Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Mônica Carvalho, médica brasileira, conta sua experiência com MSF em Moçambique
  PARTE 6

31/05/2006 - No meu trabalho no Hospital de Dia (HdD) de Tete, o atendimento às crianças está sendo uma das prioridades. Aqui em Moçambique, o teste para identificar o vírus HIV só é feito em crianças maiores de 18 meses, filhas de mães soropositivas.

Já existem exames direcionados a crianças menores, capazes de identificar o HIV. Isso auxilia o tratamento e nosso elenco de medicações pediátricas aumentou.

Em uma dessas consultas pediátricas, perguntei para a mãe qual era o nome do seu filho e ela me respondeu que o menino chamava-se “Sofrimento”. Questionei se era esse mesmo o nome da criança e ela me explicou que foi na gravidez daquele filho que ela e o marido descobriram-se soropositivos. “Depois disso, a vida foi só sofrimento”, disse a mãe.
Tentei dar esperança àquela mulher, explicando que os antiretrovirais eram eficazes e que ela e sua família ficariam bem. Brincando com a criança, comecei a chamá-lo de “Melhoras”.

Estamos em nosso projeto iniciando a terapia antiretroviral em crianças cada vez menores, o que aumentam as chances de recuperação. A falta de formulações pediátricas nos serviços que atendem PVHS (Pessoas Vivendo com HIV/Aids) é um fator que limita o atendimento das crianças. Os laboratórios farmacêuticos, por motivos “econômicos”, não as fabricam em grande quantidade, e alguns medicamentos precisam ser conservados na geladeira. Isso dificulta o uso desses remédios em comunidades carentes.

Nós, médicos de MSF, atendemos exclusivamente soropositivos no hospital aqui em Tete. São atendidos cerca de 200 pacientes ao dia, em dois centros de tratamento.

Recentemente atendi uma criança de cinco anos que já está recebendo tratamento com antiretroviral há dois. Conversando com sua mãe, perguntei se ela também fazia o mesmo tratamento. Ela me disse ser HIV negativa.

Certificando-se ser aquela criança sua filha natural, indaguei como ela tinha se contaminado com o vírus HIV. A mãe me contou que a criança, enquanto bebê, teve malárias diversas vezes. Ela ficou internada no hospital local e recebeu algumas transfusões de sangue. A contaminação pelo HIV se deu através de sangue contaminado recebido dentro de um hospital.

Já faz muito tempo, desde o fim da guerra civil em Moçambique, que o sangue que será transfundido é testado para o HIV. No caso desta criança houve uma terrível falha, que pode ter várias causas: equipe mal treinada, teste anti-HIV fora da validade ou armazenado incorretamente. Alguns reagentes usados nos laboratórios locais têm sua eficácia diminuída porque não suportam as altas temperaturas africanas.

Parece absurdo que uma doença grave e incurável como a Aids tenha aparecido depois de um tratamento para salvar a vida de uma criança. Nos países desenvolvidos, há mais de 20 anos não se registra um caso de contaminação pelo HIV por sangue e derivados. Mas, infelizmente, aqui na África isso ainda acontece. Eu já conheço cinco casos.

Não tenho certeza se a família daquela criança entende que sua filha está doente devido a uma grave negligência do serviço de saúde local. Não percebia nenhuma revolta nos olhos ou na fala daquela mãe. Fiquei olhando para aquela criança e senti o quão injusta era aquela situação.

Nós de MSF não temos gerência sobre os hospitais gerais. Fornecemos suporte técnico e abastecemos a rede de saúde local com alguns insumos e medicamentos. Nosso trabalho é centrado nos Hospitais de Dia, que funcionam como um “apêndice” dos hospitais locais. Nosso objetivo é atuar em parceria com os profissionais locais.

O trabalho que fazemos não é nada fácil, mas é muito gratificante.

Ontem tive uma boa surpresa ao receber alguns exames. Confesso que fiquei emocionada quando vi que um deles era de um menino chamado “Melhoras Zina Zeca”.

Por: Mônica Cavalho

 

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