Médico Sem Franteiras
Nan Hsin , médica, conta sua primeira experiência com MSF na República Democrática do Congo
  PARTE 4 - 06 de outubro, Kinshasa, República Democrática do Congo
 

 

 

Não faz nem um mês que escrevi da última vez, mas parece que o tempo passa bem mais devagar aqui na capital. E, após muito esperar, finalmente saímos de Watsa rumo a base, sem deixar de passar, claro, pela aventura de pousar e decolar na pista de avião de Opienge - recém reabilitada para o trabalho da outra parte da equipe (de grama, cheio de calombos, pós-chuva e extremamente curta!). Passamos também poucos dias em Goma por causa do translado aéreo, cidade estratégica para as ações da ONU e de várias outras ONGs que atuam na região de conflito na fronteira com Ruanda – claro, sem deixar de aproveitar o espetacular lago Kivu.

A alegria de poder ir a um supermercado de verdade numa cidade grande é indescritível (parece até fácil ser feliz...)! Porém, uma semana e meia da vida em Kinshasa é o suficiente para sentir saudades de partir para uma nova missão. Por enquanto fico só na esperança, porque Opienge ainda esta interditado para os “brancos” e a seção MSF Suíça esta de olho nas tensões do norte de Kivu. Sem nem uma só cólera (ainda...) para registrar no currículo, vou ficando no escritório e trabalhando de substituta do coordenador médico do PUC (Pool d'urgence Congo, equipe especial para emergências do Congo). Ou seja, minha maior aventura atualmente é descobrir a estratégia de cálculo do orçamento de 2009 – que não deixa de ser um desafio, eeh... interessante. Saudades da Medicina...

Quem está “super feliz” com o trabalho do orçamento é o novo brasileiro que chegou para o departamento de finanças da coordenação dos projetos no Congo, Igor (apesar de carioca, muito gente boa). Aliás, ontem foi a festa que fizemos com o tema Brasil, que é só uma desculpa esfarrapada para dois brasileiros passarem o tempo, com a presença dos seguranças da embaixada brasileira (trop chic!) – o Samuel estava aproveitando as férias no Brasil. E como não podia deixar de ser, descobri outras virtudes escondidas: quituteira, promoter, bartender e faxineira de fim de festa.

Desculpem pela encheção de lingüiça, mas é pela necessidade de fazer alguma coisa de útil, mesmo que inútil (muito complicado?). Posso contar agora um pouco da vida de um expatriado, mas é preciso levar em conta que é de um ponto de vista pessoal e intransferível, principalmente pela particularidade da minha missão ser na capital do Congo, país do maior projeto de MSF e, portanto, sede do maior número de expatriados no momento.

Apesar de receber toda semana pessoas novas, a comunidade MSF de Kinshasa se fecha em si – trabalhamos, comemos, dormimos e nos divertimos juntos, mesmo que existam as famosas “panelas”. Muito a culpar pelo zelo extremo à segurança, mas também um pouco se deve ao “orgulho” de fazer parte de uma organização tão conceituada num lugar artificialmente adaptado para o Ocidente. O lado bom é que é a oportunidade perfeita para se conhecer a fundo gente muito interessante de toda parte do mundo, a maioria com filosofias de vida e experiências únicas. Se instalam aqui até famílias inteiras, cujos pais não abriram mão nem de trabalhar no terceiro setor, nem de ter uma vida pessoal tradicional. O dia-a-dia daqui, no entanto, é comparável ao do Big Brother: amizades, romances, traições, alegrias, decepções, fofocas e todo mundo de olho em tudo. O importante é que o pessoal se diverte e eu fujo um pouco durante as intervenções. E por falar nelas, é bom arranjar logo outra senão viro barata em uma semana.


Leia a terceira parte do diário de bordo



 

Por: Nan Hsin