Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Raquel Yokoda, médica brasileira, conta sua experiência com MSF
  PARTE 19 - Bruxelas, 15 de outubro de 2007.
 

A última semana em Moçambique foi inesquecível, o carinho recebido através de cada olhar e cada palavra. O último adeus na reunião geral com os 137 trabalhadores do projeto em Tete, a última participação no grupo de apoio, a dançar junto com o grupo e perceber o quanto estivemos juntos, como se diz por aqui.

A equipe de Moatize preparou uma bela despedida, com cinco mesas fartas de comida e bem enfeitadas. Foi uma surpresa para mim, que eles preparam por um mês. Canções africanas de despedida foram cantadas e as vozes que bem conhecem o sofrimento deixavam ainda mais melancólico o tom de despedida. Ganho homenagens e presentes: artesanato; uma roupa africana feita por um alfaiate que a equipe chamou e passou-se por paciente para, com um olhar, acertar minhas medidas; um poema lido pela enfermeira Laura, feito pela equipe toda em agradecimento ao ano que passamos juntos. Choro retido e algumas lágrimas. O clima pesado do adeus saudoso. Comemos juntos na mesa farta, mas a emoção da despedida era triste embalo para a festa. Mesmo assim a esperança de que a luta vale a pena e que o trabalho continuará sempre, apesar da minha saída.

O brilho nos olhos rasos d’água de cada um da equipe me dizia um obrigado mais eloqüente que eu até então nunca havia sentido. Minha alma ganhava um peso diferente neste momento, algo que muda a visão do mundo em que vivemos e da humanidade a qual pertencemos.

Para me substituir em Moçambique, veio um outro brasileiro: o Tiago Dal Molin, para quem passei a missão com uma boa sensação de que continuará o trabalho e se doará de corpo e alma para melhorar a qualidade de acesso a saúde do povo. Na única semana que passamos juntos, pude observar o compromisso que demonstrava com os ideais humanitários, algo essencial para que a missão corra bem e que frutos sejam colhidos.

Fazer a diferença, ter sonhos humanitários e expressar atitudes para que se transformem em realidade, a tarefa não é fácil e muitas vezes parece impossível de se concretizar. O que dá valor à ação é o esforço para que se torne real, para que se cumpra o que se propôs em cada missão humanitária.
Muitas pessoas nunca conhecerão o sofrimento do povo africano, com as mazelas sociais e ainda mais agora com a epidemia da Aids. A tendência do mundo é esquecer que ali há pessoas batalhando pelo direito da vida, pelo direito ao respeito de seus direitos humanos. A maioria de nós passa a vida restrita em limites pessoais e nunca percebemos o mundo e nossa participação nele. Porém, é fato que a maioria dos seres humanos encontram seu significado no serviço aos outros e não no próprio umbigo. Ser uma expatriada de Médicos sem Fronteiras me trouxe o peso e a medida de exercer uma medicina social e principalmente de ser humanitária e encontrar muitas respostas não em quem sou, mas no que posso fazer pelos outros ao trabalhar pelos que estão sendo esquecidos pelo mundo, ao defender os que não podem se defender, ao falar e testemunhar na mídia internacional por aqueles que não podem se defender nesta escala.

Saio do Moçambique com uma realização enorme, pois consegui implementar protocolos de tratamento anti-retroviral pediátrico em nível nacional, o que nunca ninguém havia conseguido. O primeiro grupo de aconselhamento pediátrico no país nasceu em Moatize e virou modelo nacional. Todos os veteranos da missão me cumprimentavam por isso, convites para coordenar a pediatria em nível nacional surgiram, outros convites ainda em outros países da África também chegaram a mim.

Agora é hora de regressar ao Brasil e pensar no que virá a seguir. Onde a minha ajuda e experiência seriam mais necessárias? Onde conseguiria exercer os princípios da arte médica com os melhores resultados sócio-humanitários?
Obrigada a todos que acompanharam esse diário de bordo e que de alguma forma se comoveram e torceram não somente pela missão, mas sim pelo povo moçambicano, pelos órfãos da Aids, pelo sonho de um futuro menos sofrido, pela atitude e ideais humanitários expressos através da organização Médicos Sem Fronteiras.

Até a próxima missão!

“Tatenda” (obrigada –nyungue)

 


Por: Raquel Yokoda

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