Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Mauro Nunes, enfermeiro, conta sua experiência com MSF no Sudão
  PARTE 2 - 03 de junho de 2008, Sudão
 

 

 

Breve trégua, novos tumultos, desta vez pela prisão de um líder da oposição. Novo toque de recolher. Acabei tendo tempo pra escrever um pouco mais.

O contexto do Sudão é mesmo bem complexo. Mesmo pra mim, após 17 anos com MSF, tendo passado por Angola, Moçambique, Nigéria, Indonésia e tantos outros países em conflito, aqui a situação ainda me surpreende e assusta.

Na semana passada, estive em El Genina, capital da província de Darfur Oeste (uma das províncias que compõem a região de Darfur). Foram algumas horas de uma viagem cansativa sobre o deserto com paradas em Nyala (capital de Darfur Sul), El Fashir (capital de Darfur Norte) e finalmente chegamos a El Genina.

Para minha alegria, à chegada, lá estava o motorista com a camiseta MSF. É sempre um alívio quando em missão vejo alguém com uma MSF t-shirt! É como se fosse uma “bandeira” no mastro da “embaixada”. Dá uma sensação de segurança.

A cidade é pequena e muito maltratada pelo clima, pobreza e anos de guerra. Tudo é cinza. A poeira é densa e quase se pode tocá-la. As casas muito humildes, em sua grande maioria de adobe com telhados de capim. A temperatura desde que cheguei não baixou dos 44-45° graus. Tudo é quente! As narinas ficam ressecadas e chegam a ferir. A pele fica muito seca e racha. Pior que isso é não poder, depois do trabalho, sentar e tomar uma cerveja bem gelada! O Sudão é um país predominantemente muçulmano e a Sharia (lei do Islã) vigente. Sendo assim, bebidas alcoólicas são proibidas e seu porte ou consumo, considerado crime. Já viu que situação?

No dia seguinte à minha chegada, recebo a equipe que está tocando as clínicas móveis no Corredor Norte, próximo a fronteira com o Chade. É composta por três franceses (coordenador de terreno, logístico e psicóloga), um tcheco, um médico alemão, um enfermeiro canadense e vários profissionais sudaneses. Chegam que não se enxerga a cor da pele de tanta poeira. Foram oito dias no deserto, visitando vilas e aldeias, fazendo consultas médicas, de enfermagem, curativos, vacinas, dando apoio psicológico às vítimas de violência sexual. Uma verdadeira maratona!

Vejo neles o trabalho de campo que até pouco tempo, antes de passar para atividades de coordenação, era eu que estava fazendo. É bom ver que o ideal humanitário persiste e segue renascido nos mais jovens. Apesar do cansaço, não há tempo a perder. Depois de um bom banho e de jantarmos, nos reunimos para avaliar a viagem, discutir os casos clínicos encontrados, a situação de segurança, próximas viagens (já marcamos a próxima para dentro de dois dias), material e medicamentos necessários.

Fico impressionado pelo relato dos casos de vítimas de violência sexual e doenças sexualmente transmissíveis encontrados na viagem. Quando penso na situação de HIV/AIDS na África como um todo, penso que em muito pouco tempo, além dos flagelos da guerra, da miséria e da fome, a Aids será mais um problema que esta população terá de enfrentar.

Após trabalhar com o Corredor Norte e orientar a equipe de Golo e Kelling, retornei à Cartum. O tempo de minha missão é curto e preciso seguir também para Abiye. Temos um projeto amplo no único hospital da cidade, é uma área de extremo risco e instabilidade pois é a “fronteira” entre o Norte (árabe e muçulmano) e o Sul (negro e cristão) do Sudão. Um grande número de retornados chegou à cidade, estão sem assistência e sem abrigo, um grande número de militares estão presentes, a equipe precisa de apoio. Mas isto fica para uma próxima oportunidade!!

Abraços!

Leia a primeira parte do diário de bordo

 


Por: Mauro Nunes