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Estou tentando precisar qual foi o dia em que esta minha primeira
missão com MSF começou e chego à conclusão
que não foi no dia em que cheguei em Genebra e muito menos
quando coloquei os pés em Honduras. Minha missão começou
quando ouvi de Ana Cecilia a frase: “Bem vinda a Médicos
Sem Fronteiras!”. A partir desse dia, a cada passo que dava
pelas ruas de São Paulo me punha a imaginar como seria o
lugar para onde me mandariam. Eu havia sido aprovada, mas não
fazia a menor idéia de qual seria o meu destino.
No dia seguinte, eu já comecei com a sessão de vacinas,
correr atrás de papeladas, renovar meu passaporte, ver as
coisas do banco e, cada vez que entrava em um ônibus, me via
em algum lugar que certamente seria bem diferente do que eu estava
naquele momento. A experiência de tomar um ônibus eu
acabei não tendo, pois aqui em Honduras, não me é
permitido fazê-lo. Mas, ainda assim, me entretenho o tempo
todo com os coletivos amarelos, aqueles escolares americanos que
vieram parar aqui, fazendo suas manobras para tomar espaço,
seus cobradores controlando o trânsito para garantir sua passagem,
a gritaria anunciando o trajeto, as potentes buzinas. Foram quase
quatro semanas até saber que era Honduras o lugar escolhido
entre tantos deste enorme planeta. Portanto, as viagens imaginárias
nesse meio tempo me colocaram diversas roupas, cheiros e cores bem
diferentes das vistas enquanto o corpo estava em plena Avenida Paulista.
Fui à Genebra para meu primeiro Briefing. Antes disso, eu
já havia devorado o famoso Volunteers Handbook, entre outras
informações que me foram passadas pelos escritórios
MSF e com o que fui encontrando na Internet. Não via a hora
em que aquelas informações de certa forma tão
abstratas até então tomassem forma diante de mim.
Era um sábado quando finalmente cheguei em Honduras. Fui
parar em San Pedro Sula, por conta da interdição que
havia com o aeroporto de Toncontin, em Tegucigalpa. As quatro horas
de viagem me renderam conhecer quase metade do país através
da paisagem e do bom papo de um de nossos queridos motoristas. Cheguei
à casa onde hoje vivo recepcionada por uma boa pizza feita
por um autêntico italiano, meu coordenador de terreno e com
quem compartilho a casa e a acolhida da minha antecessora espanhola.
Na segunda, conheci enfim o Centro Terapéutico Día,
por nós chamado de CTD, onde acontece o trabalho de atenção
dado aos usuários, fazendo meu primeiro trajeto pela cidade,
uma cidade de ruas estreitas sem nome, algumas avenidas, com marca
de suas histórias, lojas com seguranças armados e
vendas e farmácias em que se atende atrás de grades.
Tudo isso causa um grande estranhamento inicial e que vai se diluíndo
à medida em que se conhece sua gente, seus costumes e suas
tortillas.
O trabalho no CTD é sem dúvida uma das coisas mais
belas que já presenciei e me encho de orgulho ao dizer que
é um grande privilégio estar aqui. Como uma típica
cidadã da mega São Paulo, habituei-me com os tantos
habitantes de nossas ruas ainda que de uma cômoda distância.
O que se faz aqui é especial: é mostrar que atrás
daquele jovem que carrega efeitos de um largo uso de drogas, em
geral inalantes e em alguns casos crack e marijuana, além
das conseqüências da violência e do abandono, existe
sim o possível. O trabalho aqui é estruturado de forma
que se potencialize as capacidades inerentes a cada usuário,
de acordo com seu histórico de consumo, médico, psicológico
e social.
Já se sabe que, aos poucos, esses jovens nos recompensam
com confiança, reconhecimento de seus próprios valores
e pequenas grandes mudanças na vida de cada um. É,
sim, verdade que temos nossos momentos de frustração,
quando um jovem apresenta dificuldades em tomar parte dessas mudanças
ou, ainda pior, quando é a violência que interrompe
esse processo.
O empenho da equipe em fazer acontecer as atividades propostas para
a realização das estratégias também
é algo a se destacar. E fico feliz em fazer parte dessa equipe.
Eu supervisiono a área de psicologia, além de envolver-me
com o desenvolvimento de estratégias e acompanhamento da
evolução dos resultados. Conosco estão a equipe
médica, o trabalho social e os educadores, a administração,
a equipe de logística, em um total de 37 pessoas, todos trabalhando
em conjunto para o sucesso desse belo projeto.
<p>Meu contrato é de no mínimo um ano e espero
ter muita coisa para contar sobre essa minha primeira missão
MSF. Até a próxima parte!
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