Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Julia Bartsch, psicóloga, conta sua primeira experiência com MSF em Honduras
  PARTE 1 - 12 de agosto de 2008, Tegucigalpa, Honduras.
 

 

 

Estou tentando precisar qual foi o dia em que esta minha primeira missão com MSF começou e chego à conclusão que não foi no dia em que cheguei em Genebra e muito menos quando coloquei os pés em Honduras. Minha missão começou quando ouvi de Ana Cecilia a frase: “Bem vinda a Médicos Sem Fronteiras!”. A partir desse dia, a cada passo que dava pelas ruas de São Paulo me punha a imaginar como seria o lugar para onde me mandariam. Eu havia sido aprovada, mas não fazia a menor idéia de qual seria o meu destino.

No dia seguinte, eu já comecei com a sessão de vacinas, correr atrás de papeladas, renovar meu passaporte, ver as coisas do banco e, cada vez que entrava em um ônibus, me via em algum lugar que certamente seria bem diferente do que eu estava naquele momento. A experiência de tomar um ônibus eu acabei não tendo, pois aqui em Honduras, não me é permitido fazê-lo. Mas, ainda assim, me entretenho o tempo todo com os coletivos amarelos, aqueles escolares americanos que vieram parar aqui, fazendo suas manobras para tomar espaço, seus cobradores controlando o trânsito para garantir sua passagem, a gritaria anunciando o trajeto, as potentes buzinas. Foram quase quatro semanas até saber que era Honduras o lugar escolhido entre tantos deste enorme planeta. Portanto, as viagens imaginárias nesse meio tempo me colocaram diversas roupas, cheiros e cores bem diferentes das vistas enquanto o corpo estava em plena Avenida Paulista.

Fui à Genebra para meu primeiro Briefing. Antes disso, eu já havia devorado o famoso Volunteers Handbook, entre outras informações que me foram passadas pelos escritórios MSF e com o que fui encontrando na Internet. Não via a hora em que aquelas informações de certa forma tão abstratas até então tomassem forma diante de mim.

Era um sábado quando finalmente cheguei em Honduras. Fui parar em San Pedro Sula, por conta da interdição que havia com o aeroporto de Toncontin, em Tegucigalpa. As quatro horas de viagem me renderam conhecer quase metade do país através da paisagem e do bom papo de um de nossos queridos motoristas. Cheguei à casa onde hoje vivo recepcionada por uma boa pizza feita por um autêntico italiano, meu coordenador de terreno e com quem compartilho a casa e a acolhida da minha antecessora espanhola.

Na segunda, conheci enfim o Centro Terapéutico Día, por nós chamado de CTD, onde acontece o trabalho de atenção dado aos usuários, fazendo meu primeiro trajeto pela cidade, uma cidade de ruas estreitas sem nome, algumas avenidas, com marca de suas histórias, lojas com seguranças armados e vendas e farmácias em que se atende atrás de grades. Tudo isso causa um grande estranhamento inicial e que vai se diluíndo à medida em que se conhece sua gente, seus costumes e suas tortillas.

O trabalho no CTD é sem dúvida uma das coisas mais belas que já presenciei e me encho de orgulho ao dizer que é um grande privilégio estar aqui. Como uma típica cidadã da mega São Paulo, habituei-me com os tantos habitantes de nossas ruas ainda que de uma cômoda distância. O que se faz aqui é especial: é mostrar que atrás daquele jovem que carrega efeitos de um largo uso de drogas, em geral inalantes e em alguns casos crack e marijuana, além das conseqüências da violência e do abandono, existe sim o possível. O trabalho aqui é estruturado de forma que se potencialize as capacidades inerentes a cada usuário, de acordo com seu histórico de consumo, médico, psicológico e social.

Já se sabe que, aos poucos, esses jovens nos recompensam com confiança, reconhecimento de seus próprios valores e pequenas grandes mudanças na vida de cada um. É, sim, verdade que temos nossos momentos de frustração, quando um jovem apresenta dificuldades em tomar parte dessas mudanças ou, ainda pior, quando é a violência que interrompe esse processo.

O empenho da equipe em fazer acontecer as atividades propostas para a realização das estratégias também é algo a se destacar. E fico feliz em fazer parte dessa equipe. Eu supervisiono a área de psicologia, além de envolver-me com o desenvolvimento de estratégias e acompanhamento da evolução dos resultados. Conosco estão a equipe médica, o trabalho social e os educadores, a administração, a equipe de logística, em um total de 37 pessoas, todos trabalhando em conjunto para o sucesso desse belo projeto.
<p>Meu contrato é de no mínimo um ano e espero ter muita coisa para contar sobre essa minha primeira missão MSF. Até a próxima parte!

 


Por: Julia Bartsch