Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Mauro Nunes, enfermeiro, conta sua experiência com MSF no Sudão
  PARTE 3 - 24 de junho de 2008, Sudão
 

 

 

Terminei a segunda parte do diário falando sobre os planos de ir supervisar o trabalho na cidade de Abyei, no Sul do Sudão, lembram? Este era o “plano”, mas ele jamais foi concretizado. Após várias discussões e análises sobre o contexto e as condições de segurança na região, parti para lá no dia 14 de maio. Foi um vôo tranquilo até a cidade de Wau. Já na parte Sul, após duas horas de espera, troquei de avião e peguei a segunda aeronave, um jatinho pequeno, bi-motor, para Turaley (a pista de pouso mais próxima do meu destino final), onde um carro de MSF estaria me aguardando para levar à cidade que ainda fica há mais quatro horas de viagem. Aí tudo mudou!

Logo após desembarcar, com o avião ainda em meio a nuvem de poeira na pista de terra batida, somos informados (eu e a enfermeira que havia vindo me buscar) de que haviam “problemas de segurança” na cidade e que, portanto, devíamos permanecer ali até recebermos mais informações. Após cerca de uma hora, recebemos uma segunda chamada informando que um conflito generalizado entre militares dos dois exércitos presentes na cidade (do Norte e do Sul do Sudão) havia iniciado com muita violência. Toda a equipe estava abrigada no “quarto seguro” (uma espécie de “bunker”: um quarto cercado por sacos de areia até o teto, preparado exatamente pra este tipo de situação), aguardando para serem resgatados pela Força de Paz da ONU.

Eu e a colega fomos então pedir abrigo na Missão Católica existente no local. O único lugar relativamente seguro, e onde pensávamos em pedir acomodação e comida, uma vez que não há hotéis, pousadas, restaurantes ou qualquer coisa do gênero em Turaley. Os padres (um queniano e um ugandense) que nos atenderam foram muito simpáticos e imediatamente se propuseram a nos ajudar, proporcionando nosso almoço e organizando nossa estadia. Entretanto, ainda estávamos muito tensos; preocupados com nossos companheiros apanhados no fogo cruzado. Foram mais de oito horas de ansiedade, até que pelas 21 horas, tivemos finalmente a notícia de que todos haviam sido resgatados sãos e salvos, tendo sido evacuados de helicóptero para uma outra cidade mais ao Norte. Foi uma grande alegria e alívio!

Por outro lado, foi muito triste saber que a cidade havia sido completamente destruída e praticamente todas as casas queimadas. Nossa equipe saiu literalmente “com a roupa do corpo”. Não houve condições de se trazer nada. Roupas, objetos pessoais, livros, computadores, tudo ficou para trás! Sairam mesmo só com a roupa que estavam e os passaportes!

Dois dias depois, um vôo fretado veio nos buscar e nos reunimos aos colegas que já se encontravam em Kadugli. Foi uma grande felicidade o nosso encontro ao vermos que todos estávamos bem. Dali, um grupo seguiu para Juba e depois Nairóbi e o outro (onde eu estava) seguiu para Cartum.

A partir daí, começa “outro capítulo” da história. Agora, à população de retornados que já estavam extremamente vulneráveis, sem abrigo, sem pertences, sem comida e já com a saúde e estado nutricional debilitados, soma-se a população da cidade que precisou se deslocar, igualmente sem nada, de uma hora para outra, para salvar a própria vida. É dos momentos onde fico triste e internamente pergunto a Deus, o que esta gente fez pra merecer tamanho sofrimento...

Mas MSF não perde tempo! Nos dois dias em que estivemos isolados em Turaley, já aproveitamos pra fazer um levantamento completo das condições do pequeno hospital local gerenciado pelos padres, assim como das possibilidades de assistência aos feridos e à população deslocada, que sem dúvida chegariam nos próximos dias. As equipes de Juba, Cartum, Nairóbi e Genebra também já se preparavam. Dois dias após nossa partida, já havia outra equipe no local com capacidade cirúrgica para atender aos feridos que chegavam, cuidar das crianças desnutridas e fazer distribuição de cobertura plástica para construção de abrigos e alguns utensílios para as famílias.

Desde então, o trabalho, que como já havia dito nos diários anteriores era muito, duplicou, ou melhor triplicou, pois em contextos de emergência, não dá pra “deixar pra depois” ou algo assim. É tudo muito rápido. As necessidades não esperam. E a vida de milhares dependem desta nossa rapidez de resposta.

O grande problema é que o calendário não pára pra que se atenda à emergência...

Os projetos já existentes continuam e têm suas necessidades também; as ordens internacionais de medicamentos tem período certo, para que não corramos o risco de que faltem nos programas; os relatórios tem prazos a serem cumpridos, a revisão semestral do orçamento não pode esperar, enfim... uma maratona!!! (por isso tanta demora em escrever esta terceira parte...)

Quase me esquecia! Uma das cirurgiãs que atuou na emergência é também brasileira. Infelizmente, em função dela estar em Turaley (com entrada no país via Nairóbi), e eu ter que ficar aqui em Cartum pra coordenar esta loucura toda, não chegamos a nos encontrar pessoalmente. Mesmo assim, foi muito legal estar com ela ao telefone, e poder falar português um pouquinho. Vocês não tem idéia de como é cansativo falar o tempo inteiro em outro idioma que não é o seu.

Agora que a fase inicial do conflito pelo menos aparentemente, já passou, estamos enfrentando as consequências de “médio prazo”. Temos encontrado nas nossas visitas busca ativa nos locais de concentração de deslocados, índices de desnutrição aguda na casa dos 40% das crianças menores de cinco anos. São números alarmantes! Apesar de já estarmos combatendo a desnutrição severa desde o início da intervenção, agora estamos redobrando a capacidade de atendimento a estas crianças e planejando a expansão da atuação para um programa de alimentação suplementar.

Vou ficando por aqui.
Abraços de Cartum!!!!

Leia a segunda parte do diário de bordo

 


Por: Mauro Nunes