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Revista
Época – 17 de setembro de 2008
Quem são as vítimas da fome
O médico brasileiro David Oliveira
de Souza relata os problemas que levaram a Etiópia a padecer
com a falta de comida, 20 anos depois da crise que sensibilizou
o mundo
Isabel Clemente
Na pequena cidade de Shishincho, numa das regiões da Etiópia
mais castigadas pela crise alimentar que volta a assolar paises
pobres da África, há uma única pensão.
Era ali que o grupo de voluntários estrangeiros da organização
Médicos sem Fronteiras costumava se reunir, à noite,
para comer pão com ovo ou o prato típico local, o
injara (um tipo de panqueca). Ao saber que, na turma, havia um brasileiro,
uma das garçonetes apareceu com sua irmã mais nova
a tiracolo: uma menina de cinco anos e olhos expressivos chamada
Brazil. Batizada assim por causa da seleção de futebol
pentacampeã do mundo, Brazil passou a freqüentar o lugar
para ver o médico carioca, David Souza, de 32 anos, de perto.
Ficava plantada ao lado da mesa, ora séria, ora sorrindo,
fitando o único elo palpável entre seu nome e o distante
país que homenageava.
Brazil é apenas uma das imagens que não
saem da cabeça de David Souza, desde que retornou da Etiópia,
onde esteve por sete semanas trabalhando no combate à desnutrição
grave de milhares de pessoas, agravada pela alta no preço
dos alimentos que, segundo relatório divulgado nesta quarta-feira
(17) pela Organização das Nações Unidas
para a Alimentação e a Agricultura (FAO), levou o
número de pessoas com fome de 850 milhões para 925
milhões em 2007.
Por conta disso, em maio, o MSF foi obrigado a mudar o foco da ação
na Etiópia: do atendimento a portadores de HIV e vítimas
da tuberculose para uma intervenção de emergência
contra a desnutrição severa. Até o mês
passado, 20 mil pessoas haviam sido atendidas. Responsável
pela unidade médica do MSF no Brasil, Souza é especializado
em Medicina de Família e Comunidades, além de ter
mestrado em Relações Internacionais pelo Institut
d'Études Politiques de Paris. A crise por que passa a Etiópia
agora não chega a ter as mesmas proporções
da que mobilizou artistas nos anos 80, mas se agrava à medida
que passa despercebida pelo mundo, na opinião de Souza.
Multidões implorarando comida; crianças carregando
irmãos menores atados às costas atrás de socorro;
o pranto melódico de mulheres no enterro de seus filhos mortos
de fome; e o olhar emocionado da freira paulista que há dez
anos se dedica aos órfãos etíopes são
algumas das histórias que o médico conta, na seguinte
entrevista a ÉPOCA.
ÉPOCA – Os etíopes
estão sendo vítimas da alta no preço dos alimentos?
David Oliveira de Souza - Eles estão sendo
profundamente afetados por esse e outros fatores que se somam numa
coincidência cruel. A seca comprometeu a última colheita;
a renda da produção local, altamente voltada para
o mercado externo, encolheu. Eles produzem basicamente gengibre,
e o preço do gengibre despencou nos últimos meses.
Daí eles ficaram sem alimentos e sem renda para comprar a
comida cada vez mais cara. Alguns alimentos mais que dobraram de
preço do ano passado para cá. Quando saí de
lá, alguns produtos estavam baixando de preço. A espiga
de milho chegou a custar 2 berr (fala-se bir), caiu para 1 e agora
para 50 centavos do berr. Está quase ao alcance do poder
aquisitivo local.
ÉPOCA – Fotos
da região de Kambata, onde você estava, no Sul da Etiópia,
revelam uma área verde, parece próspera. Mesmo assim
faltam alimentos?
Souza – É realmente incrível
porque todo mundo fica imaginando uma paisagem desértica,
mas o clima é frio, cerca de 10º, e a paisagem é
muito verde, o que não significa que teve colheita. É
como o cerrado, basta uma chuva para ficar verde, mas o tempo da
colheita é outro.
ÉPOCA – A
crise de hoje guarda alguma relação com o grave problema
dos anos 80?
Souza - Em dimensão, as crises não
são comparáveis. A dimensão da fome dos anos
80 era ainda maior, apesar de não ter o efeito da alta de
alimento, como a de hoje. Simplesmente não havia alimento
algum. Mas o que está acontecendo hoje é muito grave
porque não aparece, é uma crise silenciosa, e a falta
de alimento em pouco tempo gera uma tragédia. Dois meses
sem comida é muito tempo para as crianças. Elas podem
até recuperar o peso, mas nunca o que perderam do ponto de
vista de desenvolvimento humano e cognitivo. Elas ficarão
prejudicadas para sempre. Levarão seqüelas para a vida
inteira. Tem criança ficando cega por falta de vitamina.
Não tem mais o que fazer em relação a isso.
ÉPOCA – Muitos
acreditam que ajuda humanitária a países pobres só
aumenta a dependência. O senhor acha que ajuda humanitária
atrapalha?
Souza - Essa é uma questão interessante.
Existe uma necessidade de construir a autonomia da África,
sem dúvida, mas a urgência é inquestionável.
É como se as pessoas estivessem à deriva no mar e
precisassem de um salva-vidas. A ajuda humanitária é
esse colete que vai impedir que elas morram afogadas. Tem gente
morrendo de fome e isso mais do que justifica uma intervenção
imediata. O MSF está lá salvando vidas. Mas a busca
pela autonomia é o objetivo de muitas daquelas pessoas que
não têm o que comer. Ouvi de uma menina que o maior
sonho de sua vida era não precisar de ninguém.
