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Meu
nome é Luiz Otávio M. Guimarães, sou administrador
formado pela Universidade Federal do Amazonas, tenho 33 anos, sou
expatriado de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Malauí.
Conheci MSF quando ainda era universitário e, talvez por
estar na idade de sonhos e na fase de querer revolucionar o mundo,
encantei-me com a forma e com o ritmo de trabalho. Atuei com MSF
por três anos como assistente logístico (equipe nacional),
responsável pela importação e exportação
de medicamentos, manutenção de computadores, do escritório,
das casas dos voluntários, da frota de carros e barcos que
tinhamos no projeto, fincado no meio da floresta amazônica.
O objetivo era levar saúde a comunidade indígena,
vítima da cólera e da malária na fronteira
do Brasil com o Peru e Colômbia, também conhecida como
"Vale do Javari" .
Após formar na universidade, decidi que queria experimentar
a vida na "iniciativa privada", afinal tinha sentado num
banco de faculdade pra isso. Então, saí de MSF e fui
trabalhar para outras empresas como AmBev, Coca-Cola e Lojas C&A,
mas sempre tive saudades do tempo de MSF e da riqueza e satisfação
pessoal que tinha pelo trabalho que eu ajudava a realizar. Agora,
mais maduro e preparado, decidir voltar e dedicar os próximos
anos da minha vida à atividade que mais me deu alegria e
realização pessoal. Talvez meu diário seja
um pouco diferente dos outros, pois sou administrador e trabalho
na área da logística e não na área médica.
Vou tentar expressar todas os desafios e alegrias relacionados à
área na qual trabalho.
Na
minha nova posição como expatriado, sou LogBase, isto
é, sou responsável pelas atividades logísticas
relacionadas a transportes, comunicação, informática
(IT) e manutenção de casas e escritórios na
capital. Temos outras posições na área de logística
como LogSupply, que é responsável pelas compras e
transferências de mercadorias, e o LogConstructor, que é
responsável pelo acompanhamento de construções
de novos postos de saúde, hospitais ou zonas de lixo hospitalar.
A equipe logística no Malauí é grande, pois
temos um grande desafio pela frente: criar condições
para que a MSF dobre o número de pacientes em tratamento.
Isso significa sair de 6.500 pacientes para 12 mil pacientes em
um ano.
O Malauí
é um país pequeno no sul da África, ex-colônia
inglesa que se tornou independente em 1964. Na década de
70, a capital do país foi transferida da cidade de Zomba,
no Sul, para Lilongwe, cidade mais ao centro do país. O objetivo
da mudança era unificar o Malauí. A cidade de Blantyre
é a cidade mais comercial da nação e fica entre
a velha e a nova capital. Por ser um país pequeno, é
possível atravessá-lo de norte a sul em apenas 14
horas de carro. Suas fronteiras percorrem os seguintes países:
Moçambique no sul e sudeste, Tanzânia no norte e nordeste
e Zâmbia no oeste. O Malauí tem como idioma oficial
o inglês e o chichewa (idioma de origem Bantu), mas possui
outras nove línguas. A população é de
aproximadamente 12 milhões de pessoas. Cerca de 25% deste
total é soropositiva.
A Aids
é uma realidade dura e cruel no dia a dia das pessoas. Todos,
sem exceção, têm ao menos um parente e/ou amigo
falecido por essa doença. A população rural
é a mais atingida, mas a doença nao poupa nem os idosos,
nem as crianças. Tampouco faz distinção quanto
à classe social.
Falar
de idoso no Malauí tem uma outra conotação,
pois a expectativa de vida é de apenas 44 anos e a distribuição
de renda também é outra calamidade. Com uma taxa tão
alta de HIV, não é necessário citar que muitos
dos nossos funcionários nacionais também são
soropositivos.
O Malauí
é um país de economia rural. Após a independência
viveu 30 anos de regime ditatorial pelo presidente Kamuzu Banda,
conhecido pela sua piscina cheia de crocodilos que eram alimentados
por quem tentava fazer oposição ou crítica
ao seu governo. Banda também apoiou o Apartheid em troca
de suporte financeiro da África do Sul. O Malauí teve
sua primeira eleição democrática em 1994, é
o décimo primeiro país mais pobre do mundo. A infra-estrutura
é mais do que básica aqui. O país é
interligado por estradas que, na verdade, não são
tão ruins, mas bastante simples para a quantidade de veiculos
e caminhões que precisam por elas passar. Muitos dos hospitais
e centros de saúde no país foram construídos
por organizações sem fins lucrativos e com dinheiro
doado por países europeus.
Além
de ter poucos hospitais, o Malauí tem que enfrentar o problema
da falta de médicos. Os poucos que se graduam no país
vão para África do Sul ou pra Inglaterra, em busca
de melhores condições de vida. A taxa é de
um médico para cada 50 mil pessoas, mas todos nós
sabemos que um hospital não necessita apenas de médicos.
Temos falta de enfermeiros, bioquímicos, biomédicos,
laboratoristas. Isso sem levar em consideração toda
a estrutura necessária para que o bom funcionamento onde
precisamos de assistentes logísticos, assistentes financeiros,
assistente administrativos, eletrecistas, hidráulicos, etc,
enfim encontrar recursos humanos com treinamentos e capacitação
no Malawi é um desafio para qualquer administrador.
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