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Terminei a segunda parte do diário falando sobre os planos
de ir supervisar o trabalho na cidade de Abyei, no Sul do Sudão,
lembram? Este era o “plano”, mas ele jamais foi concretizado.
Após várias discussões e análises sobre
o contexto e as condições de segurança na região,
parti para lá no dia 14 de maio. Foi um vôo tranquilo
até a cidade de Wau. Já na parte Sul, após
duas horas de espera, troquei de avião e peguei a segunda
aeronave, um jatinho pequeno, bi-motor, para Turaley (a pista de
pouso mais próxima do meu destino final), onde um carro de
MSF estaria me aguardando para levar à cidade que ainda fica
há mais quatro horas de viagem. Aí tudo mudou!
Logo
após desembarcar, com o avião ainda em meio a nuvem
de poeira na pista de terra batida, somos informados (eu e a enfermeira
que havia vindo me buscar) de que haviam “problemas de segurança”
na cidade e que, portanto, devíamos permanecer ali até
recebermos mais informações. Após cerca de
uma hora, recebemos uma segunda chamada informando que um conflito
generalizado entre militares dos dois exércitos presentes
na cidade (do Norte e do Sul do Sudão) havia iniciado com
muita violência. Toda a equipe estava abrigada no “quarto
seguro” (uma espécie de “bunker”: um quarto
cercado por sacos de areia até o teto, preparado exatamente
pra este tipo de situação), aguardando para serem
resgatados pela Força de Paz da ONU.
Eu
e a colega fomos então pedir abrigo na Missão Católica
existente no local. O único lugar relativamente seguro, e
onde pensávamos em pedir acomodação e comida,
uma vez que não há hotéis, pousadas, restaurantes
ou qualquer coisa do gênero em Turaley. Os padres (um queniano
e um ugandense) que nos atenderam foram muito simpáticos
e imediatamente se propuseram a nos ajudar, proporcionando nosso
almoço e organizando nossa estadia. Entretanto, ainda estávamos
muito tensos; preocupados com nossos companheiros apanhados no fogo
cruzado. Foram mais de oito horas de ansiedade, até que pelas
21 horas, tivemos finalmente a notícia de que todos haviam
sido resgatados sãos e salvos, tendo sido evacuados de helicóptero
para uma outra cidade mais ao Norte. Foi uma grande alegria e alívio!
Por outro lado,
foi muito triste saber que a cidade havia sido completamente destruída
e praticamente todas as casas queimadas. Nossa equipe saiu literalmente
“com a roupa do corpo”. Não houve condições
de se trazer nada. Roupas, objetos pessoais, livros, computadores,
tudo ficou para trás! Sairam mesmo só com a roupa
que estavam e os passaportes!
Dois dias depois,
um vôo fretado veio nos buscar e nos reunimos aos colegas
que já se encontravam em Kadugli. Foi uma grande felicidade
o nosso encontro ao vermos que todos estávamos bem. Dali,
um grupo seguiu para Juba e depois Nairóbi e o outro (onde
eu estava) seguiu para Cartum.
A partir daí,
começa “outro capítulo” da história.
Agora, à população de retornados que já
estavam extremamente vulneráveis, sem abrigo, sem pertences,
sem comida e já com a saúde e estado nutricional debilitados,
soma-se a população da cidade que precisou se deslocar,
igualmente sem nada, de uma hora para outra, para salvar a própria
vida. É dos momentos onde fico triste e internamente pergunto
a Deus, o que esta gente fez pra merecer tamanho sofrimento...
Mas MSF não
perde tempo! Nos dois dias em que estivemos isolados em Turaley,
já aproveitamos pra fazer um levantamento completo das condições
do pequeno hospital local gerenciado pelos padres, assim como das
possibilidades de assistência aos feridos e à população
deslocada, que sem dúvida chegariam nos próximos dias.
As equipes de Juba, Cartum, Nairóbi e Genebra também
já se preparavam. Dois dias após nossa partida, já
havia outra equipe no local com capacidade cirúrgica para
atender aos feridos que chegavam, cuidar das crianças desnutridas
e fazer distribuição de cobertura plástica
para construção de abrigos e alguns utensílios
para as famílias.
Desde então,
o trabalho, que como já havia dito nos diários anteriores
era muito, duplicou, ou melhor triplicou, pois em contextos de emergência,
não dá pra “deixar pra depois” ou algo
assim. É tudo muito rápido. As necessidades não
esperam. E a vida de milhares dependem desta nossa rapidez de resposta.
O grande problema
é que o calendário não pára pra que
se atenda à emergência...
Os projetos
já existentes continuam e têm suas necessidades também;
as ordens internacionais de medicamentos tem período certo,
para que não corramos o risco de que faltem nos programas;
os relatórios tem prazos a serem cumpridos, a revisão
semestral do orçamento não pode esperar, enfim...
uma maratona!!! (por isso tanta demora em escrever esta terceira
parte...)
Quase me esquecia!
Uma das cirurgiãs que atuou na emergência é
também brasileira. Infelizmente, em função
dela estar em Turaley (com entrada no país via Nairóbi),
e eu ter que ficar aqui em Cartum pra coordenar esta loucura toda,
não chegamos a nos encontrar pessoalmente. Mesmo assim, foi
muito legal estar com ela ao telefone, e poder falar português
um pouquinho. Vocês não tem idéia de como é
cansativo falar o tempo inteiro em outro idioma que não é
o seu.
Agora que a
fase inicial do conflito pelo menos aparentemente, já passou,
estamos enfrentando as consequências de “médio
prazo”. Temos encontrado nas nossas visitas busca ativa nos
locais de concentração de deslocados, índices
de desnutrição aguda na casa dos 40% das crianças
menores de cinco anos. São números alarmantes! Apesar
de já estarmos combatendo a desnutrição severa
desde o início da intervenção, agora estamos
redobrando a capacidade de atendimento a estas crianças e
planejando a expansão da atuação para um programa
de alimentação suplementar.
Vou
ficando por aqui.
Abraços de Cartum!!!!
Leia a segunda parte do diário de bordo
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