| |
Depois
de trabalhar no Sudão (África) e no Complexo do Alemão
(Rio de Janeiro), envolvido em contextos de guerra, estar no Camboja
muda completamente o quadro. As regras a seguir são menos
rígidas, não há restrição de
movimentação e por isto podemos viajar, inclusive
tenho pedalado por estradas onde absorvo a cultura, a paisagem e
o carinho cambojano. Outro dia, pude almoçar com os monges
budistas. Futuramente falarei sobre isto. Podemos conversar com
qualquer pessoa, freqüentar os diversos locais, visitar pagodas
e templos budistas, etc.
Apesar da violência e dificuldades políticas
que enfrentou entre a década de 70 a de 90, o cambojano é
um povo muito pacífico, alegre e amável.
As
belezas cambojanas são muitas, a começar por seu povo,
extendendo-se aos templos centenares, às pagodas, aos monges,
à paisagem, às infindáveis plantações
de arroz, às terras inundadas, às estátuas,
etc. Mas o que me encanta é sua comida. Um povo que não
tem dificuldades para comer. Comem, literalmente, tudo. Frutas,
arroz, macarrão, carne de porco, vaca, galinha, cachorro,
legumes, verduras, outras folhas, grilos, aranha, escorpião,
barata, besouro, etc. Eu ainda não tive o prazer de comer
de tudo, mas já comecei a degustar as iguarias e até
agora tudo bem.
O cambojano, apesar de muito pacífico, tranqüilo
e meditativo é um povo muito trabalhador. Começam
muito cedo, na madrugada, e trabalham até tarde. Gostam muito
de esporte como voleibol e um tipo de peteca que se joga com os
pés. E nos horários livres e finais de semana gostam
de passear por praças e jardins.
MSF está presente no Camboja desde 1979,
com diferentes projetos. Nesta nova década, Médicos
Sem Fronteiras vislumbrou a questão da AIDS e, depois de
profunda análise, decidiu mostrar ao mundo que era possível,
mesmo em países com contextos difíceis de conflitos
e de pobreza, trabalhar para salvar e melhorar a qualidade de vida
de pessoas HIV positivas nestes locais.
Em 2002/03, MSF deu início a seu projeto
de HIV/AIDS em duas cidades do Camboja: uma no sul do país
(Takeo) e outra no norte (Siem Reap), pois o país concentrava
todas as condições, sejam elas pobreza, violência
e neglicência governamental e internacional.
Para evitar que os pacientes do MSF fossem estigmatizados,
começamos com um serviço de Doenças crônicas,
que envolve HIV/AIDS, diabetes e hipertensão arterial. Desta
forma, os pacientes frequentariam o serviço de doenças
crônicas e não seriam estigmatizados, pois não
chamaríamos a atenção sobre o HIV/AIDS. O que
deu certo.
Hoje, cinco anos depois de iniciado o projeto, chego
a Phnom Penh. A cidade está em reconstrução,
turística, cheia de avenidas com praças bem cuidadas,
lindas pagodas budistas, muitas motonetas pelas ruas, um amplo comércio
e outras coisas que fazem o país parecer nunca ter tido os
problemas com a dimensão que teve até recentemente.
Conhecendo
a história e sabendo que há dez anos a situação
do país era muito diferente, e que os investimentos só
começaram a aumentar nesta final de década, pode-se
entender que quando MSF começou seu programa de HIV/AIDS
as cidades apresentavam um perfil geográfico e econômico
muito diferentes.
Para
ilustrar um pouco sobre o desenvolvimento em algumas regiões
do país, falarei sobre as cidades que estou trabalhando.
Uma delas, Siemp Reap, tinha, há dez anos, três hotéis
locais e hoje conta com mais de cem hotéis, muitos de nível
internacional, e um vasto comercio de souvenir, roupas, restaurantes,
lanchonetes, etc. E a presença maciça de ONGs.
Na outra cidade onde trabalho, Takeo, é uma
cidade rural, onde ainda se encontram porcos passeando pelas ruas,
sem um volume importante de turistas e com a presença de
apenas algumas organizações ajudando no desenvolvimento.
Com
os bons resultados obtidos nesta missão, e após o
trabalho de lobby dentro e fora do país, MSF conseguiu que
o governo iniciasse um programa de HIV/AIDS e várias Organizações
Internacionais estão também trabalhando nesta área.
O que nos faz sentir o prazer do dever cumprido. Ou seja, MSF conseguiu
mostrar que é factível trabalhar com HIV/AIDS nas
condições propostas e atualmente governos e outras
ONGs estão também trabalhando nesta área, não
só no Camboja, mas em vários países pobres
e regiões de conflito têm serviço de atendimento
para pacientes portadores do HIV.
Agora começa uma nova fase do nosso projeto,
que é transferir nossos pacientes para outras organizações,
sejam governamentais ou não.
O projeto HIV/AIDS no Camboja é considerado
o melhor projeto internacional desta área do MSF e não
queremos perder qualidade. Queremos que após a saída
de Médicos Sem Fronteiras, o serviço continue melhorando.
E neste importante momento venho ao país para ajudar a impulsionar
a qualidade e para ajudar na transferência.
Estou envonvido com HIV/AIDS Pediátrico.
Minhas funções são as de encontrar lacunas
que apareceram durante estes anos de trabalho e promover ou propor
mudanças ou inovações que preencham estas lacunas,
melhorando ainda mais a qualidade do serviço prestado e dos
resultados.
Para minha alegria, tenho uma enfermeira brasileira
trabalhando em Siem Reap, a Ana Lúcia, e outra em Takeo,
a Kelly. Inclusive estamos planejando fazer uma comida brasileira
para um grupo de estrangeiros que vive aqui. Como não poderia
deixar de ser, o prato escolhido foi a brasileiríssima feijoada.
Depois contarei a opinião dos gringos.
Bom
gente, depois conto mais.
Um abraço e até o próximo relato.
Leia a primeira parte do diário de bordo
|