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Entrevista
com o diretor de Médicos Sem Fronteiras
Diretor da Médicos Sem Fronteiras no Brasil e membro da organização
desde 1989, Eric Stobbaerts acompanhou de perto as muitas mudanças
pelas quais passou o trabalho humanitário nos últimos
anos. O médico belga-suíço viu aumentar o interesse
internacional, tanto dos governos como da sociedade civil, em relação
à resposta humanitária às crises do planeta,
sejam catástrofes naturais ou conflitos políticos.
Mas percebeu também que esse interesse veio acompanhado por
uma banalização do trabalho, feito com profissionalismo
por organizações como a MSF. "Existe um momento
em que você não pode rejeitar a ajuda de um ser humano
a outro ser humano. Mas providenciar ajuda humanitária é
outra história. É preciso mais do que boa vontade",
afirma.
Com a experiência de quem atuou nos conflitos
mais emblemáticos do fim do século passado —
incluindo Líbano, Bósnia e Iraque —, Stobbaerts
sabe que a agenda humanitária não pode estar atrelada
a interesses políticos ou econômicos. Em entrevista
ao Correio, ele demonstrou preocupação com a aproximação
cada vez mais freqüente entre essas diferentes áreas.
"Agora, há uma necessidade de justificar que somos realmente
neutros também às populações beneficiárias.
A percepção da população em relação
aos organismos humanitários mudou", lamenta Stobbaerts,
que também vê com reticência a atuação
"humanitária" por parte dos militares que participam
das forças de paz das Nações Unidas, como a
do Haiti.
Quais são os principais desafios
para o trabalho das organizações humanitárias?
Nos últimos anos, o contexto humanitário
tem despertado cada vez mais interesse entre a comunidade internacional
— não só as organizações, mas
também a sociedade civil organizada. Quando comecei a trabalhar
com a Médicos sem Fronteiras (MSF), no final da década
de 1980, as situações de crise, sejam conflitos ou
desastres naturais, dependiam de poucos atores internacionais bem
conhecidos, como a Cruz Vermelha e a MSF. Hoje, as grandes crises,
que são midiatizadas, atraem organizações de
todos os tipos, com vários interesses e agendas, mas que
também se classificam como humanitárias. Então,
temos visto nos últimos 10, 15 anos uma banalização
do uso do conceito "assistência humanitária".
Atualmente, qualquer ação de boa vontade é
qualificada de humanitária. Só que a definição
clássica prevê que uma "ação humanitária"
requer respostas neutras e imparciais às crises.
Que tipo de problemas essa banalização
pode trazer?
Além de as organizações humanitárias
desenvolverem um trabalho médico nos locais atingidos, há
toda uma negociação, para garantir o espaço
de trabalho. Temos que negociar, com as partes em conflito, o respeito
da estrutura sanitária, das ambulâncias e das equipes
médicas — sempre mostrando que estamos de "mãos
limpas", que somos independentes e imparciais, que estamos
ali para salvar vidas. Só que agora temos percebido uma maior
dificuldade de acesso também às populações.
Antes, precisávamos convencer somente as partes beligerantes
da nossa boa vontade e do nosso profissionalismo. Agora, há
uma necessidade de justificar que somos realmente neutros também
às populações ajudadas. A percepção
da população em relação aos organismos
humanitários mudou.
E isso se deve somente ao mau uso do termo
"humanitário"?
Há vários fatores. O primeiro deles
certamente é a proliferação dos atores denominados
humanitários. Hoje, não só ONGs ou instituições,
mas também empresas e iniciativas pessoais são denominadas
humanitárias. Isso, aos olhos das populações
beneficiadas, deixa tudo muito confuso. Na década de 1990,
era o que se chamava de "circo humanitário": uma
situação com muita desorganização e
muitos atores, onde não se sabe quem é quem. Mas no
nosso trabalho não é suficiente ter boa vontade, é
também preciso profissionalismo e ser independente das agendas
política e militar. Outro ponto que causa muita confusão
é a visão de que agir de maneira política em
uma situação de crise não é suficiente.
A comunidade internacional defende hoje a necessidade de uma agenda
integrada, que intervenha de maneira militar, política e
humanitária. Isto é, a integração desses
três pilares garantiria o sucesso da solução
de uma crise.
Quais os riscos dessa integração?
O perigo é que, ao integrar as três
agendas, você tira a dimensão neutra e imparcial da
assistência humanitária, fundamental para entrar em
um país. Em um "check point" (posto de controle),
em qualquer país, você vai ter que demonstrar a um
soldado ou a uma milícia que você realmente não
tem motivações políticas, que não tem
outro interesse a não ser salvar vidas. Então, essa
concepção, que dos pontos de vista diplomático
e político pode parecer atraente, não é boa
para nós, que trabalhamos no campo, que curamos os pacientes,
que colocamos as mãos na massa. Não se pode misturar
o mandato humanitário com o militar ou o político.
