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Breve trégua, novos tumultos, desta vez pela prisão
de um líder da oposição. Novo toque de recolher.
Acabei tendo tempo pra escrever um pouco mais.
O contexto
do Sudão é mesmo bem complexo. Mesmo pra mim, após
17 anos com MSF, tendo passado por Angola, Moçambique, Nigéria,
Indonésia e tantos outros países em conflito, aqui
a situação ainda me surpreende e assusta.
Na
semana passada, estive em El Genina, capital da província
de Darfur Oeste (uma das províncias que compõem a
região de Darfur). Foram algumas horas de uma viagem cansativa
sobre o deserto com paradas em Nyala (capital de Darfur Sul), El
Fashir (capital de Darfur Norte) e finalmente chegamos a El Genina.
Para
minha alegria, à chegada, lá estava o motorista com
a camiseta MSF. É sempre um alívio quando em missão
vejo alguém com uma MSF t-shirt! É como se fosse uma
“bandeira” no mastro da “embaixada”. Dá
uma sensação de segurança.
A cidade
é pequena e muito maltratada pelo clima, pobreza e anos de
guerra. Tudo é cinza. A poeira é densa e quase se
pode tocá-la. As casas muito humildes, em sua grande maioria
de adobe com telhados de capim. A temperatura desde que cheguei
não baixou dos 44-45° graus. Tudo é quente! As
narinas ficam ressecadas e chegam a ferir. A pele fica muito seca
e racha. Pior que isso é não poder, depois do trabalho,
sentar e tomar uma cerveja bem gelada! O Sudão é um
país predominantemente muçulmano e a Sharia (lei do
Islã) vigente. Sendo assim, bebidas alcoólicas são
proibidas e seu porte ou consumo, considerado crime. Já viu
que situação?
No
dia seguinte à minha chegada, recebo a equipe que está
tocando as clínicas móveis no Corredor Norte, próximo
a fronteira com o Chade. É composta por três franceses
(coordenador de terreno, logístico e psicóloga), um
tcheco, um médico alemão, um enfermeiro canadense
e vários profissionais sudaneses. Chegam que não se
enxerga a cor da pele de tanta poeira. Foram oito dias no deserto,
visitando vilas e aldeias, fazendo consultas médicas, de
enfermagem, curativos, vacinas, dando apoio psicológico às
vítimas de violência sexual. Uma verdadeira maratona!
Vejo
neles o trabalho de campo que até pouco tempo, antes de passar
para atividades de coordenação, era eu que estava
fazendo. É bom ver que o ideal humanitário persiste
e segue renascido nos mais jovens. Apesar do cansaço, não
há tempo a perder. Depois de um bom banho e de jantarmos,
nos reunimos para avaliar a viagem, discutir os casos clínicos
encontrados, a situação de segurança, próximas
viagens (já marcamos a próxima para dentro de dois
dias), material e medicamentos necessários.
Fico
impressionado pelo relato dos casos de vítimas de violência
sexual e doenças sexualmente transmissíveis encontrados
na viagem. Quando penso na situação de HIV/AIDS na
África como um todo, penso que em muito pouco tempo, além
dos flagelos da guerra, da miséria e da fome, a Aids será
mais um problema que esta população terá de
enfrentar.
Após
trabalhar com o Corredor Norte e orientar a equipe de Golo e Kelling,
retornei à Cartum. O tempo de minha missão é
curto e preciso seguir também para Abiye. Temos um projeto
amplo no único hospital da cidade, é uma área
de extremo risco e instabilidade pois é a “fronteira”
entre o Norte (árabe e muçulmano) e o Sul (negro e
cristão) do Sudão. Um grande número de retornados
chegou à cidade, estão sem assistência e sem
abrigo, um grande número de militares estão presentes,
a equipe precisa de apoio. Mas isto fica para uma próxima
oportunidade!!
Abraços!
Leia
a primeira parte do diário de bordo
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