Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Gilmara Nascimento, enfermeira brasileira, conta sua experiência com MSF
  PARTE 5 - 25 de setembro, Huddur, Somália.
  O dia está se aproximando. Sábado deixo a Somália para trabalhar em Nairóbi até dezembro como assistente da coordenação médica. Desde fevereiro na Somália, posso dizer que os sentimentos são diversos. Já sinto saudades de tudo que vi e que não vou ver mais, uma vez que os planos são feitos muitas vezes para serem implementados por outros que virão ou que permanecem na equipe.
 


Por outro lado, me sinto tranqüila pelo fato de estar de volta à vida e a uma cidade com as facilidades. Poderei também voltar a mostrar mais meu jeito de ser, que muitas vezes limitamos aqui. Mas nem sequer por um momento perdi a essência de mim mesma. É interessante como somos capazes de nos adaptar em ambientes diversos, estranhos e, ao mesmo tempo, nos encontrarmos em detalhes que jamais percebemos antes.

Desde 1º de setembro não trabalho mais como "medical focal point" para o projeto em Huddur. Estou em Guri El, substituindo a enfermeira obstetra e conhecendo o projeto mais profundamente, uma vez que farei parte da coordenação.

Deixar Huddur doeu. Eu e a Sarah (enfermeira meio argelina, meio belga) terminamos a missão no mesmo dia. Decidimos fazer uma festa de despedida diferente. Convidamos um grupo tradicional que tocou e dançou, e com quem dançamos. Foi como estar de novo em casa. O som dos tambores soam tão baianos! E como "toda sexta-feira, toda roupa é branca e todo mundo é baiano", naquela sexta-feira um pedaço da Bahia, da musicalidade, visitou-nos em Huddur. Eu vou sentir saudades. Já sinto saudades.

Em Guri El, ainda que Somália, é completamente diferente. O hospital é bem menor, mas tem um movimento enorme. É gostoso ouvir os colegas somalis falarem do Otávio, da Raquel, brasileiros que estiveram aqui e cujas presenças foram sentidas profissional e socialmente. No hospital, além dos serviços básicos, temos cirurgia de emergência e uma maternidade com um número impressionante de emergências. Como enfermeira obstetra, faço mais do que uma enfermeira faria no Brasil em termos de intervenções e decisões. Um desafio interessante.

Jamais vou esquecer uma jovem de 20 anos, em sua primeira gestação. Foi internada há nove dias com eclampsia, pressão arterial 170x120 e convulsões uma atrás da outra. Começamos o tratamento protocolado. Ela estava em trabalho de parto, mas com evolução lenta. Conseguimos estabilizá-la por duas horas. Aqui, para qualquer intervenção invasiva, como cirurgia, por exemplo, é necessário ter consentimento assinado pelo irmão ou pai da paciente. Por uma razão simples, se algo não vai bem e o paciente falece e a família pensa que foi por causa do manejo do cirurgião, ela pode pedir pagamento do sangue (100 camelos ou a vida de quem é responsabilizado pela morte).

A paciente sofreu uma convulsão novamente. Era fim da tarde e fui chamada urgentemente para vê-la. Ela sofreu uma parada cardiorespiratória, conseguimos reanimá-la, estabilizá-la e encaminhá-la para o centro cirúrgico. Eu me sentia tão tocada (pra variar, risos), que recorri as minhas orações, uma vez que todo o possível e disponível, dentro dos padrões mínimos de qualidade e responsabilidade, havia sido feito. Só nos restava monitorar, agir, esperar.

O parto foi feito. Nasceu uma menina que resistiu até à 1h, quando veio a falecer. Sua mãe continuou inconsciente nas 48 horas seguintes. Venho acompanhando-a todo este tempo. A médica expatriada está de férias e sua substituta chegará em quatro dias.

Quando estava deixando o hospital esta tarde, pude ver a paciente de longe, caminhando com sua mãe, sorrindo e acenando para mim. Não dá para descrever o que senti. Acreditem, como este caso, vemos muitos aqui. Complicações obstétricas são muito prevalentes.

Prevenção e educação em saúde são necessidades urgentes. O aleitamento materno é esquecido cada vez mais. Perco horas na enfermaria tentando aconselhar enfermeiras, mães, avós e acompanhantes sobre a importância de amamentar. Às vezes não é fácil. Gostaria de acreditar que muito em breve este país terá estabilidades, escolas médicas de saúde estarão disponíveis e acessíveis, que as pessoas buscarão os serviços de saúde um pouco mais cedo, não apenas quando temos que lidar entre os limites da respiração. Guri El me diz diariamente o quanto somos frágeis, o quanto somos fortes, me faz rir e rir das minhas brincadeiras. Guri El me diz todos os dias o quanto somos adaptáveis e o quanto somos rudes, mas principalmente o quanto vale a vida e o quanto ela vale para mim estando aqui. Mais um outro lugar para sentir saudades.

Por: Gilmara Nascimento

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