Mas no caso de grandes catástrofes,
é quase impossível separar o caráter político
da ajuda internacional...
A resposta da comunidade internacional a uma catástrofe
natural realmente pode ser tão politizada quanto a resposta
em um contexto de guerra. Não foi anódina a resposta
de vários governos ocidentais ao tsunami, por exemplo. Não
podemos esquecer que a Indonésia, o país mais atingido,
é essencialmente muçulmano. No caso de Mianmar, também
é lamentável que só após o ciclone Nargis
a comunidade internacional tenha começado a falar sobre uma
situação que a população vive há
décadas. É preciso ressaltar também a importância
da agenda econômica, já que, ao ajudar um Estado que
sofre, os países podem construir boas relações
comerciais para o futuro.
Essa relação entre as agendas
política e humanitária já trouxe problemas
para a MSF?
Infelizmente. O nosso espaço de trabalho
tem sido abusado, manipulado, para não dizer violado nos
últimos anos. A conseqüência é o aumento
da insegurança para os trabalhadores humanitários.
Nós já sofremos na pele, perdemos vários companheiros
por eles terem sido associados a uma comunidade internacional que
tem uma agenda política. No Afeganistão, onde a população
vê qualquer presença estrangeira como suspeita, perdemos
cinco colegas da MSF. No começo deste ano, três companheiros
foram mortos na Somália com a mesma determinação:
não foram balas perdidas, nós éramos os alvos
desses ataques. Outra conseqüência, é que, com
o contexto cada vez menos seguro, menos organizações
se dispõem a estar nos lugares onde a situação
é mais crítica. No Iraque, por exemplo, quase ninguém
atua dentro do país. A MSF está lá, mas de
forma muito discreta.
Então há lugares onde existe
escassez de ajuda?
Nas áreas mais atingidas, faltam, sim, respostas
humanitárias. Não há atores suficientes nas
crises não-midiatizadas, negligenciadas. Nesses lugares,
quando as câmeras de TV vão embora, a resposta e o
interesse da opinião pública também desaparecem.
Então, falta resposta, mas mesmo assim não abrimos
mão de que essas ações sejam embasadas nos
princípios da neutralidade e da imparcialidade. A questão
da independência é fundamental. Temos o privilégio
de falar que mais de 75% dos nossos fundos vêm de indivíduos,
e não de governos ou empresas. São 3 milhões
de pessoas em todo o mundo que fazem doações regulares
à MSF. E reduzir a parte do financiamento institucional é
uma estratégia nossa, porque independência financeira
é importante para a neutralidade.
Recentemente, o governo colombiano usou
o nome e o emblema da Cruz Vermelha para ajudar na libertação
de Ingrid Betancourt. Como as organizações humanitárias
vêem essa "apropriação"?
O que aconteceu na Colômbia, com o uso do
emblema da Cruz Vermelha, é mais um exemplo da deterioração
do respeito aos emblemas humanitários e médicos. Para
mim, no entanto, o mais revoltante foi o caso em que tropas norte-americanas,
buscando membros da Al-Qaeda no Afeganistão, tiraram as fardas
e se vestiram como profissionais humanitários, com jeans
e camiseta branca, alguns até com estetoscópio em
volta do pescoço e armas no bolso. Em carros brancos, eles
foram às aldeias afastadas do país, usando e abusando
da imagem dos humanitários. Essa é uma falta de respeito
que resulta em perda de confiança entre a população,
que fica com uma visão cada vez mais negativa dos nossos
trabalhadores.
Missões de paz da ONU, como a que
envolve tropas brasileiras no Haiti, também se propõem
a desenvolver trabalho humanitário. Esse tipo de atuação
realmente ajuda?
Os esforços e as missões de paz das
Nações Unidas são hoje geridas por essa concepção
da integração entre diversas agendas. Nós acreditamos
que o papel dos militares é importante, que eles têm
a sua função, mas entrar no trabalho humanitário
já e uma confusão de papéis. O trabalhador
humanitário é um profissional, que tem uma técnica
de trabalho e códigos éticos. É claro, existe
um momento em que você não pode rejeitar a ajuda de
um ser humano a outro ser humano. Mas providenciar ajuda humanitária
é outra história. Na doutrina militar, existe uma
prática chamada "hearts and minds", que significa
"ganhar os corações e as mentes" das populações
onde se faz uma intervenção militar. Só que
há vários contextos em que não podemos misturar
esse tipo de prática a ações humanitárias.
