| Folha de Londrina – 01 de
junho de 2008
POR UM MUNDO MELHOR - No passaporte, o carimbo
da solidariedade
Administrador londrinense troca carreira promissora pelo trabalho
voluntário: ele viaja o mundo com a ONG Médicos Sem
Fronteiras
"Entre meus amigos, fui taxado de maluco, de doido mesmo.
Hoje, todos encaram numa boa.", revela Samuel Oliveira.
Imagine chegar aos 25 anos, com estabilidade financeira, negócio
próspero e próprio, casa, comida, roupa lavada e cercado
pelo carinho de familiares e amigos. Eis o sonho e objetivo de muitos,
certo? Para o administrador de empresas Samuel Elias Bertolani de
Oliveira, hoje aos 28, a independência financeira não
era sinônimo de realização pessoal e profissional.
''Sam'', como é conhecido entre os mais íntimos, decidiu
ir além.
''Tinha uma empresa de material cirúrgico e, à época,
alcancei uma satisfação financeira bastante grande.
Só que não estava feliz com o que fazia, não
era tão pleno assim. Apesar de ganhar dinheiro, sentia-me
uma pessoa incompleta. Busquei, então, o que realmente queria
fazer para ser feliz: descobri-me no meio humanitário.'',
relembra.
No início de 2007, Samuel viajou para sua primeira missão,
com a Médicos Sem Fronteiras (MSF), principal organização
não governamental de ajuda médica no mundo (leia mais
nesta página). Destino? O Zimbábue.
''No começo, familiares e, em especial, meus pais, ficaram
um pouco relutantes porque é sabido que o profissional dos
Médicos Sem Fronteiras vai por muitas vezes para a zona de
conflito. Entre meus amigos, fui taxado de maluco, de doido mesmo.
Hoje, todos encaram numa boa.'', revela.
Localizado na África, o Zimbábue é um país
que beira o caos: a saúde está em colapso, o sistema
bancário idem e a inflação registra patamares
astronômicos. Uma vez inserido na organização,
Samuel, que fala três idiomas fluentemente, cuidou de toda
a parte administrativa da missão.
''Planejava orçamentos, cuidava de folhas de salário,
férias do nosso 'staff'. Fazia a parte não-médica.
A MSF é extremamente organizada: até quando os médicos
vão vacinar uma pessoa em campo, por exemplo, eles precisam
de uma estrutura de logística que possibilite essa chegada.
Dos jipes aos motoristas e peças para manutenção,
tudo precisa ser calculado e planejado.'', revela o rapaz.
Dentre as muitas cenas que viu, durante o ano em que residiu no
Zimbábue, Samuel chama a atenção para a questão
do HIV. ''Cerca de 26% da população do país
tem prevalência do HIV. Enquanto no Brasil sabemos de um ou
outro caso, no Zimbábue as pessoas portadoras do vírus
da Aids batem à sua porta, pedem emprego e tentam sobreviver,
num país em que 80% da população sofre com
o desemprego. O que meus olhos viram não foi uma situação
de pobreza. Vai além: trata-se de miséria mesmo.''.
Do convívio com expatriados que se somaram à missão,
Samuel, que residiu com um francês e uma dinamarquesa, trouxe
boas recordações. E não se enrolou no idioma.
''Acordávamos às 6h e trabalhávamos oito horas,
diariamente. Aos fins de semana, o lazer era assistir a filmes e
fazer um churrasco, que, por lá, era de pavão (risos).
Tinha como colegas belgas, franceses, etíopes, noruegueses
e italianos. A comunicação era em francês e
inglês e, como muitos projetos da MSF Internacional na África
são em países colonizados por Portugal, nossa língua
era muito bem-vinda.''.
De férias em Londrina até o próximo dia 10,
Samuel afivela as malas para mais uma missão. Serão
seis meses de estadia no Congo. ''A MSF tem uma administradora internacional,
que analisa seu perfil, quantos idiomas você fala e qual sua
experiência. Desta vez, aceitei o convite de ir ao Congo e
espero ver um cenário bem parecido com o de Zimbábue.
No entanto, estou otimista em relação à economia
do país, que parece estar em melhores momentos. O que me
preocupa, mesmo, em relação ao Congo são alguns
focos do Ebola, muito agressivo. Isso está me preocupando,
mas não com minha saúde, e sim com o que vou ver em
campo.''.
Nascido em Curitiba e residindo em Londrina desde os 10 anos, ''Sam''
já vislumbra seu futuro. E ele passa bem longe dos domínios
pés-vermelhos. ''Não me imagino fazendo outra coisa
a não ser isso. Quero continuar no meio humanitário
e me imagino, em cinco anos, sendo chefe de missão, esse
é meu objetivo. Sou muito feliz com minhas novas atribuições
e em momento algum me arrependo. Aprendi a ser mais tolerante, e,
se antes queria só ajudar, hoje, acho que todo mundo tem
direito a tratamento de saúde. E é para isso que as
ONGs humanitárias estão aí.'' Aos amigos
de Samuel, fica a dica: Londrina, para ele, só nas férias.
Thiago Nassif
Por trás da linha de combate
Vendedoras ambulantes exibem suas mercadorias na beira de uma estrada
africana. "Os tomates e o passarinho frito eram nosso lanche
rápido.".
Considerada a principal organização não-governamental
de ajuda médica no mundo, a Médicos Sem Fronteiras
foi criada em 1971 na França, por médicos e jornalistas
que haviam trabalhado em Biafra, na Nigéria, junto às
vítimas da guerra civil.
Indignados com as situações que haviam presenciado,
decidiram criar uma organização que pudesse levar
cuidados médicos para quem precisa, de forma rápida
e eficaz, ao mesmo tempo em que chamasse a atenção
para o sofrimento das populações atendidas.
''Trata-se de uma associação independente de política
e qualquer outro tipo de discriminação voltada a atender,
principalmente, num primeiro momento, pacientes de conflitos armados.
Como geralmente os dois lados dos conflitos não queriam dar
um cessar-fogo, fazia-se necessária a criação
de uma organização que pudesse ingressar nessas áreas
e atender os feridos. O testemunho do médico sem fronteiras
é algo muito forte, pois ele leva cuidados à população
com estresse, sendo vítima de guerras ou doenças'',
explica Samuel.
Atualmente, a MSF - vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1999
- está presente em 70 países, incluindo o Brasil.
Os tipos de situação que mais requerem os cuidados
da ONG são os conflitos armados, deslocamentos de populações
e catástrofes naturais; fomes, epidemias e doenças
negligenciadas, como cólera, sarampo, desnutrição,
HIV/ Aids, doença do sono, entre outras, além de situações
de exclusão. (T.N.)
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