Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Luis Otávio Guimarães, administrador, conta sua primeira experiência com MSF
  PARTE 1 - 24 de setembro de 2007, Malauí.
 

Meu nome é Luiz Otávio M. Guimarães, sou administrador formado pela Universidade Federal do Amazonas, tenho 33 anos, sou expatriado de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Malauí. Conheci MSF quando ainda era universitário e, talvez por estar na idade de sonhos e na fase de querer revolucionar o mundo, encantei-me com a forma e com o ritmo de trabalho. Atuei com MSF por três anos como assistente logístico (equipe nacional), responsável pela importação e exportação de medicamentos, manutenção de computadores, do escritório, das casas dos voluntários, da frota de carros e barcos que tinhamos no projeto, fincado no meio da floresta amazônica. O objetivo era levar saúde a comunidade indígena, vítima da cólera e da malária na fronteira do Brasil com o Peru e Colômbia, também conhecida como "Vale do Javari" .

Após formar na universidade, decidi que queria experimentar a vida na "iniciativa privada", afinal tinha sentado num banco de faculdade pra isso. Então, saí de MSF e fui trabalhar para outras empresas como AmBev, Coca-Cola e Lojas C&A, mas sempre tive saudades do tempo de MSF e da riqueza e satisfação pessoal que tinha pelo trabalho que eu ajudava a realizar. Agora, mais maduro e preparado, decidir voltar e dedicar os próximos anos da minha vida à atividade que mais me deu alegria e realização pessoal. Talvez meu diário seja um pouco diferente dos outros, pois sou administrador e trabalho na área da logística e não na área médica. Vou tentar expressar todas os desafios e alegrias relacionados à área na qual trabalho.

Na minha nova posição como expatriado, sou LogBase, isto é, sou responsável pelas atividades logísticas relacionadas a transportes, comunicação, informática (IT) e manutenção de casas e escritórios na capital. Temos outras posições na área de logística como LogSupply, que é responsável pelas compras e transferências de mercadorias, e o LogConstructor, que é responsável pelo acompanhamento de construções de novos postos de saúde, hospitais ou zonas de lixo hospitalar. A equipe logística no Malauí é grande, pois temos um grande desafio pela frente: criar condições para que a MSF dobre o número de pacientes em tratamento. Isso significa sair de 6.500 pacientes para 12 mil pacientes em um ano.

O Malauí é um país pequeno no sul da África, ex-colônia inglesa que se tornou independente em 1964. Na década de 70, a capital do país foi transferida da cidade de Zomba, no Sul, para Lilongwe, cidade mais ao centro do país. O objetivo da mudança era unificar o Malauí. A cidade de Blantyre é a cidade mais comercial da nação e fica entre a velha e a nova capital. Por ser um país pequeno, é possível atravessá-lo de norte a sul em apenas 14 horas de carro. Suas fronteiras percorrem os seguintes países: Moçambique no sul e sudeste, Tanzânia no norte e nordeste e Zâmbia no oeste. O Malauí tem como idioma oficial o inglês e o chichewa (idioma de origem Bantu), mas possui outras nove línguas. A população é de aproximadamente 12 milhões de pessoas. Cerca de 25% deste total é soropositiva.

A Aids é uma realidade dura e cruel no dia a dia das pessoas. Todos, sem exceção, têm ao menos um parente e/ou amigo falecido por essa doença. A população rural é a mais atingida, mas a doença nao poupa nem os idosos, nem as crianças. Tampouco faz distinção quanto à classe social.

Falar de idoso no Malauí tem uma outra conotação, pois a expectativa de vida é de apenas 44 anos e a distribuição de renda também é outra calamidade. Com uma taxa tão alta de HIV, não é necessário citar que muitos dos nossos funcionários nacionais também são soropositivos.

O Malauí é um país de economia rural. Após a independência viveu 30 anos de regime ditatorial pelo presidente Kamuzu Banda, conhecido pela sua piscina cheia de crocodilos que eram alimentados por quem tentava fazer oposição ou crítica ao seu governo. Banda também apoiou o Apartheid em troca de suporte financeiro da África do Sul. O Malauí teve sua primeira eleição democrática em 1994, é o décimo primeiro país mais pobre do mundo. A infra-estrutura é mais do que básica aqui. O país é interligado por estradas que, na verdade, não são tão ruins, mas bastante simples para a quantidade de veiculos e caminhões que precisam por elas passar. Muitos dos hospitais e centros de saúde no país foram construídos por organizações sem fins lucrativos e com dinheiro doado por países europeus.

Além de ter poucos hospitais, o Malauí tem que enfrentar o problema da falta de médicos. Os poucos que se graduam no país vão para África do Sul ou pra Inglaterra, em busca de melhores condições de vida. A taxa é de um médico para cada 50 mil pessoas, mas todos nós sabemos que um hospital não necessita apenas de médicos. Temos falta de enfermeiros, bioquímicos, biomédicos, laboratoristas. Isso sem levar em consideração toda a estrutura necessária para que o bom funcionamento onde precisamos de assistentes logísticos, assistentes financeiros, assistente administrativos, eletrecistas, hidráulicos, etc, enfim encontrar recursos humanos com treinamentos e capacitação no Malawi é um desafio para qualquer administrador.

 

 

Por: Luis Otávio Guimarães