Médico Sem Franteiras
Elaine Teixeira, psicóloga, conta sua primeira experiência com MSF em Moçambique
  PARTE 3 - 14 de julho, Moçambique
 


 

Meu papel agora, mais do que nunca, é muito técnico. Trabalho na elaboração e readaptação dos materiais de suporte à equipe, aos expatriados e pacientes. Supervisiono as psicólogas locais e as preparo para me substituírem quando termino a missão. Essa é a maior alegria que tenho e será um êxtase quando efetivamente uma delas assumir a coordenação do psicossocial.

Trabalho muito em coordenação com o IEC na elaboração dos materiais de educação para o tratamento e incentivo a testagem do HIV, especialmente nos conteúdos das mensagens que devem chegar aos pacientes. Mensagens que tentam desconstruir o estigma e o medo de conhecer seu estado de saúde para o indivíduo passe por um um momento de empoderamento e possa se apropriar do seu autocuidado, do seu soroestado e do seu tratamento.

Estou no momento fazendo a revisão do manual que escrevi para apoiar a adesão dos pacientes aos anti-retrovirais. Esta será uma ferramenta de apoio à equipe de saúde da MSF nas unidades sanitárias que apoiamos para a implementação das estratégias de adesão. Além disso, estou envolvida nos grupos de suporte à adesão entre parceiros e o Ministério da Saúde para a estruturação, padronização e implementação das estratégias para a promoção da adesão ao tratamento a nível nacional.

Para terminar, queria contar uma história que vai mostrar um pouco o que estamos fazendo para ajudar as pessoas que estão vivendo com HIV/AIDS em Moçambique, e em especial, agora começo com as crianças.

A história da Xiluva e do Julinho é uma história que foi criada para apoiar a educação das crianças no aspecto do HIV. As duas crianças, ambas filhas de pais soropositivos, Xiluva soronegativa e Julinho soropositivo. Xiluva vive com os pais, Julinho vive com os tios pois os pais faleceram. Ambos estão na escola conversando e Julinho está contando que vai ao hospital no dia seguinte e que faz isso todos os meses.

Xiluva não vai mais ao hospital, mas diz a Julinho que seus pais sempre vão. Julinho diz que sabe que tem uma doença, mas não sabe qual é. Xiluva não está doente, mas sabe que os tios têm uma doença que não tem cura.

Enfim, a história decorre para preparar as crianças para a revelação do seu soroestado, aspecto ainda muito difícil, pois o cuidado com as crianças sempre é um desafio, já que são profissionais e pais tentando encontrar uma forma de falar sobre HIV com os seus filhos de maneira mais natural. Através da revelação que vai se fazendo de maneira parcial, com o envolvimento dos pais e cuidadores, tentamos trabalhar e minimizar a discriminação e melhorar a adesão das crianças de maneira lúdica. Desenvolveu-se uma ferramenta de suporte (um desenho) que chama-se ‘caminho da vida’ e é para as crianças pintarem quando tomam os seus anti-retrovirais e trazerem na próxima consulta.

Envio também uma foto de uma criança linda comigo no grupo de apoio para pais e cuidadores realizado no Hospital de Dia e iniciado em setembro de 2007. Essa atividade que foi nova para o projeto e que mostra na minha experiência a importância dos grupos de apoio no fortalecimento da PVHA e no combate à epidemia do HIV.
Para os próximos diários prometo mais histórias, menos contos, mais campo, menos sonhos, que vão envolver a cultura, a diversidade e o que a vida tem de mais bonito: AS PESSOAS!!!

Leia a segunda parte do diário de bordo

 

Por: Elaine Teixeira