Médico Sem Franteiras
Elaine Teixeira, psicóloga, conta sua primeira experiência com MSF em Moçambique
  PARTE 2 - 14 de julho, Moçambique
 

 

 

Hoje completo 360 dias de missão e não haveria melhor oportunidade para escrever o segundo capítulo do diário de bordo. Uma mistura de sentimentos ao meu redor, que contemplam meu universo agora, além de Marisa Monte...

Depois de um ano, fazer um pequeno balanço tem muito significado após tantos desafios, algumas frustrações, encontros, desencontros, pessoas interessantes, pacientes queridos, muito trabalho e, claro!, o resultado: muitas conquistas! Melhor do que ver, é sentir. E isso não tem preço!

O HIV faz nós, profissionais da saúde, pensar o cuidado de outra maneira. Faz-nos tentar compreender o que fazer de diferente para mudar o percurso dessa pandemia, que ocupa espaço cada vez maior no mundo. O interessante é entender que quando falamos de pessoas, tudo é possível, pois são pessoas cuidando de pessoas, e mesmo quando o resultado parece tão distante, ainda vale a pena!

Bom, sem filosofar, mas entrando no terreno (como dizem aqui), estar em Moçambique e trabalhar com MSF tem proporcionado uma visão muito diferente do que vivemos no Brasil. A África tem muito a dar a todos nós pela sua diversidade, alegria e beleza, mas também tem de receber no perceber e sensibilizar para aspectos que ainda são tabus e que também são os motores da velocidade desta pandemia, como a sexualidade, por exemplo.

O meu dia-a-dia no trabalho mudou no percurso de um ano. Foi muito fácil me adaptar a MSF, mesmo sendo minha primeira missão. Também a Moçambique, país de povo alegre, bonito e com uma diversidade cultural que sempre me encantou os olhos e o coração.

Chegar ao Hospital de Dia de MSF, que já tinha uma equipe psicossocial trabalhando há muitos anos, me integrar e trabalhar sem criar melindres, de forma a contribuir com a equipe, foi o primeiro desafio. Depois, mostrar o valor e a importância do psicossocial como parte dos cuidados para a promoção da saúde integral (mental e física) das pessoas vivendo com HIV/AIDS e que o impacto na sua qualidade de vida é outro.

Entre as minhas visitas ao Hospital de Dia, local que me permitia entender melhor o projeto, começava ganhar força a descentralização dos serviços de HIV/AIDS em cinco centros de Saúde. O objetivo era integrar os cuidados de HIV com o programa do Ministério da Saúde.

Iniciei a capacitação da equipe nacional para a melhoria do cuidado e atenção psicossocial, ao mesmo tempo em que dividia meu tempo no hospital e no escritório. Desenvolvia ferramentas de suporte para a equipe nacional, expatriados e, claro, para os pacientes. Contratamos uma psicóloga e promovemos outra, ambas como supervisoras das equipes. Quando elas já ocupavam um lugar no projeto, minha participação no terreno passou a ser pontual, pois era a fase de dar suporte técnico às supervisoras para seguirem as atividades nos projetos cada vez mais de maneira independente.


Leia a primeira parte do diário de bordo


 

Por: Elaine Teixeira