| Estado de S. Paulo – 27
de maio de 2008
Mianmar libera
permissões para entrada de voluntários
BANGCOC
- Voluntários estrangeiros começaram a receber permissão
para viajar até as áreas mais remotas de Mianmar atingidas
pelo ciclone Nargis, agências humanitárias afirmaram
nesta terça-feira, 27. As primeiras permissões, emitidas
nos últimos dois dias, quebram a barreira erguida pelo governo
e que atrasou a entrega de suprimentos para os milhões de
desabrigados na região do Delta do rio Irrawaddy.
ONU e países da Ásia realizam
conferência para ajudar Mianmar
A abertura foi autorizada mais de três semanas depois do
ciclone, que deixou mais de 135 mil pessoas mortas ou desaparecidas.
A ONU estima que 1,5 milhão de sobreviventes, na região
do Irrawaddy, não receberam qualquer tipo de ajuda humanitária.
A permissão segue o acordo anunciado na última sexta-feira
pelo secretário-geral Ban Ki-moon, depois de um encontro
com o líder da junta militar de Mianmar, o general Than Shwe.
Em meio aos apelos por esforços para assistência às
vítimas do ciclone, o governo militar estendeu nesta terça-feira
a prisão da líder carismática pró-democracia
Aung San Suu Kyi por mais um ano. Suu Kyi está em prisão
domiciliar por 12 dos 18 anos em que permanece detida. As prorrogações
de sua pena se tornaram uma rotina anual. Cerca de vinte de seus
apoiadores foram detidos nesta terça em uma tentativa de
liderar uma marcha até a residência da ativista, segundo
afirmou o seu partido, a Liga
Nacional pela Democracia (LND).
Embora a prisão de Suu Kyi estivesse no topo da agenda da
ONU com a junta militar, Ban Ki-moon não chegou a discutir
o tema em seu último encontro com os líderes do Estado.
"Nós devemos pensar nas pessoas agora, não em
política", disse ele antes de voltar para Nova York.
Em uma conferência para arrecadar fundos para as vítimas
do ciclone, doadores internacionais ofereceram milhões de
dólares para auxiliar os sobreviventes, mas grande parte
condicionou a ajuda humanitária à entrega por equipes
internacionais nas áreas remotas. "As primeiras indicações
são de que voluntários estrangeiros poderão
participar e os fatos parecem ser positivos", disse Richard
Horsey, do Escritório de
Coordenação de Assuntos Humanitários da ON
em Bangcoc. "Mas antes de
comemorar a vitória, devemos ficar de olho".
Horsey afirmou que o Programa de Alimentação da ONU,
o Unicef e um grande número de organizações
internacionais, incluindo a ONG Médicos Sem Fronteiras, enviaram
equipes internacionais para as áreas afetadas. A ONG afirmou
ainda que seus funcionários alcançaram regiões
remotas no delta, onde pessoas não comem há três
dias. "Centenas de pessoas não viram qualquer ajuda
humanitária e ainda não receberam qualquer assistência",
declarou a agência.
Mas os números são ainda pequenos, as permissões
desiguais e os procedimentos ainda incertos. "Não somos
ingênuos o suficiente para acreditar que a diretriz política
dos superiores será traduzida na prática em todos
os níveis na região do delta", afirmou secretário-geral
da Asean, o tailandês Surin Pitsuwan, que coordena os esforços
de ajuda. "Estamos abrindo", ele afirmou, "passo
a passo".
Os generais no poder, amplamente condenados pelo Ocidente e pela
ONU por suas políticas e abusos dos direitos humanos, resistiram
em receber o auxílio internacional para a reconstrução
do país, temendo que isso minasse o poder dos militares.
Enquanto a aparente concessão abre as portas do país
para doadores internacionais, o governo militar negou permissões
aos navios de guerra dos Estados Unidos, França e Reino Unido
para descarregarem suprimentos no país. Ao negar a entrada,
o governo disse que teme que qualquer ajuda de potências do
Ocidente tivessem as "cordas atadas". Entretanto, a junta
permitiu que mais de 60 aviões da Força Aérea
americanalevassem mantimentos para o aeroporto de Rangum.
Michael Bociurkiw, porta-voz do Unicef, afirmou que a agência
recebeu permissão para seis de seus membros viajarem ao interior
do país. "Nós vemos isso como uma janela aberta
e gostaríamos de mandar mais pessoas para lá".
O primeiro passo é fazer uma rápida avaliação
das necessidades das áreas atingidas e que não foram
alcançadas, ele afirmou. As prioridades da organização
são a água, saneamento e proteção às
crianças, em particular as que estão sozinhas.
Com cerca de 30% das crianças da região já
são subnutridas, os voluntários temem que elas sejam
particularmente mais suscetíveis às doenças
como cólera, que são espalhadas pela água contaminada.
A estação das monções está se
aproximando, lembra Bociurkiw, e as equipes de ajuda temem uma segunda
onda de mortes por epidemias e doenças não tratadas.
"É uma luta contra o tempo", ele disse.
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