira. Mas foi impossível porque a estrada entre as duas cidades estava muito perigosa, principalmente para a equipe queniana. Então nós tivemos que nos organizar para que uma outra agência humanitária enviasse um avião a Kitale, trazendo suprimentos e funcionários, e nos levasse de volta.

Folha Online - Qual são as regiões mais afetadas por essa onda de violência recente?

Moraes - O que eu posso dizer é que nosso trabalho aumentou muito nas regiões de favela em Nairóbi. Em outras cidades grandes como Naivasha, Nakuru e Eldoret, também houve um aumento no número de pessoas que nós atendemos nos hospitais e nas clínicas móveis que mantemos no Quênia. No interior do vale do Rift, oeste do Quênia, onde há campos de refugiados, nós também tivemos um aumento no número de pessoas que chegavam.

Folha Online - Além da dificuldade de locomoção, há mais conseqüências da crise para o cotidiano do cidadão comum nas cidades quenianas?

Moraes - Algumas instituições do país, como os bancos, ficaram fechadas durante dias. As escolas foram fechadas. O órgão de imigração, que faz um trabalho importantíssimo no Quênia, não fez o atendimento de rotina.

Folha Online - E o fornecimento de alimentos?

Moraes - Nós do MSF não tivemos dificuldades com relação à comida. A dificuldade maior que tivemos foi com o recebimento dos medicamentos e kits que vêm de fora e entram pelo Quênia, e que nós também distribuímos em outros países da região. A liberação na alfândega e o transporte desses suprimentos demorou muito mais do que o esperado.

Folha Online - Qual foi a experiência mais marcante? Você
presenciou alguma cena de violência explícita?

Moraes - Sempre é difícil ver a situação das pessoas nos campos de refugiados. Em Neber, no oeste, há mais de 10 mil pessoas. No campo de Sharingan, havia mais de 7 mil quando eu estive lá. É muito duro se ver às voltas com pessoas que abandonaram tudo o que tinham, ainda que não fosse muito, como uma casa, alguns móveis, uma vaca, umas galinhas. Pessoas que fugiram só com a roupa do corpo. Esse desespero humano é muito duro de ver. Mas eu não presenciei nenhum tipo de assassinato nem vi corpos.

Folha Online - Como manter a calma diante de uma situação como essa?

Moraes - Eu trabalho na parte administrativa e hoje o MSF tem mais de 200 funcionários quenianos e mais de 30 estrangeiros. Nossa agência trabalha desde 1992 no Quênia, então somos conhecidos não somente pelas autoridades, mas também pela população. As pessoas já sabem do que se trata e isso facilita nossa locomoção pelas ruas, com o nosso carro e com as nossas roupas. Por outro lado, quanto mais para o interior nós íamos, menos conhecidos éramos. Então era mais necessário dedicarmos nosso tempo para explicar às pessoas quem nós somos e o que estávamos fazendo ali. Isso é muito importante. Nós contávamos com nossa equipe local, que fala as línguas locais, dependendo da tribo. E quanto menos as pessoas freqüentam a escola, menos falam inglês ou kiswahili, as línguas oficiais do Quênia.

Folha Online - Quantos médicos brasileiros do MSF há no Quênia?

Moraes - De São Paulo, há um infectologista e uma médica clínica. De Belo Horizonte, há uma médica infectologista e patologista e um psiquiatra, que ainda não está atuando diretamente com a população.

Folha Online - Em que outros países você já esteve junto do Médicos Sem Fronteiras?

Moraes - Teoricamente, meu trabalho deve acontecer só no Brasil. Mas eu fui a outros países para adquirir experiência sobre o trabalho que eu exerço aqui, e também para fazer visitas e apoiar atividades que são feitas com o staff. Então além do Quênia, eu fiz uma visita ao Burundi e participei de uma reunião com o staff no Peru. Trabalhei também no escritório de Bruxelas que é um dos escritórios centrais do MSF.

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