ÉPOCA – Havia outras organizações
e outros brasileiros trabalhando na Etiópia?
Souza - Na região de Kambata, fazendo atendimento
médico, só o MSF. Noruegueses e dinamarqueses têm
presença marcante, mas havia um bom grupo latioamericano:
eu, outra brasileira, um argentino e uma chilena.
ÉPOCA – O trabalho humanitário
vem atraindo cada vez mais médicos brasileiros. Salvar vidas
deixa uma sensação incomparável, mas muitas
se perdem também. Como lidar com tragédias coletivas?
Souza – Quando se lida com multidões
em sofrimento, existe uma tendência de se perder um pouco
a sensibilidade. É tanta gente ao teu redor, te tocando,
pedindo ajuda, em desespero, que, quase que em defesa natural, você
tende a se anestesiar um pouco contra o sofrimento do outro. Isso
é ruim se for sistemático. Eu buscava, de tempos em
tempos, me aproximar de um paciente ou outro para conhecer a história
deles de perto. Perguntava a uma mãe o nome dos filhos, os
sonhos que tinha, as perspectivas de futuro. Fazia perguntas triviais.
Foi assim que ouvi de uma mãe que o maior sonho dela era
que seus três filhos sobrevivessem. Descobri também
que muitas famílias com filhos gêmeos faziam a escolha
por um deles, visivelmente mais gordo e saudável do que o
outro. Isso acontecia porque as mães, sem ter condições
de alimentar os dois, elegiam um para sobreviver, temendo perder
ambos. É chocante demais. Esse exercício de distanciamento
e volta à realidade não é diferente do que
a gente faz numa grande emergência de um hospital no Rio de
Janeiro, quando chegam baleados, vítimas do trânsito.
É preciso ter a tranqüilidade de responder às
necessidades da urgência, mas buscar fazer o caminho de volta.
Me entristecia ver aquelas crianças extremamente magras,
envelhecidas, e também inchadas, porque a subnutrição
grave dá isso também. Fiquei muito impressionado de
ver crianças de dez anos trazendo os irmãos menores
amarrados às costas em busca de ajuda, porque os pais já
tinham morrido de fome ou tuberculose. Muitas a gente salvou, outras
não. O pranto das mães nos enterros é uma cantiga
triste, uma oração que elas fazem. É bonito
e triste ao mesmo tempo.
ÉPOCA – A Etiópia vem
se tornando um destino cada vez mais comum para casais europeus
e americanos atrás de crianças para adotar. O casal
Brad Pitt e Angelina Jolie colocou o tema em evidência ao
adotar a menina Zahara. O senhor esteve em orfanatos?
Souza – Conheci um, onde
deparei com uma história bem bacana. Percebi que adoção
é muito comum. No vôo de volta, vi vários casais
europeus com crianças etíopes, pequenas ou grandes.
Eu percebia aquele olhar de ansiedade, tanto nos pais como nas crianças,
diante de uma incrível experiência nova. Na sala de
embarque no aeroporto, em Adis Abeba, a capital, a mesma coisa.
Antes de deixarmos a Etiópia, eu e minha equipe precisávamos
encontrar um hospital para remeter os pacientes subnutridos que
também tivessem outra doença, que precisassem de um
atendimento especial. Viajamos em direção a Mudula.
No caminho, encontramos o hospital Dubbo, em Araka, onde fomos recebidos
por uma freira falando inglês. Quando ela soube que eu era
brasileiro, ficou com os olhos marejados. Ela é de Caxias
do Sul e trabalhava na Etiópia há mais de dois anos.
Na mesma hora, me disse "você precisa conhecer irmã
Francisca". Irmã Francisca é de Aparecida do
Norte, do Instituto Madre Cabrini. Estava na Etiópia há
quase dez anos, trabalhando num orfanato. Chegamos lá também
de surpresa e fomos recebidos com um caloroso "bem-vindos",
em português mesmo. Achei que ela já sabia, mas era
seu modo de receber as visitas, independente da nacionalidade. No
meio da conversa, em inglês, mudei para o português
de uma hora para outra. Ela respondeu e só então se
tocou. Foi emocionante esse encontro.
ÉPOCA – O senhor, a outra
médica brasileira e essas duas freiras são figuras
raras por lá, certo?
Souza – Infelizmente. Nosso
país tinha que ser mais ativo em relação à
África. E não estou falando apenas de ajuda financeira,
mas de tecnologia. O trabalho que a Pastoral da Criança realiza,
por exemplo, combatendo a desnutrição com medidas
simples, não depende de recursos públicos. É
um trabalho de tecnologia social. O Brasil hoje também é
um entreposto de treinamento do MSF para médicos e enfermeiros
que vêm da Europa a caminho da África. Muitos nunca
viram doenças tropicais e estão se desacostumando
a fazer leitura de exames simples como raio-X. Seria enriquecedor
o Brasil fazer esse caminho de volta à África. Eu
via aqueles meninos raquíticos, famintos, vestindo a camisa
do Ronaldinho, da seleção brasileira. As pessoas nem
sabem que Brasil é um país, naturalmente, como muitas
pessoas no interior do Brasil nunca ouviram falar na Etiópia.
Numa pensão onde comíamos conheci uma menina, de uns
cinco anos, chamada Brazil. Foi inesperado e engraçado, às
vezes, porque ela ficava em pé, do meu lado, me encarando
enquanto eu comia. Não arredava o pé de jeito nenhum.
Eu ficava me perguntando se essa fama não poderia ser útil,
de alguma forma, no combate a um problema tão grave.
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