Médico Sem Franteiras
David Souza, médico, conta sua experiência com MSF na Etiópia
  PARTE 3 - 11 de agosto, Kambata, Etiópia
 

 

 

O que mais cansa em um dia aqui não é o trabalho em si, mas a potência das imagens e dos sons, que continuam reverberando, mesmo depois que a cabeça já está no travesseiro. Algumas famílias em busca de comida estão tão desesperadas que procuram provocar edema nos pés, para que tenham mais chances de serem aceitas no programa. Para isso amarram cordas apertadas nas pernas, provocam picadas de abelhas ou marimbondos e usam até agua quente.

Passada a fase de seleção na OTP, me desloco para a sala de consulta. Toda criança admitida no programa fará exame de malária, que é endêmica na região e receberá um bracelete que a identifica como nosso paciente. Também é fornecida a vacina contra sarampo e uma dose de vitamina A, para aquelas que não receberam recentemente. Se o paciente for moderado e estiver no SFC, recebe um preparado farináceo reforçado. Se for avaliado como severo, irá para a OTP, recebendo uma pasta alimentar terapêutica, o alimento específico para os severamente desnutridos.

Na sala de consulta, é hora de examinar com cuidado cada paciente, ver se tem suspeita de outras doenças, HIV, tuberculose, febre tifóide, infecções de olhos, ouvidos ou pele, pneumonias, etc. Ao diagnosticarmos alguma dessas condições, tratamos. No caso da TB ou do HIV, encaminhamos para tratamento pelo Ministério da Saúde, que tem um programa que funciona direitinho.

Os atendimentos terminam lá pelas 18h, quando, reunidos com a equipe, discutimos um pouco o que vimos durante o dia. Muitas vezes à noite ainda tem trabalho, pois é a hora em que as diversas equipes se encontram para compartilhar os problemas e desafios que aconteceram durante o dia. Desse momento importante, surgem idéias como, por exemplo, a de cada médico ter uma farmácia portátil, pensada depois que um um paciente na OTP sofreu uma convulsão, ou de como organizar melhor as imensas filas formadas pelas pessoas em busca de ajuda.

Essa semana, em várias unidades havia mais de mil pessoas. Precisamos interromper o atendimento por medo de que se perdesse o controle e de que alguma criança pudesse ser pisoteada. Essa é uma parte bem triste. Ver tantas pessoas, cujo direito a vida é igual ao de qualquer outra, mas que precisam andar por horas na chuva e se expor a tantos riscos, para conseguir acesso a cuidados e comida. Fico feliz que estejamos aqui, por sermos uma mão, por mostrarmos um pouco do que está acontecendo com o povo daqui.

Ao fim de cada dia, a tristeza e a alegria de algumas cenas se misturam, mas há também o orgulho de trabalhar com uma organização tão comprometida.
A vida na casa é despojada. Quartos simples, sem banheiro. Banho de caneca e no lugar do vaso sanitário, as latrinas. A falta de conforto é compensada pela boa sensação de causar impacto direto na vida das pessoas e pela alegria e união de uma ótima equipe que, sempre que falta luz, rapidinho monta uma fogueira. Não vou saber o nome de todos, mas temos aqui quatro médicos (Eu, Claudia, Karianne e Asaad), enfermeiros, logisticos, administradores, motoristas.

Hoje de manhã, tentando ajudar um logístico argentino a construir uma cerca, rimos muito ao nos ver, brasileiro e argentino aqui no coração da Etiópia, debaixo da chuva, fazendo uma cerca. Há gente da noruega, França, Bélgica, Suécia, Chile, Brasil, Argentina, Iraque, Estados Unidos, Irlanda, Inglaterra, Libéria e é claro, muitos etíopes.

Para terminar, talvez seja importante dizer que por curiosidade, perguntei a várias crianças o que sabiam do Brasil. Para minha surpresa, até agora não encontrei nenhuma que soubesse o que é o Brasil. Os adultos sabem por causa do futebol, mas as crianças, muitas, nunca ouviram falar do Brasil. Pensando nisso, depois me dei conta que também no interior do Nordeste onde trabalhei, acho que muitas crianças nunca ouviram falar da Etiópia.
Não é preciso dizer, que pra tudo isso acontecer, é necessária uma tremenda operação logística. Água limpa, alimentos, medicamentos, por estradas difíceis, para tantos lugares. Tudo muito caro e difícil.

Recentemente, estávamos sem saber muito bem se conseguríamos ou não ter disponível o montante de comida e de pasta terapêutica necessários para tocar o programa.

Enfrentamos um problema de produção e de dificuldade de entrega.
Recentemente, decidimos receber todos os pacientes com desnutrição severa mas dos moderados só os com menos de cinco anos. Isso acontece porque não há garantia de que teremos comida e plumpynut para todos, por uma questão de producão e de entrega.

A maior razão apontada para a atual crise é o aumento no preço dos alimentos e também o fato de a colheita, que era esperada, não ter acontecido por questões climáticas. Pra mim, essas duas razões assustam, pois ambas estão fora do controle das mãos da população, que vive num tênue equilíbrio alimentar. Isso significa dizer que se ano que vem os preços continuarem a subir e a colheita novamente falhar, precisamos estar preparados para responder à crises quem sabe maiores e milhares de pessoas poderão morrer de fome.

Leia a segunda parte do diário de bordo

 

Por: David Souza