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Não
faz nem um mês que escrevi da última vez, mas parece
que o tempo passa bem mais devagar aqui na capital. E, após
muito esperar, finalmente saímos de Watsa rumo a base, sem
deixar de passar, claro, pela aventura de pousar e decolar na pista
de avião de Opienge - recém reabilitada para o trabalho
da outra parte da equipe (de grama, cheio de calombos, pós-chuva
e extremamente curta!). Passamos também poucos dias em Goma
por causa do translado aéreo, cidade estratégica para
as ações da ONU e de várias outras ONGs que
atuam na região de conflito na fronteira com Ruanda –
claro, sem deixar de aproveitar o espetacular lago Kivu.
A alegria de poder ir a um supermercado de verdade numa cidade grande
é indescritível (parece até fácil ser
feliz...)! Porém, uma semana e meia da vida em Kinshasa é
o suficiente para sentir saudades de partir para uma nova missão.
Por enquanto fico só na esperança, porque Opienge
ainda esta interditado para os “brancos” e a seção
MSF Suíça esta de olho nas tensões do norte
de Kivu. Sem nem uma só cólera (ainda...) para registrar
no currículo, vou ficando no escritório e trabalhando
de substituta do coordenador médico do PUC (Pool d'urgence
Congo, equipe especial para emergências do Congo). Ou seja,
minha maior aventura atualmente é descobrir a estratégia
de cálculo do orçamento de 2009 – que não
deixa de ser um desafio, eeh... interessante. Saudades da Medicina...
Quem está “super feliz” com o trabalho do orçamento
é o novo brasileiro que chegou para o departamento de finanças
da coordenação dos projetos no Congo, Igor (apesar
de carioca, muito gente boa). Aliás, ontem foi a festa que
fizemos com o tema Brasil, que é só uma desculpa esfarrapada
para dois brasileiros passarem o tempo, com a presença dos
seguranças da embaixada brasileira (trop chic!) – o
Samuel estava aproveitando as férias no Brasil. E como não
podia deixar de ser, descobri outras virtudes escondidas: quituteira,
promoter, bartender e faxineira de fim de festa.
Desculpem pela encheção de lingüiça, mas
é pela necessidade de fazer alguma coisa de útil,
mesmo que inútil (muito complicado?). Posso contar agora
um pouco da vida de um expatriado, mas é preciso levar em
conta que é de um ponto de vista pessoal e intransferível,
principalmente pela particularidade da minha missão ser na
capital do Congo, país do maior projeto de MSF e, portanto,
sede do maior número de expatriados no momento.
Apesar de receber toda semana pessoas novas, a comunidade MSF de
Kinshasa se fecha em si – trabalhamos, comemos, dormimos e
nos divertimos juntos, mesmo que existam as famosas “panelas”.
Muito a culpar pelo zelo extremo à segurança, mas
também um pouco se deve ao “orgulho” de fazer
parte de uma organização tão conceituada num
lugar artificialmente adaptado para o Ocidente. O lado bom é
que é a oportunidade perfeita para se conhecer a fundo gente
muito interessante de toda parte do mundo, a maioria com filosofias
de vida e experiências únicas. Se instalam aqui até
famílias inteiras, cujos pais não abriram mão
nem de trabalhar no terceiro setor, nem de ter uma vida pessoal
tradicional. O dia-a-dia daqui, no entanto, é comparável
ao do Big Brother: amizades, romances, traições, alegrias,
decepções, fofocas e todo mundo de olho em tudo. O
importante é que o pessoal se diverte e eu fujo um pouco
durante as intervenções. E por falar nelas, é
bom arranjar logo outra senão viro barata em uma semana.
Leia a terceira parte do diário de bordo
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