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A
última semana em Moçambique foi inesquecível,
o carinho recebido através de cada olhar e cada palavra.
O último adeus na reunião geral com os 137 trabalhadores
do projeto em Tete, a última participação no
grupo de apoio, a dançar junto com o grupo e perceber o quanto
estivemos juntos, como se diz por aqui.
A equipe de Moatize preparou uma bela despedida, com cinco mesas
fartas de comida e bem enfeitadas. Foi uma surpresa para mim, que
eles preparam por um mês. Canções africanas
de despedida foram cantadas e as vozes que bem conhecem o sofrimento
deixavam ainda mais melancólico o tom de despedida. Ganho
homenagens e presentes: artesanato; uma roupa africana feita por
um alfaiate que a equipe chamou e passou-se por paciente para, com
um olhar, acertar minhas medidas; um poema lido pela enfermeira
Laura, feito pela equipe toda em agradecimento ao ano que passamos
juntos. Choro retido e algumas lágrimas. O clima pesado do
adeus saudoso. Comemos juntos na mesa farta, mas a emoção
da despedida era triste embalo para a festa. Mesmo assim a esperança
de que a luta vale a pena e que o trabalho continuará sempre,
apesar da minha saída.
O brilho nos olhos rasos d’água de cada um da equipe
me dizia um obrigado mais eloqüente que eu até então
nunca havia sentido. Minha alma ganhava um peso diferente neste
momento, algo que muda a visão do mundo em que vivemos e
da humanidade a qual pertencemos.
Para
me substituir em Moçambique, veio um outro brasileiro: o
Tiago Dal Molin, para quem passei a missão com uma boa sensação
de que continuará o trabalho e se doará de corpo e
alma para melhorar a qualidade de acesso a saúde do povo.
Na única semana que passamos juntos, pude observar o compromisso
que demonstrava com os ideais humanitários, algo essencial
para que a missão corra bem e que frutos sejam colhidos.
Fazer a diferença, ter sonhos humanitários e expressar
atitudes para que se transformem em realidade, a tarefa não
é fácil e muitas vezes parece impossível de
se concretizar. O que dá valor à ação
é o esforço para que se torne real, para que se cumpra
o que se propôs em cada missão humanitária.
Muitas pessoas nunca conhecerão o sofrimento do povo africano,
com as mazelas sociais e ainda mais agora com a epidemia da Aids.
A tendência do mundo é esquecer que ali há pessoas
batalhando pelo direito da vida, pelo direito ao respeito de seus
direitos humanos. A maioria de nós passa a vida restrita
em limites pessoais e nunca percebemos o mundo e nossa participação
nele. Porém, é fato que a maioria dos seres humanos
encontram seu significado no serviço aos outros e não
no próprio umbigo. Ser uma expatriada de Médicos sem
Fronteiras me trouxe o peso e a medida de exercer uma medicina social
e principalmente de ser humanitária e encontrar muitas respostas
não em quem sou, mas no que posso fazer pelos outros ao trabalhar
pelos que estão sendo esquecidos pelo mundo, ao defender
os que não podem se defender, ao falar e testemunhar na mídia
internacional por aqueles que não podem se defender nesta
escala.
Saio do Moçambique com uma realização enorme,
pois consegui implementar protocolos de tratamento anti-retroviral
pediátrico em nível nacional, o que nunca ninguém
havia conseguido. O primeiro grupo de aconselhamento pediátrico
no país nasceu em Moatize e virou modelo nacional. Todos
os veteranos da missão me cumprimentavam por isso, convites
para coordenar a pediatria em nível nacional surgiram, outros
convites ainda em outros países da África também
chegaram a mim.
Agora é hora de regressar ao Brasil e pensar no que virá
a seguir. Onde a minha ajuda e experiência seriam mais necessárias?
Onde conseguiria exercer os princípios da arte médica
com os melhores resultados sócio-humanitários?
Obrigada a todos que acompanharam esse diário de bordo e
que de alguma forma se comoveram e torceram não somente pela
missão, mas sim pelo povo moçambicano, pelos órfãos
da Aids, pelo sonho de um futuro menos sofrido, pela atitude e ideais
humanitários expressos através da organização
Médicos Sem Fronteiras.
Até a próxima missão!
“Tatenda” (obrigada –nyungue)
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