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Por
outro lado, me sinto tranqüila pelo fato de estar de volta
à vida e a uma cidade com as facilidades. Poderei também
voltar a mostrar mais meu jeito de ser, que muitas vezes limitamos
aqui. Mas nem sequer por um momento perdi a essência de mim
mesma. É interessante como somos capazes de nos adaptar em
ambientes diversos, estranhos e, ao mesmo tempo, nos encontrarmos
em detalhes que jamais percebemos antes.
Desde 1º
de setembro não trabalho mais como "medical focal point"
para o projeto em Huddur. Estou em Guri El, substituindo a enfermeira
obstetra e conhecendo o projeto mais profundamente, uma vez que
farei parte da coordenação.
Deixar Huddur
doeu. Eu e a Sarah (enfermeira meio argelina, meio belga) terminamos
a missão no mesmo dia. Decidimos fazer uma festa de despedida
diferente. Convidamos um grupo tradicional que tocou e dançou,
e com quem dançamos. Foi como estar de novo em casa. O som
dos tambores soam tão baianos! E como "toda sexta-feira,
toda roupa é branca e todo mundo é baiano", naquela
sexta-feira um pedaço da Bahia, da musicalidade, visitou-nos
em Huddur. Eu vou sentir saudades. Já sinto saudades.
Em Guri El,
ainda que Somália, é completamente diferente. O hospital
é bem menor, mas tem um movimento enorme. É gostoso
ouvir os colegas somalis falarem do Otávio, da Raquel, brasileiros
que estiveram aqui e cujas presenças foram sentidas profissional
e socialmente. No hospital, além dos serviços básicos,
temos cirurgia de emergência e uma maternidade com um número
impressionante de emergências. Como enfermeira obstetra, faço
mais do que uma enfermeira faria no Brasil em termos de intervenções
e decisões. Um desafio interessante.
Jamais vou esquecer
uma jovem de 20 anos, em sua primeira gestação. Foi
internada há nove dias com eclampsia, pressão arterial
170x120 e convulsões uma atrás da outra. Começamos
o tratamento protocolado. Ela estava em trabalho de parto, mas com
evolução lenta. Conseguimos estabilizá-la por
duas horas. Aqui, para qualquer intervenção invasiva,
como cirurgia, por exemplo, é necessário ter consentimento
assinado pelo irmão ou pai da paciente. Por uma razão
simples, se algo não vai bem e o paciente falece e a família
pensa que foi por causa do manejo do cirurgião, ela pode
pedir pagamento do sangue (100 camelos ou a vida de quem é
responsabilizado pela morte).
A paciente sofreu
uma convulsão novamente. Era fim da tarde e fui chamada urgentemente
para vê-la. Ela sofreu uma parada cardiorespiratória,
conseguimos reanimá-la, estabilizá-la e encaminhá-la
para o centro cirúrgico. Eu me sentia tão tocada (pra
variar, risos), que recorri as minhas orações, uma
vez que todo o possível e disponível, dentro dos padrões
mínimos de qualidade e responsabilidade, havia sido feito.
Só nos restava monitorar, agir, esperar.
O parto foi
feito. Nasceu uma menina que resistiu até à 1h, quando
veio a falecer. Sua mãe continuou inconsciente nas 48 horas
seguintes. Venho acompanhando-a todo este tempo. A médica
expatriada está de férias e sua substituta chegará
em quatro dias.
Quando estava
deixando o hospital esta tarde, pude ver a paciente de longe, caminhando
com sua mãe, sorrindo e acenando para mim. Não dá
para descrever o que senti. Acreditem, como este caso, vemos muitos
aqui. Complicações obstétricas são muito
prevalentes.
Prevenção
e educação em saúde são necessidades
urgentes. O aleitamento materno é esquecido cada vez mais.
Perco horas na enfermaria tentando aconselhar enfermeiras, mães,
avós e acompanhantes sobre a importância de amamentar.
Às vezes não é fácil. Gostaria de acreditar
que muito em breve este país terá estabilidades, escolas
médicas de saúde estarão disponíveis
e acessíveis, que as pessoas buscarão os serviços
de saúde um pouco mais cedo, não apenas quando temos
que lidar entre os limites da respiração. Guri El
me diz diariamente o quanto somos frágeis, o quanto somos
fortes, me faz rir e rir das minhas brincadeiras. Guri El me diz
todos os dias o quanto somos adaptáveis e o quanto somos
rudes, mas principalmente o quanto vale a vida e o quanto ela vale
para mim estando aqui. Mais um outro lugar para sentir saudades.
Por:
Gilmara Nascimento
Leia
a primeira parte do diário de bordo
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do diário de bordo
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do diário de bordo
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do diário de bordo |