Médico Sem Franteiras
Maria Cláudia Soares, médica, conta sua primeira experiência com MSF, na Etiópia
  PARTE 2 - Etiópia, 15 de setembro de 2008.
 
Olá a todos,

Continuo aqui meu diário. Tantas coisas pra contar que fica dificil escolher um tema... Então, vou descrever mais ou menos um dia normal de trabalho meu. Trabalho seis dias por semana, com uma folga sábado ou domingo, depende dos meus amigos. Normalmente, decidimos na sexta como vai ser. Hoje é sábado e, pela primeira vez desde que cheguei aqui, consegui usar um dia de folga pra dormir até mais tarde e passar das 7h!!! Ufa! Foi um bom descanso. Normalmente acordo às 6h e tomo café com todo mundo. A equipe aqui é bem grande, então o café da manhã é um momento especial e divertido. O café etíope é realmente tão gostoso quanto dizem!

Depois do café, cada um segue o seu destino. Os carros do MSF estão prontos sempre por volta das 8h, com os motoristas esperando pra levar as equipes para seus devidos "postos" de atendimento, as chamadas OTPs. Essa é uma forma de conseguirmos chegar a pacientes que estão em regiões mais distantes. Nas OTPs, os programas de desnutrição seguem uma rotina ambulatorial. Quando os pacientes não estão bem e precisam de maiores cuidados, são encaminhados para o SC (Centro de Estabilização, na sigla em inglês). É aí que eu entro na conversa...

O SC é o nosso "hospital". Lá estão as crianças e muitas vezes também
adultos que precisam de maiores cuidados, seja por desnutrição severa
(marasmo ou kwashiorkor, ou um misto dos dois), seja por alguma doença
associada, como infecção severa de pele, pneumonia, diarréia grave, seja por dificuldade em ganhar peso com o programa ambulatorial, por falta de apetite ou negligência familiar. Qualquer que seja o motivo, esses pacientes ficam conosco ate estarem fora de risco e em melhor estado nutricional. Recebem aqui alimento especial para desnutridos, antibióticos e um carinho
especial.

Somos dois médicos trabalhando aqui. Passamos visita de manhã, onde vemos cada paciente, decidimos em que fase está, se já pode receber alimentos mais calóricos, se está ganhando peso, ou melhorando de sua doença. Temos uma pequena UTI, da qual sou encarregada, onde as crianças mais graves recebem atenção maior.

Ao longo do dia, sempre recebemos pacientes vindo das OTPs. Quando um
carro chega, já olhamos para a porta e lá vem um novo pequeno no colo da mãe. Todos recebem teste para malária, pois os números da doença são altos na região. Quando todos os carros ja retornaram e todas as crianças estão estáveis, no fim do dia, é hora de voltar para casa. O grupo todo chega mais ou menos no mesmo horário e é sempre gostoso conversar e ver como foi o dia de cada um. Depois, banho, jantar e dormir. O dia aqui costuma começar bem cedo e acabar também cedo, pois o cansaço é grande.

Hoje estou de plantão, o que significa que carrego um rádio comigo aonde
for e amanhã, às 6h, estou de pé! Quem me conhece bem sabe que pra eu sair da cama assim tão cedo e tão feliz é porque esse trabalho realmente me realiza demais! Uma curiosidade: o calendário etíope é diferente de todos os outros e entramos em 2001 dois dias atrás. Assim, para todos, FELIZ ANO NOVO!

Um grande abraço,

Cláudia


Leia a primeira parte do diário de bordo


 

Por: Maria Cláudia Soares