| Brasil
quer preço justo para droga contra aids
Saúde defende em evento no México nova redistribuição
de valores
Fabiane Leite
O Programa Nacional de Aids do Ministério da Saúde
criticou os preços dos medicamentos contra o HIV durante
a 17ª Conferência Internacional de Aids, que ocorreu
na última semana, no México, e defendeu uma política
mais justa para os valores cobrados pela indústria farmacêutica
na América Latina.
"A política da indústria é baseada na
prevalência da doença e na renda média, mas
o que defendemos é o preço justo, que leve em conta
outros fatores, como o fato de um país garantir acesso universal.
Vamos buscar uma redistribuição de preços",
disse a diretora do programa, Mariângela Simão, na
última quinta-feira, depois de falar para mais de 3 mil pessoas
em uma das sessões da conferência em que o Brasil foi
destaque por ter a política mais robusta e universal de acesso
a medicamentos contra a aids.
O evento é o mais importante da área e ocorre a cada
dois anos. Esta foi a primeira vez que a conferência aconteceu
na América Latina.
Segundo a diretora, hoje as empresas oferecem drogas por valores
mais acessíveis em países pobres da África,
por exemplo, mas há disparidades inexplicáveis nos
valores pagos por outras instituições e governos.
"Para os países africanos há preços humanitários,
mas até para a América Latina, onde se recebe pouca
ajuda externa e há sistemas de saúde instalados, há
diferenciais gigantescos e inexplicáveis", explicou.
A diretora destacou que o Brasil deve passar a pagar US$ 3,25 pelo
comprimido do anti-retroviral Tenofovir, após negociação
com a fabricante do medicamento, enquanto o México paga hoje
US$ 6,50. Fora do continente, a Tailândia, que tem nível
de desenvolvimento comparável ao do Brasil, paga pouco mais
de US$ 1. Outro exemplo, afirma, é a combinação
de lopinavir e ritonavir (Kaletra), que custa US$ 5 mil por ano
no México e US$ 1 mil no Brasil.
A diretora destacou ainda que os preços das drogas são
uma "caixa preta", além de terem influência
dos gastos em marketing dos laboratórios. Exemplificou citando
os brindes distribuídos pelas empresas durante a própria
conferência. Foi aplaudida pelos participantes do evento.
Neste ano, o custo do acesso universal no País, que cresce
continuamente, deverá passar de R$ 1 bilhão. O governo
tem fomentado debates mundiais sobre os preços dos anti-retrovirais
em busca de preços melhores desde a gestão José
Serra no Ministério da Saúde, política que
culminou com o licenciamento compulsório da droga contra
a aids Efavirenz, no ano passado, logo depois da posse de José
Gomes Temporão. A produção nacional da droga,
no entanto, está atrasada e o Brasil mantém a importações
de genéricos indianos para garantir a queda dos preços.
As declarações da diretora também condizem
com manifestações feitas durante a conferência
por Peter Piot, representante das Nações Unidas, e
por Michel Kazatchkine, diretor-executivo do Fundo Global de Combate
à Aids, Tuberculose e Malária, instituição
que canaliza recursos dos países mais ricos para o combate
às doenças nos países menos favorecidos. Ambos
alertaram que novas idéias são necessárias
para enfrentar o aumento das despesas com os anti-retrovirais -
os gastos devem bater em US$ 54 bilhões em 2015, previram.
Kazatchkine sugeriu ainda que as economias em crescimento, como
é o caso do Brasil, busquem garantir o acesso aos remédios
com recursos próprios, liberando verba do fundo para países
mais pobres.
A conferência também abriu espaço para as primeiras
discussões sobre o fundo de patentes proposto pela Central
Internacional para a Compra de Medicamentos contra Aids, Tuberculose
e Malária (Unitaid), iniciativa da qual o Brasil faz parte,
e que também poderá reduzir gastos. Segundo a ONG
Médicos Sem Fronteiras, que apóia a iniciativa, a
idéia é estabelecer um pool de patentes, mecanismo
em que licenças de companhias, universidades e outras entidades
são tornadas disponíveis para produção.
DESÂNIMO
A preocupação com os custos dos anti-retrovirais
torna-se ainda maior diante de dados desanimadores apresentados
durante o evento. Atualmente apenas um terço dos portadores
do HIV que necessitam de remédios no mundo está sob
tratamento, 3 milhões de pessoas, e as Nações
Unidas reconheceram na conferência que os países não
deverão cumprir a meta de fornecer tratamento a todos que
precisam até 2010 - o Brasil, portanto, é exceção.
Segundo José Márcio de Oliveira, representante do
Conselho Nacional de Saúde que participou da conferência,
a notícia "parece mais do mesmo". "Nada que
não sabíamos. O compromisso não será
cumprido por falta de vontade política dos países."
Também a ausência de boas notícias sobre a
pesquisas de drogas e vacinas trouxe desânimo aos médicos
presentes. Mas durante a semana sobraram polêmicas, como a
antecipação do tratamento em pacientes assintomáticos
e o uso dos remédios como prevenção em relações
sexuais de soropositivos, substituindo a camisinha. O debate não
acabou.
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