Médico Sem Franteiras
David Souza, médico, conta sua experiência com MSF na Etiópia
  PARTE 2 - 11 de agosto, Kambata, Etiópia
 

 

 

Só aqui na região de Kambata, falam-se 40 dialetos, o que as vezes nos leva a ter que trabalhar com uma tripla tradução. O paciente fala em Kambati, o primeiro tradutor passa para Amárik, a lingua nacional e o segundo tradutor passa de Amárik para inglês, para podermos entender. Um desafio.

Todas as manhãs, saem os veículos 4X4 de MSF para as diversas áreas onde estão as OTPs. Minha função é atender aos pacientes nas OTPs e treinar as equipes de enfermeiros, para que aprendam a avaliar corretamente um paciente com desnutrição. O acesso a esses locais não é fácil. Seria impossível chegar a muitos deles sem a ajuda dos nossos veículos de tração.

Uma outra questão importante é que aqui é uma região fria e montanhosa e tem chovido muito. O frio não dá uma boa combinação com desnutrição, pois produz hipotermia, reduzindo excessivamente a temperatura do corpo e aumentando a gravidade da situação. Atualmente, o trabalho está muito intenso, pois em algumas áreas muitas pessoas extremamente desnutridas nos tem procurado.

Cada dia visito uma área diferente. Algumas noites e nos fins de semana, fico de plantão no Centro de Estabilização. Na região de Tunto especificamente, a situação é difícil. É que nessa semana abrimos ao lado da OTP nosso primeiro Centro de Alimentação Suplementar (SFC na sigla em inglês). Aí acolhemos os pacientes moderadamente desnutridos, avaliados também pela circunferência do braço, peso e altura.

Tanto nos OTPs quanto nos SFCs, as famílias dos pacientes com
desnutrição recebem uma cota de alimentos. Isso é feito para que outras pessoas da família não fiquem desnutridas, mas também para evitar que a terapia nutricional, que é dada para a criança, seja compartilhada com outras pessoas, uma vez que o paciente precisa dela completa.

Chegando à OTP, inicialmente caminho no meio das pessoas, tentando identificar algum paciente que precise e cuidados imediatos e atendimento prioritário. Uma vez identificado, este paciente será imediatamente enviado para o Centro de Estabilização em nosso veículo. Lá os esperam Asaad, médico iraquiano, ou Karianne, médica norueguesa, e uma equipe de enfermeiros etíopes para fornecer os primeiros cuidados e interná-los.

Passada essa primeira etapa, munidos da fitinha do MUAC e de um bastão para verificar a altura, iniciamos a triagem, para ver os pacientes que serão ou não recebidos em nosso programa. Aqui, o mais duro é dizer para uma mãe, ou mesmo para uma criança, que ela não entrou no critério. É que embora nemtodos estejam desnutridos, a imensa maioria é muito pobre e precisa de comida. Dá pra sentir a ansiedade no rosto das mães enquanto verificamos o MUAC, peso e altura. Algumas choram muito quando dizemos que não podemos recebê-las.

Leia a primeira parte do diário de bordo

 

Por: David Souza