| Carta Capital – 28 de abril
de 2007
Nas Mãos
Das Múltis
O Brasil ainda é refém do setor farmacêutico,
mas tem a chance de quebrar uma patente pela primeira vez.
Cinco anos depois de ameaçar, pela primeira vez, quebrar
a patente de remédios para o tratamento da Aids, o Brasil
volta a ser pivô das disputas entre a grande indústria
farmacêutica mundial e os países em desenvolvimento.
Em 1999, quando José Serra era o ministro da Saúde,
o País comandou uma rebelião contra os fabricantes.
O Ministério, em vez de ir às vias de fato, porém,
decidiu negociar uma redução de preço dos medicamentos.
A iniciativa foi aplaudida mundialmente, o Brasil conseguiu benefícios
imediatos, mas, passado o entusiasmo inicial, descobriu-se que a
panacéia não passa de placebo. Os gastos do governo
federal com a compra de anti-retrovirais vão atingir 984
milhões de reais este ano, ante 515 milhões em 2001.
As compras de medicamentos cresceram 135% nos últimos dez
anos, até 23,5 bilhões de dólares em 2006.
Alguns produtos, como o Tenofovir, contra o HIV, custam até
sete vezes mais aqui do que em nações que tiveram
mais ousadia e decidiram quebrar a patente.
É o caso, por exemplo, da Índia e da China, que oferecem
pouca proteção às drogas registradas nos países
desenvolvidos e hoje têm alguns dos maiores parques fabris
do setor. Enquanto isso, o Brasil continua refém das políticas
de preços e distribuição das multinacionais,
que pouco investem nas soluções para doenças
típicas do Hemisfério Sul. A malária, por exemplo,
faz dois milhões de vítimas fatais por ano, a maioria
na África. O tratamento mais comum, a clororquina, foi lançado
em 1940.
A queda-de-braço atual é contra a empresa americana
Merck Sharp & Dohme, fabricante do medicamento Efavirenz, um
dos principais no coquetel anti-HIV. Se não chegar a uma
acordo sobre o preço do tratamento, o governo vai emitir,
pela primeira vez, uma licença compulsória para produzir
ou importar uma versão mais barata de uma droga patenteada.
Na quarta-feira, 25, a portaria 886, publicada no Diário
Oficial da União, tornou o Efavirenz uma droga de interesse
público. Trata-se do primeiro passo para a emissão
da licença compulsória, medida legitimada pelo conjunto
de acordos de propriedade intelectual da Organização
Mundial do Comércio, o chamado TRIPS. A Merck foi notificada
e tem sete dias, a contar daquela data, para tentar uma última
negociação.
O prazo também permite ao governo repensar as políticas
voltadas para o setor farmacêutico. Hoje, o Brasil é
dependente do fornecimento de matérias primas, ou princípios
ativos, importados, e de medicamentos produzidos pelos laboratórios
multinacionais em fábricas localizadas no exterior. Boa parte
da produção nacional está limitada a versões
genéricas de drogas cujas patentes expiraram. Para especialistas,
depois de perder o momento de investir na produção
farmoquímica, resta ao País tentar uma vaga na corrida
pelo desenvolvimento de medicamentos biotecnológicos, a tendência
mais promissora para o futuro do setor.
A Índia e a Tailândia também enfrentaram negociações
difíceis com multinacionais do setor para tentar conter os
gastos com saúde, mas estão em melhor situação
que o Brasil na mesa de negociação. “Fizemos
o contrário do que deveríamos ter feito. Quebramos
a indústria de base e paramos de investir em ciência,
pesquisa e desenvolvimento”, afirma o ministro da Saúde,
José Gomes temporão. “Por isso somos obrigados
a ficar no jogo da discussão econômica.”
As despesas de compras de medicamentos essenciais crescem sem parar,
a despeito dos descontos oferecidos pelos laboratórios, mas
em geral para as versões mais antigas das drogas. Os embates
adquirem valor mais do que econômico ou simbólico,
em especial no caso do Brasil. Além de mostrar que o País
é capaz de passar das ameaças à ação,
a medida pode dar fôlego à indústria farmacêutica
nacional. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), responsável
pelo laboratório público Farmanguinhos, no Rio, apresentou
ao Ministério da Saúde uma plano para iniciar a produção
do Efavirenz em 12 meses, com estímulo à produção
local de matéria-prima.
MERCK X FIOCRUZ
Para o diretor de comunicação corporativa da Merck
Sharp & Dohme no Brasil, João Sanches, a licença
compulsória não é de interesse do País
nem dos pacientes. “O Efavirenz é o medicamento mais
econômico para o tratamento do HIV”, diz. A droga é
consumida por 40% dos portadores do vírus da Aids no Brasil,
segundo o Ministério da Saúde, e exige um gasto de
42 milhões de dólares por ano. “Antecipamos
para o Brasil, em 2003, uma redução de 25% no preço”,
prossegue o executivo. Caso o governo decida importar da Índia
uma versão genérica do medicamento, os gastos anuais
cairão para 12 milhões de dólares. Na avaliação
da empresa, a economia, por si só, , não justifica
declarar o Efavirenz um produto de interesse público. “Não
há dúvida de que o anti-retroviral é um medicamento
relevante do ponto de vista da saúde pública, porque
é capaz não só de beneficiar o paciente como
reduzir a taxa de transmissão da Aids”, avalia o presidente
da Fiocruz, Paulo Buss. “Como também fabricamos, sabemos
que as grandes empresas praticam preços extorsivos mesmo
nos países em desenvolvimento”. Em Farmanguinhos são
produzidas, hoje, sete das 18 drogas do coquetel anti-HIV. A produção
equivale a 70% do consumo dos pacientes brasileiros, mas os medicamentos
representam apenas 30% do custo do Programa Nacional de Aids.
KALETRA
A reportagem da Carta Capital ainda relata as retaliações
que a Tailândia sofreu após ameaçar quebrar
a patente do Kaletra, anti-retroviral produzido pelos laboratórios
Abbott. A empresa retirou o pedido de registro de sete novos medicamentos
no país, que não teria acesso a terapias mais novas.
Após pressão da mídia internacional, a farmacêutica
arrefeceu e ofereceu uma redução linear de 45% no
preço do medicamento para um total de 40 países considerados
de baixa e média renda. Mesmo assim, a licença compulsória
poderá deixar dos doentes da Tailândia sem acesso a
seis novas terapias.
“As atuais ações da indústria farmacêutica
mundial contra a Índia e a Tailândia mostram que as
empresas não reconhecem a soberania dos países e o
direito à emissão de licenças compulsórias,
assegurado pela OMC”, afirma o coordenador da Campanha de
Acesso a Medicamentos da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF)
no Brasil, Michel Lotrowska.
O desconto no preço do Kaletra deverá beneficiar
o Brasil. O País paga, atualmente, 1.518 dólares por
paciente ao ano, por força de um acordo fechado em outubro
de 2005, com validade até 2011. A ação da Tailândia
torna obsoleto o contrato brasileiro, embora o governo tenha concordado
em abrir mão do direito à emissão de licença
compulsória contra a Abbott. Para Lotrowska, o Brasil é
exageradamente tolerante nas negociações com as multinacionais.
“A estratégia de exigir melhores preços, mediante
a ameaça de quebra de patente, pode ter funcionado no passado,
mas os descontos concedidos são cada vez menores. O governo
está caindo em descrédito”, diz o ativista.
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