| Folha de São Paulo –
07 de maio de 2003
Para ONG,
país não deve negociar lei de patentes em acordo comercial
Entidade
teme pressões dos EUA e da Europa
Aureliano Biancarelli
O Brasil corre o risco de retroceder em todas as
suas conquistas sobre medicamentos se concordar em discutir a questão
de patentes em acordos como a Alca, a Associação de
Livre Comércio das Américas. O alerta está
em documento que a Organização Internacional Médicos
Sem Fronteiras (MSF) estava preparando ontem ao final do Seminário
sobre Lei de Patentes Brasileira: Acesso a Medicamentos e Desenvolvimento
Tecnológico, realizada durante dois dias, no Rio.
Além da MSF, participaram representantes do Ministério
da Saúde, do Itamaraty, ONGs internacionais e órgãos
de defesa do consumidor. O documento deve ser encaminhado aos negociadores
brasileiros na Alca e ao próprio presidente da República.
Os debatedores lembraram que a questão das patentes já
está estabelecida no acordo Trips, que trata da propriedade
internacional relacionada ao comércio. Na reunião
de Doha, em novembro de 2001, o Brasil conseguiu que a Organização
Mundial do Comércio confirmasse a tese de que patentes poderiam
ser quebradas quando a saúde pública estivesse em
questão.
A lei brasileira de patentes também prevê que o país
faça uso da "licença compulsória"
(quebra de patentes) se, em três anos, o laboratório
dono do produto não passe a fabricá-lo no país.
Com a quebra, qualquer laboratório pode produzir o medicamento,
independentemente de autorização do detentor da patente.
As entidades e representantes do Ministério da Saúde
dizem que, em acordos menores, como o da Alca e um possível
Mercosul-União Européia, os países participantes
não conseguiriam fazer frente aos EUA e à Europa.
O seminário também concluiu que a lei de patentes
brasileira é "restritiva ao acesso aos medicamentos"
e muito mais branda com os laboratórios do que determina
o Trips.
Outro fato é que a lei brasileira não permite a "importação
paralela", prática que autoriza um país a comprar
a droga de outro país importador que tenha obtido preços
menores do fabricante.
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