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Só
aqui na região de Kambata, falam-se 40 dialetos, o que as
vezes nos leva a ter que trabalhar com uma tripla tradução.
O paciente fala em Kambati, o primeiro tradutor passa para Amárik,
a lingua nacional e o segundo tradutor passa de Amárik para
inglês, para podermos entender. Um desafio.
Todas as manhãs, saem os veículos 4X4 de MSF para
as diversas áreas onde estão as OTPs. Minha função
é atender aos pacientes nas OTPs e treinar as equipes de
enfermeiros, para que aprendam a avaliar corretamente um paciente
com desnutrição. O acesso a esses locais não
é fácil. Seria impossível chegar a muitos deles
sem a ajuda dos nossos veículos de tração.
Uma outra questão importante é que aqui é uma
região fria e montanhosa e tem chovido muito. O frio não
dá uma boa combinação com desnutrição,
pois produz hipotermia, reduzindo excessivamente a temperatura do
corpo e aumentando a gravidade da situação. Atualmente,
o trabalho está muito intenso, pois em algumas áreas
muitas pessoas extremamente desnutridas nos tem procurado.
Cada dia visito uma área diferente. Algumas noites e nos
fins de semana, fico de plantão no Centro de Estabilização.
Na região de Tunto especificamente, a situação
é difícil. É que nessa semana abrimos ao lado
da OTP nosso primeiro Centro de Alimentação Suplementar
(SFC na sigla em inglês). Aí acolhemos os pacientes
moderadamente desnutridos, avaliados também pela circunferência
do braço, peso e altura.
Tanto nos OTPs quanto nos SFCs, as famílias dos pacientes
com
desnutrição recebem uma cota de alimentos. Isso é
feito para que outras pessoas da família não fiquem
desnutridas, mas também para evitar que a terapia nutricional,
que é dada para a criança, seja compartilhada com
outras pessoas, uma vez que o paciente precisa dela completa.
Chegando à OTP, inicialmente caminho no meio das pessoas,
tentando identificar algum paciente que precise e cuidados imediatos
e atendimento prioritário. Uma vez identificado, este paciente
será imediatamente enviado para o Centro de Estabilização
em nosso veículo. Lá os esperam Asaad, médico
iraquiano, ou Karianne, médica norueguesa, e uma equipe de
enfermeiros etíopes para fornecer os primeiros cuidados e
interná-los.
Passada essa primeira etapa, munidos da fitinha do MUAC e de um
bastão para verificar a altura, iniciamos a triagem, para
ver os pacientes que serão ou não recebidos em nosso
programa. Aqui, o mais duro é dizer para uma mãe,
ou mesmo para uma criança, que ela não entrou no critério.
É que embora nemtodos estejam desnutridos, a imensa maioria
é muito pobre e precisa de comida. Dá pra sentir a
ansiedade no rosto das mães enquanto verificamos o MUAC,
peso e altura. Algumas choram muito quando dizemos que não
podemos recebê-las.
Leia
a primeira parte do diário de bordo
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