Médico Sem Franteiras
Nan Hsin , médica, conta sua primeira experiência com MSF na República Democrática do Congo
  PARTE 3 - 12 de setembro, Kinshasa, República Democrática do Congo
 

 

 

Em troca das minhas férias, uma nova missão já me esperava na minha volta à capital. Nada de drama, porque consegui prolongar meu contrato e assim eu junto minhas duas semanas de descanso bem merecido para depois.

Dessa vez, é de novo sobre sarampo – quase como uma vitrola quebrada –, mas um pouco diferente porque é uma avaliação da necessidade de uma vacinação em massa de urgência, normalmente feita pelas antenas, mas por falta de pessoal – esses em férias! - acabou sobrando para nossa equipe. A missão e a equipe são bem menores por ser somente uma avaliação, mas um grande passo para mim, que dessa vez realmente sou o ponto focal médico! Me sinto até importante decidindo o material a usar, fazer a programação, ditar as regras a seguir, etc.

Chego então em Watsa, que, por estar perto da linha do Equador, me lembra muito o Pará e a floresta Amazônica (saudades do Brasil começando a pegar...), muito diferente dos outros lugares em que já estive no Congo. E após um dia inteiro de preparativos, cada dupla (um médico e um logístico) parte em uma direção, parando em cada pequeno grupamento de casas e centro médico, seguindo rumores de sarampo e fazendo todas as perguntas necessárias caso decidamos vacinar. O maior problema é que entramos na estação chuvosa, o que signfica andar de moto sobre barro (porque os carros não conseguem nessas condições), fazendo quase metade do trajeto (120km da minha parte) a pé, ajudar a tirar moto, motorista e bagagem das crateras na pista, fazer tendas molhadas entrarem no saco plástico todas as manhãs e esquecer que existem roupas de outras cores que não marrom.

No meio da viagem, recebo a notícia do avião que caiu perto de onde passamos um dia antes, segundo em menos de um ano. É fácil surtar sob estresse a pensar nas vidas que acabam desse modo estúpido, que poderia bem ser você, como sua família vai reagir com as notícias, quem será o próximo... Ainda bem que pelo menos aqui temos linha telefônica, o suficiente para dizer que estou viva e bem. Mas o problema dos aviões continua, e mesmo com todas as precauções do MSF não é possível prevenir o imprevisto.

Seguindo em frente, acabamos descobrindo casos isolados de sarampo entre crianças nunca vacinadas – nada raro por aqui – ou por falta de informação ou porque a vacina não chega até elas (já falei sobre as condições das "estradas" daqui?!). E, como não poderia ser diferente, em índices mais altos que os oficiais, devido à má comunicação entre os níveis hierárquicos e, surpresa, motivos econômicos – a saúde não é de graça, portanto os centros médicos não são bem freqüentados. Além do mais, a cada quantidade determinada de registro de casos nos serviços privados, este paga certa quantia ao governo. Porém, os índices não são alarmantes o suficiente para fazer uma campanha em massa, um alívio ao final, porque não seria nada fácil sob tais condições.

No exato momento em que escrevo esse diário, estou já há três dias esperando por um avião, um dos efeitos colaterais do acidente. Quase que saímos ontem numa caravana de moto por 180km para tentar pegar um avião para outro lugar para esperar por outro que nos leve à sub-base antena para passar mais alguns dias para finalmente voar de volta para Kinshasa. Felizmente, só temos que esperar mais dois dias por um avião que faz escala em Opienge, onde está outra parte da equipe. Nessa região, parte da equipe nacional EMI está presente para reabilitar um hospital abandonado e completamente saqueado durante os recentes confrontos entre Mai-Mai e o Exército. Como o clima ainda é de insegurança principalmente para os expatriados, por enquanto não tenho autorização de trabalhar no local, então só me resta depositar alguns remédios que sobraram da nossa missão exploratória e ceder parte da minha equipe para aliviar um pouco o sufoco. Mas a única coisa em que penso agora é sair daqui o mais rápido possível, porque depois desse diário não tenho absolutamente nada para fazer – e não ter nada para fazer onde o vento faz a curva é muito diferente de estar no bem bom de uma capital!

Bônus track: já que não tenho mesmo nada melhor que ocupar minha cabeça, decidi contar um pouco sobre os congoleses – apenas algumas das minhas impressões junto com informações coletadas de várias fontes, algumas nada confiáveis. Portanto peço já "licença poética" aos sociólogos e antropólogos de plantão.

Os congoleses são extremamente educados; parte é herança dos hábitos europeus, como o tradicional "bon apetit" antes das refeições; parte deles mesmos, como por exemplo, em todas as reuniões, por mais informal que seja, cada um começa seu discurso com um "Merci pour la parole" ("Obrigado pela palavra"); e outra vem dos tempos coloniais, a incessante mania de agradecer pelos serviços que eles mesmos prestam e pela broncas que damos! Outra característica que notei é o apego ao dia-a-dia – qualquer desvio do plano original é contestado, mesmo na equipe a qual pertenço, que deve sempre se adaptar aos imprevistos. Talvez seja por isso que não há nenhuma variedade na comida, e até o solo fértil da região onde estou é usado somente para plantar mandioca! Paro imediatamente de prestar atenção assim que alguém vem se lamentar sobre como a vida é dura. Sim, eu sei que o salário é pouco, as bocas são muitas para alimentar, nem sempre há eletricidade e as estradas são uma droga, mas não deixa de ser irritante ser lembrada disso de cada congolês que conheço e agüentar a criançada que, em vez de dar tchau ao passarmos por elas, estendem a mão gritando: "Donnez moi un biscuit, muzungu!". C'est la vie, la souffrance! De outro modo, eles sabem se divertir com o jeito particular de dançar rebolando (inclusive os homens) acompanhado de músicas repetitivas sem começo ou fim. A família costuma ser imensa e maior quanto mais rico se é, pois é possível sustentar uma ou duas concubinas e uma média de cinco filhos cada esposa. Ao contrário, os não tão abastados se contentam com o "deuxiéme bureau", eufemismo para amante, costume amplamente difundido por aqui. Apesar de, ou graças à todas essas características, os congoleses são duros como pedra para sobreviveram a tantas guerras.

Desculpem pelo mal humor, mas ainda estou esperando o maldito avião...


Leia a segunda parte do diário de bordo



 

Por: Nan Hsin