Médico Sem Franteiras
DIÁRIO DE BORDO: Mauro Nunes, enfermeiro brasileiro, conta sua experiência na Ilha de Ambon, Indonésia
 

PARTE 1

24/03/2006 - É estranho estar do "outro lado do mundo"! O fuso horário aqui é o mesmo do Japão, ou seja, 12 horas a mais em relação ao Brasil. Quando aí se acorda para um dia, eu já trabalhei o dia todo e já estou indo dormir.

A chegada à Indonésia foi tranqüila e depois de 2 dias de reuniões, vim para a Ilha de Ambon, onde fica o projeto de tuberculose (TB) que eu estou coordenando.

Ambon é uma ilha bonita que pertence ao arquipélago das Molucas. É bem longe mesmo! São mais 5 horas de avião a partir de Jakarta!

Hoje, felizmente, a Ilha de Ambon está mais calma, mas passou por momentos seríssimos entre 1999 e 2002, quando lutas entre muçulmanos e cristãos fizeram muitas vítimas e deixaram milhares de pessoas internamente deslocadas. Muitas destas, ainda hoje se encontram nesta situação.

Depois dos conflitos religiosos, a cidade ficou meio 'dividida' em uma área católica e outra muçulmana. MSF, entretanto, mantendo sua neutralidade, desenvolve projetos em ambos os lados. É mesmo muito legal ver como MSF é respeitada por aqui. As pessoas em geral não se esquecem de que durante os conflitos, fomos a única organização internacional a não deixar a ilha.

O povo é bem simpático, e tem muita semelhança com o povo brasileiro. Ainda não consigo me comunicar bem, pois o povo em geral, só fala “bahasa indonesia” ou “ambonês” (o dialeto local). Não dá pra entender nada, exceto algumas palavras deixadas pelo colono português do tipo “sekolah” (escola) e “gereja” (igreja).

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a semelhança com a vegetação do nosso litoral. O quintal da casa de MSF parece o quintal da minha casa. Tem cajá, mamão, manga, jambo e carambola. A comida é muito saborosa, mas se tem que ter “estrutura”! Para uma panelinha de peixe, foram mais de 30 pimentas! Se não estivesse acostumado com as moquecas da Bahia, já tinha desisitido!

O projeto é muito interessante e importante na luta contra a tuberculose. É um projeto-piloto que apoia com medicamentos, recursos materiais e profissionais a 4 “Puskesmas” (nome local dos Centros de Saúde) – Rijali, Waihong, Lateri e Passo (2 em cada “lado”). A equipe é composta por um médico indiano especialista em TB, 2 médicos indonésios, 2 enfermeiros, 1 técnica de laboratório e 3 promotores de saúde (uma espécie de Agente Comunitário de Saúde). É uma equipe muito integrada e dinâmica. Dá gosto vê-los trabalharem.

Além das atividades curativas, um importante componente do projeto que estou ajudando a implementar é a informação e educação sobre a tuberculose para a comunidade em geral. As pessoas conhecem muito pouco sobre a doença e é gratificante ver como prestam atenção às apresentações sobre a doença.

Agora mesmo estamos numa correria louca com os preparativos para as atividades do dia 24 de março (Dia Mundial de Luta Contra a Tuberculose). Vai ser uma maratona! Vamos começar às 5:30h da manhã no exercício comunitário, que acontece às sextas-feiras com as autoridades, e depois percorremos todos os mercados e principais avenidas da cidade em 3 grupos. Vamos realizar palestras e apresentações durante todo o dia!

Sei que vai ser cansativo, mas também sei que vai valer a pena. É um local aonde o povo definitivamente necessita muito de informação e tratamento!

Paro por aqui, pois acho que já deu para dar uma idéia geral de tudo. Além disso, já é tarde e tenho que descansar pois a “maratona” da tuberculose esta chegando...

Assim que tiver um tempinho escrevo mais!

Beijo, Mauro


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