| AIDS:
Só 31% dos infectados têm acesso a tratamento
Relatório da OMS revela que número de pacientes medicados
nos países em desenvolvimento aumenta, mas situação
na África é preocupante
Elaine Texeira, 33 anos, presencia todos os dias uma outra realidade,
bem distante daquela que costumava ver no Brasil. Nos corredores
das clínicas e hospitais de Moçambique ela ouve histórias
de vida, mas principalmente de morte. A psicóloga, voluntária
da organização Médicos Sem Fronteiras, trabalha
com homens, mulheres e crianças que têm o vírus
da Aids. No país africano, são mais de 300 mil contaminados.
Apenas 24% recebem tratamento anti-retroviral. Elaine tenta ir na
contramão das estatísticas e de um quadro mundial.
Nos países em desenvolvimento, segundo a Organização
Mundial da Saúde (OMS), apenas 31% dos infectados recebem
tratamento.
No continente africano, a situação é muito
preocupante, aponta o relatório da OMS Towards Universal
Access: Scaling up Priority HIV/Aids Interventions in the Health
Sector (No caminho para o acesso universal: ampliando as intervenções
prioritárias ao HIV/Aids no setor de saúde, em tradução
livre). O texto, divulgado ontem em Genebra, na Suíça,
mostra que as centenas de campanhas e o trabalho das organizações
internacionais ajudaram a mudar os números, mas dois terços
das pessoas com HIV estão na África Subsaariana. Para
Elaine, o problema é cultural. “Ir a um hospital é
uma coisa nova para eles. A prática aqui é de ir ao
curandeiro. O número de pacientes com Aids que começam
e depois abandonam o tratamento é grande”, contou ao
Correio, por telefone.
Ontem, ela teve mais uma comprovação disso. Tinha
atendido um homem que queria fazer o teste de HIV, e o resultado
foi positivo. Na hora de preencher a ficha dele, os médicos
descobriram que há dois anos atrás ele tinha sido
diagnosticado e atendido. “Eles só voltam aqui quando
estão muito doentes e aí não se pode fazer
mais nada”. De acordo com a OMS, a tuberculose é a
maior causa de morte entre os soropositivos.
Em Moçambique, os remédios são distribuídos,
em grande parte, pelo governo. A responsabilidade foi assumida em
2004, mas os recursos financeiros são escassos. “Aqui,
eles sofrem muito com a falta de recursos humanos, há poucos
médicos. E existe todo um cuidado clínico com o tratamento”,
afirma Elaine. Para a voluntária, há muitos desafios
e o principal é mudar a mentalidade das pessoas, assim como
foi feito no Brasil. “É preciso ensinar as pessoas
que essa é uma doença que não tem cura, mas
tem tratamento”. No relatório da OMS, o Brasil está
bem acima da média no acesso a terapias: 80% dos soropositivos
recebem anti-retrovirais. Costa Rica, Cuba e Laos registram o maior
índice entre as nações em desenvolvimento,
com 95%.
Em 2007, quase três milhões de pessoas receberam tratamento
contra Aids nos países em desenvolvimento. Segundo o relatório
da OMS, houve um aumento de quase um milhão em relação
a 2006. “Essa é uma conquista significativa para a
saúde pública. Pessoas que vivem em locais com poucos
recursos também podem ter uma vida ativa com a ajuda desses
remédios”, afirmou diretora da OMS, Margaret Chan,
por meio de um comunicado à imprensa.
Um grande foco do estudo foi a prevenção da transmissão
da doença da mãe para os filhos. Em 2006, 350 mil
grávidas tomaram o remédio, e em 2007 o número
aumentou para 500 mil. O relatório registra que quase 90%
dos casos de transmissão na gravidez ocorrem na África
Subsaariana. No continente africano, outros fatores dificultam a
disseminação dos tratamentos e dos métodos
de prevenção. A poligamia costuma ser livremente praticada,
e ter muitos filhos é sinal de riqueza espiritual e de uma
relação saudável entre marido e mulher.
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