Médico Sem Franteiras
DIÁRIO DE BORDO: Mauro Nunes, enfermeiro brasileiro, conta sua experiência na Ilha de Ambon, Indonésia
 

PARTE 2

04/04/2006 -Finalmente, a “maratona” da tuberculose chegou! Foi uma semana inteira de muito trabalho. Aproveitamos o Dia Mundial da Luta contra a Tuberculose (24/3) para divulgar ao máximo o perigo da doença e a importância do tratamento correto.

Mas valeu a pena! Foi muito gratificante! As atividades foram um SUCESSO! (assim mesmo, com todas as letras maiúsculas!)

Começamos a semana com um “talk show” na rádio local (que é ouvida não só em Ambon, mas em todas as ilhas do arquipélago das Molucas). Foram 60 minutos de programa, onde um médico, uma técnica de laboratório e um TB supporter (tipo de Agente de Saúde só pra TB) puderam alternadamente responder perguntas do entrevistador e também dos ouvintes. Vários telefonemas com dúvidas “pipocaram” na rádio. Mesmo pessoas de outras ilhas, como Seram e Buru, também ligaram fazendo perguntas. Todos os tópicos sobre a tuberculose puderam ser explorados: o que é, como se transmite, sinais e sintomas, quando procurar os serviços de saúde, como colher o material para o exame, tratamento, etc, sempre enfatizando não só a possibilidade de CURA da doença, como a gratuidade do tratamento! (isto é muito importante de enfocar aqui, pois os serviços de saúde na Indonésia não são gratuitos).

Nos outros dias os preparativos foram intensos – colocação de banners e faixas em toda a cidade, decoração dos carros, cartas-convite, etc, etc...

No dia 24, levantamos todos às 5 da matina, pois deveríamos estar às 5:30 na Praça do Palácio do Governo para começar as atividades. Aqui todas as sextas-feiras de manhã, acontecem sessões de ginástica para os servidores públicos, sendo cada semana organizada por uma Secretaria diferente. Nesta sexta, como coincidia com o 24/3, enviamos convites para o Prefeito, Secretários Provinciais e Municipais de Saúde, todos os diretores e equipes de hospitais e centros de saúde, ONGs locais e internacionais, escolas públicas, etc. E todos compareceram. Foi com muita alegria que vimos que havíamos conseguido reunir mais de 600 pessoas para este dia!

Foram feitos discursos com informação sobre TB por um dos médicos indonésios de MSF, logo seguido pelo discurso do Prefeito com o mesmo tema (isto aqui não é fácil de se conseguir e super importante!). Após os discursos, uma funcionária de MSF cantou uma versão que fizemos de uma cantiga infantil super-popular em Ambon falando sobre TB (advinhem que trouxe a idéia usando as estratégias de marketing do Brasil?) Foi um sucesso! As crianças e adultos primeiro puseram-se a rir da versão. Mas 3 minutos depois, toda a praça cantava “Mari sama-sama lawan TBC” (Vamos juntos lutar contra a Tuberculose). Foi mesmo emocionante!

Depois, partimos de carro em 3 equipes com megafones, bandeiras, para fazer um tour pela cidade divulgando a doença. Passamos por todos os locais de maior concentração de pessoas (mercados, feiras, escolas, pontos de ônibus, locais de paragem de caminhoneiros, etc). Em cada local, parávamos, fazíamos uma pequena fala de 5 -10 minutos, distribuíamos os panfletos, respondíamos as questões vindas do público e por fim fazíamos uma espécie de quiz relâmpago com 5 perguntas sobre TB. Quem acertava ganhava uma t-shirt da campanha.

Depois cantávamos a música tema. O "povão" adorava! Riam-se e logo após cantavam conosco. Uma energia e tanto ver aquele povo antes tão desinformado, cantando “Vamos lutar juntos... Vão às unidades de saúde... o tratamento é grátis... TB tem cura!” . É uma coisa que nunca vou esquecer!

Outra coisa que também achei o máximo, foi ver o envolvimento de toda a equipe no trabalho. Não estou falando só da equipe de saúde! Os vigias das casas distribuindo panfletos, muito contentes, o rapaz da limpeza com o megafone na mão dando uma "senhora" aula de tuberculose para o pessoal! Super!

Fizemos isso até às 3 da tarde, quando paramos e fomos ter um almoço de confraternização na praia.

Fomos para a praia de Natsepa. Linda... com uma vegetação exuberante à beira de uma água mansa, sem ondas (como a Ilha de Paquetá) e cristalinas (como Angra do Reis). Um verdadeiro (e merecido) relax... A gente também é "filho de Deus", né?

Bem, apesar de toda a correria, no geral, o dia foi muito gostoso pois pudemos não só fazer o nosso trabalho como também desfrutar um pouco da natureza da Ilha.

Vamos agora aguardar pelos resultados de toda esta campanha, esperando um maior afluxo de pessoas com sintomas da doença nas unidades de saúde.

Nas próximas semanas, vou ver se faço outra "reportagem"...

Com carinho, desde Ambon Island
Mauro

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