| |
Folha
de S. Paulo - 18 de agosto de 2008
Ao Brasil, notícias da fome na Etiópia
Onde está a "mão invisível" que regula
o mercado? Nenhuma das pessoas que vi morrer de fome por aqui parecia
conhecê-la
DAVID OLIVEIRA DE SOUZA
É CONSENSO para organizações internacionais
como Unicef e FAO (Fundo das Nações Unidas para Agricultura
e Alimentação) que a produção mundial
de alimentos é mais que suficiente para cobrir as necessidades
terrestres. Porém, durante a leitura deste artigo, 60 crianças
no planeta morrerão de desnutrição e, ao fim
do dia, serão quase 20 mil. Na Etiópia, onde trabalho
em uma emergência nutricional com Médicos Sem Fronteiras
(MSF), todos os dias me pergunto por onde anda a mão invisível
e mágica do mercado global, o melhor regulador da economia.
Nenhuma das pessoas que vi morrer de fome por aqui parecia conhecê-la.
Em Kambata, no sul da Etiópia, fica bem clara uma das lógicas
geradoras de fome. Dedicadas à produção de
gengibre para o mercado externo, muitas famílias de pequenos
produtores deixaram de produzir comida para consumo próprio,
imaginando que, com a venda da colheita, poderiam comprar os insumos
necessários a seu sustento. O preço do gengibre, contudo,
ficou abaixo do esperado, o custo dos alimentos subiu, agravado
pela crise mundial e pelo clima local e, como resultado, a fome
chegou. Crise semelhante se deu no Níger, em 2005, onde à
insuficiente produção de subsistência uniram-se
a seca e os ataques de gafanhotos à lavoura. Nesse país,
onde MSF já cuidou de mais de 500 mil crianças desnutridas,
ao mesmo porto de onde partiam navios abarrotados de cereais para
exportação chegavam carregamentos de ajuda alimentar
para a faminta população local. Embora o aumento do
custo dos alimentos seja um importante fator de crise, é
preciso lembrar que ele apenas agrava uma situação
crônica. Segundo a OMS (Organização Mundial
da Saúde), a desnutrição representa 10% de
todas as doenças e já vem sendo há muito tempo
negligenciada pela comunidade internacional. De acordo com a Campanha
de Acesso a Medicamentos Essenciais, iniciativa de MSF, apenas 3%
dos 20 milhões de crianças com desnutrição
severa recebem o tratamento recomendado pela ONU. Quando a escassez
de comida é intensa, as famílias reduzem o número
de refeições e precisam abrir mão de bens essenciais,
como gado e até a própria casa. Se a situação
piora, as estruturas da comunidade entram em colapso, aumenta a
violência, iniciam-se grandes ondas migratórias e os
indivíduos menos valorizados na cadeia produtiva, como meninas
e órfãos, tendem à marginalização.
O momento final e mais grave ocorre quando há falta absoluta
de alimentos, afetando uma grande população por um
longo período. Nesse caso, o cenário é desolador,
e a mortalidade, altíssima. Em um acelerado processo de degradação
humana, parte de um povo vai sendo consumido e sua descendência
poderá ter a capacidade cognitiva prejudicada pela falta
de acesso aos nutrientes adequados. Aqui em Kambata, diariamente
mais de 3.000 pessoas procuram nossos centros de nutrição.
Há dias que precisamos interromper as atividades, com medo
de perder o controle da multidão desesperada. Alguns pacientes
estão tão fracos que nem conseguem engolir. É
difícil descrever a aparência da fome. A criança
desnutrida é triste, parada, tem cara de velhinho e, algumas,
por causa da carência protéica, ficam com as pernas
e o rosto inchados. Mesmo assim, é possível salvar
muitas vidas e, especialmente no caso das crianças, após
duas semanas de tratamento, o rosto muda tanto que quase não
dá para reconhecer. Duas identidades me são evocadas
no trabalho na Etiópia. A de médico e a de brasileiro.
A de médico de MSF Brasil me faz lembrar que é muitas
vezes nos centros de saúde que fenômenos como a fome
e a violência mostram sua cara mais feia e que, embora sejam
essenciais programas de desenvolvimento para evitar as crises, eles
não devem ser feitos em detrimento de respostas emergenciais
necessárias. A de cidadão brasileiro me faz desejar
que nosso país, que tem produzido algumas tecnologias bem-sucedidas
de combate à pobreza e à fome, seja mais proativo
em sua política de cooperação com outras nações
do Sul. O Brasil que precisa de ajuda também tem condições
de ajudar. Há alguns dias, perdemos Mamushe, uma menina com
nove anos, desnutrição severa e ares de princesa etíope.
Sempre que Mamushe me perguntava onde era o Brasil, eu respondia:
"Longe". Na madrugada em que tentei reanimá-la,
o corpo fraquinho não resistiu e se foi. Ao ouvir o pranto
de sua mãe, lembrei-me de uma frase proferida pelo escritor
moçambicano Mia Couto na ocasião do tsunami: "Nunca
é longe o lugar de onde nos chega um grito de apelo. O sofrimento
atingiu também a nós. O vosso luto é o nosso
luto".
DAVID OLIVEIRA DE SOUZA, 32, é médico
e responsável pela Unidade Médica de Médicos
Sem Fronteiras no Brasil. Especialista em medicina de família
e comunidade pela Uerj e em clínica médica pela UFRJ,
mestre em relações internacionais pelo Instituto de
Estudos Políticos de Paris, é professor de saúde
coletiva da Universidade Federal de Sergipe.
|