Médico Sem Franteiras
Sérgio Cabral, médico, conta sua experiência com MSF no Camboja
  PARTE 2 - Phnom Penh, 01 de outubro de 2008.
 

Depois de trabalhar no Sudão (África) e no Complexo do Alemão (Rio de Janeiro), envolvido em contextos de guerra, estar no Camboja muda completamente o quadro. As regras a seguir são menos rígidas, não há restrição de movimentação e por isto podemos viajar, inclusive tenho pedalado por estradas onde absorvo a cultura, a paisagem e o carinho cambojano. Outro dia, pude almoçar com os monges budistas. Futuramente falarei sobre isto. Podemos conversar com qualquer pessoa, freqüentar os diversos locais, visitar pagodas e templos budistas, etc.

Apesar da violência e dificuldades políticas que enfrentou entre a década de 70 a de 90, o cambojano é um povo muito pacífico, alegre e amável.

As belezas cambojanas são muitas, a começar por seu povo, extendendo-se aos templos centenares, às pagodas, aos monges, à paisagem, às infindáveis plantações de arroz, às terras inundadas, às estátuas, etc. Mas o que me encanta é sua comida. Um povo que não tem dificuldades para comer. Comem, literalmente, tudo. Frutas, arroz, macarrão, carne de porco, vaca, galinha, cachorro, legumes, verduras, outras folhas, grilos, aranha, escorpião, barata, besouro, etc. Eu ainda não tive o prazer de comer de tudo, mas já comecei a degustar as iguarias e até agora tudo bem.

O cambojano, apesar de muito pacífico, tranqüilo e meditativo é um povo muito trabalhador. Começam muito cedo, na madrugada, e trabalham até tarde. Gostam muito de esporte como voleibol e um tipo de peteca que se joga com os pés. E nos horários livres e finais de semana gostam de passear por praças e jardins.

MSF está presente no Camboja desde 1979, com diferentes projetos. Nesta nova década, Médicos Sem Fronteiras vislumbrou a questão da AIDS e, depois de profunda análise, decidiu mostrar ao mundo que era possível, mesmo em países com contextos difíceis de conflitos e de pobreza, trabalhar para salvar e melhorar a qualidade de vida de pessoas HIV positivas nestes locais.

Em 2002/03, MSF deu início a seu projeto de HIV/AIDS em duas cidades do Camboja: uma no sul do país (Takeo) e outra no norte (Siem Reap), pois o país concentrava todas as condições, sejam elas pobreza, violência e neglicência governamental e internacional.

Para evitar que os pacientes do MSF fossem estigmatizados, começamos com um serviço de Doenças crônicas, que envolve HIV/AIDS, diabetes e hipertensão arterial. Desta forma, os pacientes frequentariam o serviço de doenças crônicas e não seriam estigmatizados, pois não chamaríamos a atenção sobre o HIV/AIDS. O que deu certo.

Hoje, cinco anos depois de iniciado o projeto, chego a Phnom Penh. A cidade está em reconstrução, turística, cheia de avenidas com praças bem cuidadas, lindas pagodas budistas, muitas motonetas pelas ruas, um amplo comércio e outras coisas que fazem o país parecer nunca ter tido os problemas com a dimensão que teve até recentemente.

Conhecendo a história e sabendo que há dez anos a situação do país era muito diferente, e que os investimentos só começaram a aumentar nesta final de década, pode-se entender que quando MSF começou seu programa de HIV/AIDS as cidades apresentavam um perfil geográfico e econômico muito diferentes.

Para ilustrar um pouco sobre o desenvolvimento em algumas regiões do país, falarei sobre as cidades que estou trabalhando. Uma delas, Siemp Reap, tinha, há dez anos, três hotéis locais e hoje conta com mais de cem hotéis, muitos de nível internacional, e um vasto comercio de souvenir, roupas, restaurantes, lanchonetes, etc. E a presença maciça de ONGs.

Na outra cidade onde trabalho, Takeo, é uma cidade rural, onde ainda se encontram porcos passeando pelas ruas, sem um volume importante de turistas e com a presença de apenas algumas organizações ajudando no desenvolvimento.

Com os bons resultados obtidos nesta missão, e após o trabalho de lobby dentro e fora do país, MSF conseguiu que o governo iniciasse um programa de HIV/AIDS e várias Organizações Internacionais estão também trabalhando nesta área. O que nos faz sentir o prazer do dever cumprido. Ou seja, MSF conseguiu mostrar que é factível trabalhar com HIV/AIDS nas condições propostas e atualmente governos e outras ONGs estão também trabalhando nesta área, não só no Camboja, mas em vários países pobres e regiões de conflito têm serviço de atendimento para pacientes portadores do HIV.

Agora começa uma nova fase do nosso projeto, que é transferir nossos pacientes para outras organizações, sejam governamentais ou não.

O projeto HIV/AIDS no Camboja é considerado o melhor projeto internacional desta área do MSF e não queremos perder qualidade. Queremos que após a saída de Médicos Sem Fronteiras, o serviço continue melhorando. E neste importante momento venho ao país para ajudar a impulsionar a qualidade e para ajudar na transferência.

Estou envonvido com HIV/AIDS Pediátrico. Minhas funções são as de encontrar lacunas que apareceram durante estes anos de trabalho e promover ou propor mudanças ou inovações que preencham estas lacunas, melhorando ainda mais a qualidade do serviço prestado e dos resultados.

Para minha alegria, tenho uma enfermeira brasileira trabalhando em Siem Reap, a Ana Lúcia, e outra em Takeo, a Kelly. Inclusive estamos planejando fazer uma comida brasileira para um grupo de estrangeiros que vive aqui. Como não poderia deixar de ser, o prato escolhido foi a brasileiríssima feijoada. Depois contarei a opinião dos gringos.

Bom gente, depois conto mais.

Um abraço e até o próximo relato
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Leia a primeira parte do diário de bordo

 

 

Por: Sérgio Cabral