Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Sérgio Cabral, médico brasileiro, conta sua experiência com MSF
  PARTE 8 - Sudão, 23 de fevereiro de 2008.
 
Estive em Abiey até o fim de Janeiro, quando terminou minha missão de três meses no Sudão. A última semana pareceu ser a mais intensa, não pela quantidade de trabalho, mas pela condição emocional e sentimental. Mesmo trabalhando intensamente não deixamos de pensar em nossos pacientes, nas histórias vividas, as amizades feitas com sudaneses e com expatriados de vários partes do mundo e a certeza de que a possibilidade de reencontrar aquelas pessoas era bastante remota.

Em nossa mente a lembrança de cada paciente atendido, as crianças que chegavam muito desnutridas com suas carinhas indiferentes e de aparência senil e saiam bem nutridas e com um doce sorriso em seus bochechudos rostinhos infantis. As mulheres que tiveram partos complicados com seus bebezinhos mamando no seio materno depois de dias de difícil vinda ao mundo. Havia também os acidentados, os queimados, tuberculosos, aqueles que vinham com malária e outros que chegavam trazendo a tristeza de suas doenças e o desamparo da situação vivida, e que saiam de nosso hospital deixando-nos um sorriso e a satisfação de vê-los retornar melhor para suas casas.

A imagem dos pacientes, dos colegas de trabalho, dos amigos e dos diversos momentos vividos passava como um flash em minha mente e me davam a sensação de alegria e de tristeza. A alegria de poder estar ali fazendo um trabalho tão nobre e a sensação de tristeza por causa da partida, tudo e todos que eu deixaria para trás.

Chega o dia da partida, todos acordamos bastante cedo. Os que estavam partindo e os que queriam se despedir. Preparei o último café da manhã, como era de costume, pois eu sempre levantava cedo e preparava um café da manhã reforçado para todo mundo, com ovos, legumes, frutas. Meu café da manhã ficou apelidado, pelo alemão Johannes e pela suíça Laurence de “Chucrute da Silva”. Esta história começou porque eu disse que no Brasil os alemães são chamados de Fritz e que a comida mais típica da Alemanha era o chucrute, mas fui contestado, pois segundo eles não há Fritz na Alemanha e Chucrute é um prato francês. Como Johannes era o primeiro a levantar e se fartar com o meu café da manhã, começamos a chamá-lo de chucrute. O sobrenome “da Silva” foi porque este é o sobrenome que mais existe no Brasil (e no mundo) e assim o apelidaram para que ficasse claro que era um café da manhã brasileiro. Pelo menos eles pensavam assim.

Naquele dia da partida, depois do café da manhã e uma despedida dividida entre a tristeza de ir embora e a alegria de estar voltando para casa e da sensação da missão cumprida, entramos no carro do MSF, a Caroline, da Áustria, e eu e viajamos uns 80 Km até Heiglike. Quando chegamos ao pequeno e precário campo de aviação de Heglike já comecei a sentir saudade das pessoas, do trabalho e do lugar.

Enquanto esperava, a chegada do avião que nos levaria até Waw, passei o tempo entre conversando com a Carolina e o motorista e observando jovens do serviço militar fazendo o que parecia ser seus primeiros treinamentos de marcha. As trapalhadas que cometiam mostravam sua inexperiência. Eles marchavam totalmente desuniforme e ao comando de meia volta, virar à direita ou a esquerda parecia mais um comandando de sair em fuga, pois cada um realizava uma ação diferente, enquanto uns cumpriam a ordem cabalmente outros continuavam marchando, alguns viravam para o lado errado e haviam aqueles que simplesmente ficavam girando para um lado e para outro sem saber a quem imitar. O espetáculo cômico ajudou a esperar a chegada do avião sem ansiedade.

O vôo para Waw foi bastante tranqüilo. Tanto quanto pode ser um vôo em um pequeno avião lotada de gente e de bagagem. Em Waw trocamos de avião, eu viajei rumo a Juba, capital do Sul do Sudão, e Caroline, em outro avião, rumo a Cartum, capital do Sudão.

De Juba vim para Nairóbi, Quênia, onde aguardo minha partida amanhã.
Em uma só missão com MSF tive duas experiências incríveis, uma no Sul e outro no norte, muito distintas no que se refere à geografia, cultura, etnia e tipo de trabalho. Mas não saberia dizer qual foi o melhor local. Trago comigo o coração cheio de alegrias e satisfações por ter tido a oportunidade de conhecer aquelas pessoas, por me darem o ensejo de estar ali, por poder aprender a ser melhor médico e de mudar minhas dimensões como pessoa. Deixo grandes amigos, muito carinho e a sensação do dever cumprido.

Amanhã viajo rumo à Suíça onde farei a reunião de final de missão. Posteriormente irei ao Brasil para descansar, visitar amigos e família e aguardarei ansioso minha nova missão com Médicos Sem Fronteiras.


Leia a primeira parte do diário de bordo
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Por: Sérgio Cabral