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Os
dias aqui são muito intensos e uma semana parece um mês.
Faz apenas alguns dias que estou na missão, mas a sensação
é de que já ficou longe, muito longe o desembarque
no Aeroporto de Adis Abeba.
A missão de emergência nutricional de MSF está
dividida em algumas áreas do país, basicamente aquelas
onde a situação é mais preocupante. Estou na
zona de Kambata, onde iniciamos o atendimento às pessoas
gravemente desnutridas.
Sabemos que alguém está severamente desnutrido quando,
ao medir a
circunferência do braço, a quantidade de músculo
é tão pequena que numa fita plástica chamada
Muac, que é colocada ao redor do braço, a coloração
fica vermelha, indicando necessidade de ajuda urgente e risco de
morte. Algumas crianças têm tanta carência de
proteína que ficam edemaciadas, um outro sinal da severidade
da desnutrição.
Normalmente, acordo por volta das 6h30m. Tomo uma xícara
do bom café etíope, como um pedaço de pão,
preparo um sanduiche de ovo para o almoço e uma garrafa de
água. É isso que vai me sustentar durante o dia. É
que a região em que atendemos é bastante rural e isolada
e não temos onde fazer refeições. Além
disso, devo confessar que o apetite acaba diminuindo, quando testemunhamos
tanta gente se desesperando por falta de alimento.
Antes de sair, passo no Centro de Estabilização, que
fica ao lado de nossa casa. Nesse local ficam os pacientes mais
graves, muitos dos quais estão tão fraquinhos que
mal conseguem se alimentar. Dar alimentos normais para eles seria
um risco. Na desnutrição grave, o corpo perde a capacidade
de absorver e metabolizar nutrientes e fica muito mais suscetível
às infecções.
No Centro de Estabilização, examino os pacientes que
encaminhei das clínicas onde tenho atendido. Essas clínicas
são chamadas de OTPs (outreach terapeutic programms) e nelas
são acompanhados os pacientes severamente desnutridos, mas
que conseguem pelo menos se alimentar. Caso eles apresentem complicações
médicas ou piorem suas condições de saúde,
passam a ficar internados nos centros de estabilização,
24 horas em observação por uma equipe de médicos
e enfermeiros.
Os pacientes internados nos Centros de Estabilização
passam por três fases até receberem alta. Na fase I,
alimentam-se exclusivamente do leite chamado F75, que contém
nutrientes na medida certa pra que eles possam pouco a pouco recuperar
sua condição física. Na fase de transição,
passam a receber um leite um pouco mais enriquecido, chamado de
F100. Na fase dois já alternam o leite com um preparado muito
rico chamado plumpynut, que continuarão usando mesmo depois
de ir pra casa até chegarem a um peso que consideramos seguro.
Cada vez que esse estágio é atingido e um paciente
é liberado do nosso programa dá aquela alegria difícil
de explicar. No caso das crianças, o rostinho muda tanto,
que parece que a mãe entrou com um filho e saiu com outro.
A criança desnutrida tem uma cara de velhinho, não
sorri, é triste. Algumas tem a carinha inchada e até
deformada pelo edema e cada vez que isso regride, o ar entra mais
fácil nos nossos pulmões.
No entanto, nem sempre conseguimos ter sucesso. Algumas vezes, o
corpo fraquinho e suscetível a infecções, perde
a batalha da luta pela vida e, mesmo com os cuidados oferecidos,
perderemos algumas crianças e adultos para a fome.
Outro dia um bebê de nove meses morreu de fome. A mãe,
desnutrida, não tinha leite e ele foi definhando aos poucos.
Quando chegou até a OTP, estava tão sem energia que
não conseguia nem chorar, só gemer. Colocamos ele
correndo no carro, mas não podíamos correr muito,
pois chovia demais e a lama fazia a estrada de terra extremamente
perigosa.
Ao chegarmos no Centro de Estabilização, o coraçãozinho
parou. Tentamos reanimá-lo, mas não deu. Não
dá para descrever a sensação de ver uma criança
morrer de fome. Muitas mães aqui choram cantando. Cantam
um canto tão triste! Outro dia meu tradutor disse que é
na realidade uma oração. Espero que seja atendida.
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