No caso do Haiti, muitas vezes depois da ação de segurança
da Minustah, entravam os programas da ONU de ajuda humanitária
— que não necessariamente se baseavam em uma avaliação
de necessidade. São ações que ajudam a aumentar
a confiança da população nas tropas de segurança,
mas que reforçam a confusão do nosso papel lá.
A MSF ainda enfrenta dificuldades para
entrar em países cujas populações precisam
de ajuda?
Quanto mais os regimes políticos são
fechados, mais temos dificuldades para intervir. Há muitos
contextos em que ainda temos dificuldades de trabalhar. Em alguns
países, a nossa presença é unicamente tolerada.
O que tem sido bastante interessante, no entanto, é o papel
dos estados emergentes, como os BRICs (grupo formado por Brasil,
Rússia, Índia e China), onde há um interesse
cada vez maior por parte da sociedade civil organizada e da opinião
pública em olhar não só a realidade dentro
de seu território, como em todo o mundo. No Brasil, por exemplo,
temos mais de 35 mil pessoas mobilizadas, que fazem doações
regularmente para que possamos ajudar lá fora.
Quais são os principais trabalhos
desenvolvidos pela MSF no mundo hoje?
A África continua sendo o continente para
o qual mobilizamos mais energia, recursos e tempo. Cerca de 70%
do nosso orçamento vai para a África, onde atuamos
em situações de conflito; de grandes pandemias, como
o HIV (vírus da Aids), malária e a tuberculose; e
de doenças negligenciadas, como leishmaniose, doença
do sono e várias doenças tropicais que não
interessam ao mundo farmacêutico. Ainda há a questão
da fome, que é muito forte na África. Nos últimos
meses, temos visto novamente uma catástrofe em nível
alimentar no sul da Etiópia, causada principalmente pelo
aumento no preço dos alimentos. No continente asiático,
além das catástrofes naturais, temos trabalhado muito
com a questão do HIV e do acesso a medicamentos. Atuamos
também em contextos de conflitos, em situações
de instabilidade política, como no Paquistão e em
partes da Índia. Um outro grande desafio são as realidades
urbanas em cidades metropolitanas, como Mumbai, Manila, Bangcoc,
onde o fenômeno de exclusão social se reflete no acesso
à saúde.
E no Brasil?
A MSF começou a trabalhar no Brasil em 1991,
em resposta a uma epidemia de cólera na região amazônica.
A partir daí, tivemos uma presença quase contínua
no país, em diversos estados. A essência da atividade,
no entanto, se deu em estados do Norte e na cidade do Rio de Janeiro.
No Rio, temos um trabalho com moradores de rua e com comunidades
que sofrem com a violência, como as de Vigário Geral
e do Complexo do Alemão. Nessa última, criamos uma
unidade médica que permite uma articulação
com o trabalho desenvolvido pelo sistema de saúde da prefeitura
do Rio, e onde também desenvolvemos um trabalho de atenção
psicosocial.
Como é a participação
brasileira na Médicos sem Fronteiras?
Temos cerca de 40 brasileiros, essencialmente da
área da saúde, que estão trabalhando em países
como Sudão, Etiópia, Mianmar. E esse número
está crescendo — o que é incrível, se
considerarmos que fazem apenas dois anos que os profissionais brasileiros
começaram a participar efetivamente. O retorno que temos
tido das equipes que trabalham com brasileiros é muito positivo,
especialmente pelo nível técnico dos profissionais,
que fazem um trabalho de qualidade e têm a capacidade de trabalhar
em contextos difíceis. Outro ponto positivo do brasileiro
é a sua capacidade de respeitar a diversidade de raças
e culturas. Toda essa riqueza da sociedade brasileira reflete em
uma relação muito interessante de tolerância,
de respeito ao outro.
Quais são os trabalhos que a MSF
ainda pretende desenvolver no Brasil?
Estamos trabalhando na criação de
uma associação brasileira da MSF, que permitirá
ao Brasil continuar olhando as necessidades médicas e humanitárias
do país, mas também exportar profissionais para todo
o mundo. Além disso, temos uma visão muito pragmática,
no sentido de aproveitar as oportunidades que aparecem. Identificamos
um nível de "expertise" muito avançado entre
os profissionais brasileiros, o que nos levou a criar aqui plataformas
de treinamento para médicos recrutados em todo o mundo, essencialmente
na Europa. Isto é, o Brasil oferecerá um espaço
de especialização para os profissionais de saúde
do "primeiro mundo". É uma formação
prática, na qual os profissionais se juntam a equipes de
trabalho de grandes hospitais durante quatro ou seis semanas e vão
melhorando a sua capacidade clínica.
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