Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Luis Otávio Guimarães, administrador, conta sua primeira experiência com MSF
  PARTE 2 - 25 de outubro de 2007, Malauí.
 


Assim que aterrisei em Blantyre, senti que tinha regressado no tempo. Tudo muito pequeno, rústico. Tinha a impressão de estar numa cidade pequena, no interior do meu estado (Amazonas). Quem o conhece sabe que não pode ser comparado a uma cidade de interior de outros estados do Brasil. Poucos carros, as pessoas caminhando descalças pelas estradas sem acostamento, vendendo milho assado por um valor aproximadamente de R$0,15 a unidade. Mas agora, já passado os meus primeiros quatro meses no Malauí, percebo que outros pontos também ficaram esquecidos no tempo e que, sem dúvida alguma, me causaram um grande choque cultural.

O Malauí é um país com a maioria católica, mas é possivel ver mesquitas por toda parte, o que me remete à idéia de que a comunidade mulçumana aqui também é muito grande. Tem também a comunidade adventista, com uma boa representatividade.

Apesar da existência dessas religiões, o medo de "bruxarias" e "bruxos" no Malauí é muito difundido! A "bruxaria" é temida de norte a sul. Não chega a ser uma religião e nem existem comunidades ou associações de bruxos. É uma atividade exercida de forma obscura, discriminada e longe dos olhos da sociedade. O conceito de "bruxo" é extramamente místico para os malauíanos. Ele tem como hábito se manisfestar à noite, não é humano e pode adquirir várias formas: como pássaros, leões, entre outros ou até mesmo a forma não-física.

Além disso, o "bruxo" também tem certos "super poderes" como voar todo o continente africano em horas, cruzar o oceano para ir à América e voltar na mesma noite, além de ler pensamentos. O "bruxo" tem somente um objetivo na cultura do Malauí: produzir doenças e desgraças que atrasem a vida da vítima. De acordo com as declarações, o "bruxo" pode encarnar em algum membro da família e dessa forma causar doenças e trazer infortúnios.

A "bruxaria" é levada tão a sério que diariamente é possivel encontrar notícias nos jornais a respeito do assunto. Existe até uma proposta no Congresso para aprovar um orçamento de um projeto de caça aos bruxos.

Isso é a realidade que encontrei no Malauí. Algumas pessoas se recusam a acreditar que o parente tem Aids, por exemplo. Preferem acreditar que algum "bruxo" está por perto fazendo maldades. Infelizmente, devido a essa crença o povo sofre duas vezes: uma com o familiar infectado pelo HIV e outra quando se deixam enganar pelos caçadores de "bruxos", charlatões que cobram para caçar e descobrir onde está o "bruxo". Normalmente, essas pessoas acusam as crianças com deficiência mental ou física, ou idosos doentes de serem os "bruxos" das vilas. Essas pessoas que são acusadas não têm como se defender. Além disso, por infelicidade do destino, elas já viviam à margem de suas comunidades.

Outro fator interessante no Malauí é o procedimento fúnebre. Quando alguém morre, os parentes e amigos próximos têm que deixar tudo o que estão fazendo e se dirigir para a casa do falecido, para dar início ao processo do velório, que dura três dias. Os amigos e parentes devem dar dinheiro à mãe ou pai (se solteiro) ou esposo/esposa (se casado) do falecido para ajudar nos custos do velório. Isso é visto como sinal de grande amizade e respeito. Infelizmente, a taxa de mortalidade no Malauí é alta, isso prejudica diretamente a economia do país, pois sempre alguém deixa de estar presente no posto de trabalho para comparecer a algum funeral!

Por: Luis Otávio Guimarães

Leia a primeira parte do diário de bordo