Médico Sem Franteiras
David Souza, médico, conta sua experiência com MSF na Etiópia
  PARTE 1 - 11 de agosto, Kambata, Etiópia
 

 

 

Os dias aqui são muito intensos e uma semana parece um mês. Faz apenas alguns dias que estou na missão, mas a sensação é de que já ficou longe, muito longe o desembarque no Aeroporto de Adis Abeba.

A missão de emergência nutricional de MSF está dividida em algumas áreas do país, basicamente aquelas onde a situação é mais preocupante. Estou na zona de Kambata, onde iniciamos o atendimento às pessoas gravemente desnutridas.

Sabemos que alguém está severamente desnutrido quando, ao medir a
circunferência do braço, a quantidade de músculo é tão pequena que numa fita plástica chamada Muac, que é colocada ao redor do braço, a coloração fica vermelha, indicando necessidade de ajuda urgente e risco de morte. Algumas crianças têm tanta carência de proteína que ficam edemaciadas, um outro sinal da severidade da desnutrição.

Normalmente, acordo por volta das 6h30m. Tomo uma xícara do bom café etíope, como um pedaço de pão, preparo um sanduiche de ovo para o almoço e uma garrafa de água. É isso que vai me sustentar durante o dia. É que a região em que atendemos é bastante rural e isolada e não temos onde fazer refeições. Além disso, devo confessar que o apetite acaba diminuindo, quando testemunhamos tanta gente se desesperando por falta de alimento.

Antes de sair, passo no Centro de Estabilização, que fica ao lado de nossa casa. Nesse local ficam os pacientes mais graves, muitos dos quais estão tão fraquinhos que mal conseguem se alimentar. Dar alimentos normais para eles seria um risco. Na desnutrição grave, o corpo perde a capacidade de absorver e metabolizar nutrientes e fica muito mais suscetível às infecções.

No Centro de Estabilização, examino os pacientes que encaminhei das clínicas onde tenho atendido. Essas clínicas são chamadas de OTPs (outreach terapeutic programms) e nelas são acompanhados os pacientes severamente desnutridos, mas que conseguem pelo menos se alimentar. Caso eles apresentem complicações médicas ou piorem suas condições de saúde, passam a ficar internados nos centros de estabilização, 24 horas em observação por uma equipe de médicos e enfermeiros.

Os pacientes internados nos Centros de Estabilização passam por três fases até receberem alta. Na fase I, alimentam-se exclusivamente do leite chamado F75, que contém nutrientes na medida certa pra que eles possam pouco a pouco recuperar sua condição física. Na fase de transição, passam a receber um leite um pouco mais enriquecido, chamado de F100. Na fase dois já alternam o leite com um preparado muito rico chamado plumpynut, que continuarão usando mesmo depois de ir pra casa até chegarem a um peso que consideramos seguro.

Cada vez que esse estágio é atingido e um paciente é liberado do nosso programa dá aquela alegria difícil de explicar. No caso das crianças, o rostinho muda tanto, que parece que a mãe entrou com um filho e saiu com outro. A criança desnutrida tem uma cara de velhinho, não sorri, é triste. Algumas tem a carinha inchada e até deformada pelo edema e cada vez que isso regride, o ar entra mais fácil nos nossos pulmões.

No entanto, nem sempre conseguimos ter sucesso. Algumas vezes, o corpo fraquinho e suscetível a infecções, perde a batalha da luta pela vida e, mesmo com os cuidados oferecidos, perderemos algumas crianças e adultos para a fome.

Outro dia um bebê de nove meses morreu de fome. A mãe, desnutrida, não tinha leite e ele foi definhando aos poucos. Quando chegou até a OTP, estava tão sem energia que não conseguia nem chorar, só gemer. Colocamos ele correndo no carro, mas não podíamos correr muito, pois chovia demais e a lama fazia a estrada de terra extremamente perigosa.

Ao chegarmos no Centro de Estabilização, o coraçãozinho parou. Tentamos reanimá-lo, mas não deu. Não dá para descrever a sensação de ver uma criança morrer de fome. Muitas mães aqui choram cantando. Cantam um canto tão triste! Outro dia meu tradutor disse que é na realidade uma oração. Espero que seja atendida.


 

Por: David Souza