| |
Em
troca das minhas férias, uma nova missão já
me esperava na minha volta à capital. Nada de drama, porque
consegui prolongar meu contrato e assim eu junto minhas duas semanas
de descanso bem merecido para depois.
Dessa vez, é de novo sobre sarampo – quase como uma
vitrola quebrada –, mas um pouco diferente porque é
uma avaliação da necessidade de uma vacinação
em massa de urgência, normalmente feita pelas antenas, mas
por falta de pessoal – esses em férias! - acabou sobrando
para nossa equipe. A missão e a equipe são bem menores
por ser somente uma avaliação, mas um grande passo
para mim, que dessa vez realmente sou o ponto focal médico!
Me sinto até importante decidindo o material a usar, fazer
a programação, ditar as regras a seguir, etc.
Chego então em Watsa, que, por estar perto da linha do Equador,
me lembra muito o Pará e a floresta Amazônica (saudades
do Brasil começando a pegar...), muito diferente dos outros
lugares em que já estive no Congo. E após um dia inteiro
de preparativos, cada dupla (um médico e um logístico)
parte em uma direção, parando em cada pequeno grupamento
de casas e centro médico, seguindo rumores de sarampo e fazendo
todas as perguntas necessárias caso decidamos vacinar. O
maior problema é que entramos na estação chuvosa,
o que signfica andar de moto sobre barro (porque os carros não
conseguem nessas condições), fazendo quase metade
do trajeto (120km da minha parte) a pé, ajudar a tirar moto,
motorista e bagagem das crateras na pista, fazer tendas molhadas
entrarem no saco plástico todas as manhãs e esquecer
que existem roupas de outras cores que não marrom.
No meio da viagem, recebo a notícia do avião que caiu
perto de onde passamos um dia antes, segundo em menos de um ano.
É fácil surtar sob estresse a pensar nas vidas que
acabam desse modo estúpido, que poderia bem ser você,
como sua família vai reagir com as notícias, quem
será o próximo... Ainda bem que pelo menos aqui temos
linha telefônica, o suficiente para dizer que estou viva e
bem. Mas o problema dos aviões continua, e mesmo com todas
as precauções do MSF não é possível
prevenir o imprevisto.
Seguindo em frente, acabamos descobrindo casos isolados de sarampo
entre crianças nunca vacinadas – nada raro por aqui
– ou por falta de informação ou porque a vacina
não chega até elas (já falei sobre as condições
das "estradas" daqui?!). E, como não poderia ser
diferente, em índices mais altos que os oficiais, devido
à má comunicação entre os níveis
hierárquicos e, surpresa, motivos econômicos –
a saúde não é de graça, portanto os
centros médicos não são bem freqüentados.
Além do mais, a cada quantidade determinada de registro de
casos nos serviços privados, este paga certa quantia ao governo.
Porém, os índices não são alarmantes
o suficiente para fazer uma campanha em massa, um alívio
ao final, porque não seria nada fácil sob tais condições.
No exato momento em que escrevo esse diário, estou já
há três dias esperando por um avião, um dos
efeitos colaterais do acidente. Quase que saímos ontem numa
caravana de moto por 180km para tentar pegar um avião para
outro lugar para esperar por outro que nos leve à sub-base
antena para passar mais alguns dias para finalmente voar de volta
para Kinshasa. Felizmente, só temos que esperar mais dois
dias por um avião que faz escala em Opienge, onde está
outra parte da equipe. Nessa região, parte da equipe nacional
EMI está presente para reabilitar um hospital abandonado
e completamente saqueado durante os recentes confrontos entre Mai-Mai
e o Exército. Como o clima ainda é de insegurança
principalmente para os expatriados, por enquanto não tenho
autorização de trabalhar no local, então só
me resta depositar alguns remédios que sobraram da nossa
missão exploratória e ceder parte da minha equipe
para aliviar um pouco o sufoco. Mas a única coisa em que
penso agora é sair daqui o mais rápido possível,
porque depois desse diário não tenho absolutamente
nada para fazer – e não ter nada para fazer onde o
vento faz a curva é muito diferente de estar no bem bom de
uma capital!
Bônus
track: já que não tenho mesmo nada melhor que ocupar
minha cabeça, decidi contar um pouco sobre os congoleses
– apenas algumas das minhas impressões junto com informações
coletadas de várias fontes, algumas nada confiáveis.
Portanto peço já "licença poética"
aos sociólogos e antropólogos de plantão.
Os congoleses são extremamente educados; parte é herança
dos hábitos europeus, como o tradicional "bon apetit"
antes das refeições; parte deles mesmos, como por
exemplo, em todas as reuniões, por mais informal que seja,
cada um começa seu discurso com um "Merci pour la parole"
("Obrigado pela palavra"); e outra vem dos tempos coloniais,
a incessante mania de agradecer pelos serviços que eles mesmos
prestam e pela broncas que damos! Outra característica que
notei é o apego ao dia-a-dia – qualquer desvio do plano
original é contestado, mesmo na equipe a qual pertenço,
que deve sempre se adaptar aos imprevistos. Talvez seja por isso
que não há nenhuma variedade na comida, e até
o solo fértil da região onde estou é usado
somente para plantar mandioca! Paro imediatamente de prestar atenção
assim que alguém vem se lamentar sobre como a vida é
dura. Sim, eu sei que o salário é pouco, as bocas
são muitas para alimentar, nem sempre há eletricidade
e as estradas são uma droga, mas não deixa de ser
irritante ser lembrada disso de cada congolês que conheço
e agüentar a criançada que, em vez de dar tchau ao passarmos
por elas, estendem a mão gritando: "Donnez moi un biscuit,
muzungu!". C'est la vie, la souffrance! De outro modo, eles
sabem se divertir com o jeito particular de dançar rebolando
(inclusive os homens) acompanhado de músicas repetitivas
sem começo ou fim. A família costuma ser imensa e
maior quanto mais rico se é, pois é possível
sustentar uma ou duas concubinas e uma média de cinco filhos
cada esposa. Ao contrário, os não tão abastados
se contentam com o "deuxiéme bureau", eufemismo
para amante, costume amplamente difundido por aqui. Apesar de, ou
graças à todas essas características, os congoleses
são duros como pedra para sobreviveram a tantas guerras.
Desculpem pelo mal humor, mas ainda estou esperando o maldito avião...
Leia a segunda parte do diário de bordo
|