Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Eliane Mansur, cirurgiã brasileira, conta sua experiência com MSF
  PARTE 4 - Batangafo, República Centro Africana, 26 de abril de 2007.
 
Criança atendida pela Dra Eliane

Fim de missão. Mais uma nova experiência proporcionada pelo trabalho em uma organização humanitária. As emoções se misturam e se confundem: a tristeza por todos e tudo que deixarei aqui e a alegria, o prazer de missão cumprida e da volta para casa, de estar com meus filhos (ficar longe deles foi, sem dúvida, a parte mais difícil da missão!), minha família, meus amigos...

 

A percepção do tempo em uma missão é bem diferente, pois não existe passado e sim um presente contínuo que já dura quatro meses. O tempo deixa de ser uma referência e a missão se torna sua própria referência. A convivência diária com os colegas de missão, compartilhando cada instante, como também o sentimento da responsabilidade pela qualidade da vida humana une a todos. Palavras como companherismo, cumplicidade, colaboração se transformam em sentimentos vivos.

As amizades feitas com a equipe local, a afeição e o carinho pelos pacientes alimentam a saudade, que aumenta à medida que chega o dia da partida. Mas é uma saudade boa, de felicidade por ter vivido cada momento! Por outro lado, a experiência do chegar, e agora do partir, após realizar um trabalho de tal dimensão, é um grande estímulo às reflexões.

Outro aspecto importante deste tipo de atividade é que o trabalho continuará. Seremos substituídos e novas mentes, com novas idéias virão, reavaliando, transformando, procurando sempre um jeito de fazer melhor. Esta semana já chegaram o novo logístico e a nova enfermeira da clínica móvel. É muito interessante ver as diferentes formas de fazer o mesmo trabalho. Para essa transição, fazemos um relatório de avaliação do projeto, o qual , no meu caso, será discutido com o cirurgião que me substituirá, durante seu briefing em Bangui, na próxima semana.

Antes de voltar ao Brasil, passarei no Centro Operacional do MSF em Bruxelas, para fazer o debriefing junto à coordenaçao geral do projeto, onde discutiremos as perspectivas e diretrizes do projeto de cirurgia em Batangafo, baseado em minha experiência nestes quatro meses. Em meio a tudo isso, um pensamento ganha forma e força: “onde” e “quando” será a minha próxima missão com o MSF?

E assim recomeça, com um “friozinho no estômago”, a expectativa de minha nova missão.

Foto: Considero um milagre este bebê de 8 meses estar vivo. Ele foi trazido ao hospital de Batangafo pela clínica móvel com um quadro de febre alta e convulsões contínuas. Fiz o diagnóstico de obstrução intestinal por intussuscepção e o operei apenas com um enfermeiro securista, que fez a ketamina, pois o anestesista tinha viajado neste dia de férias. A foto é do retorno, para retirada de pontos dez dias depois da operação. Ele estava ótimo, saudável e mamando bem feliz! Imagine a minha emoção!

Por: Eliane Mansur

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