Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Cristiane Emi Tsuboi, médica brasileira, conta sua experiência com MSF
  PARTE 3 - 24 de junho, Kapsokwony, Quênia
 

Faz teeeeeempo que não dou sinal de vida, ando bastante ocupada. Com a mudança do meu coordenador de terreno (fim do contrato e hora de ir para casa descansar para um, começo de muitos desafios para outro) muita coisa mudou. No começo é um pouco difícil, já estava tão acostumada ao meu antigo coordenador, mas como mudanças sempre nos trazem novas visões, já aprendi muita coisa boa e me adaptei rapidamente.

Definitivamente, a melhor mudança é que agora consegui permissão para dar minhas corridinhas. Tudo bem que preciso voltar antes das 18h, carregar um rádio, ir acompanhada, mas já é uma grande conquista. Meu enfermeiro Juma (um negro enorme de 1,90m de altura) me acompanha sempre.

Dá pra imaginar?? Estou correndo no Quênia!!! E não é só isso: na região dos kalenjins (tribo de onde vem todos os corredores famosos)! Vira e mexe, cruzo com um magrelo correndo pelas estradas e minha imaginação voa, pensando se ele será o próximo vencedor da São Silvestre. Posso dizer que é uma experiência um tanto pitoresca. Em vez de desviar de carros, desvio de rebanhos de gado, cabra, ovelhas. Asfalto nem pensar! Crianças correndo atrás de mim por mais da metade do caminho gritando “mzungo, mzungo, mzungo” (pessoa branca em swahili).

Outro dia, passei na frente da escola no horário do fim das aulas. Fui até minha casa com mais de 50 crianças correndo comigo e gritando. E olha que esses pequenininhos correm descalços e me deixam comendo poeira.

Semana passada, MSF fez umas conferências com a imprensa (em Nairóbi e em Londres) relatando toda a situação em Monte Elgon. Sobre o sofrimento do povo devido aos ataques da milícia e depois devido às torturas sofridas durante as atividades militares. Isso teve uma repercussão enorme por aqui e na imprensa internacional. Sensação boa, conseguir dar voz àqueles sem voz.

Falando no meu trabalho, Kopsiro (o centro de saúde que estamos abrindo) vai de vento em popa. Muita coisa ainda para resolver, muito trabalho já feito e mais coisa ainda para se fazer. Mas pelo menos vou receber uma enfermeira expatriada para me ajudar. Ela vai ficar fixa lá e eu me divido entre as atividades das duas bases. Daqui, coordeno diretamente as atividades das clínicas móveis e indiretamente as atividades de Kopsiro, sendo responsável por toda a parte de coleta de dados, suprimentos médicos, supervisão do atendimento e relatórios semanais. Ufa! Já estou cansada, antes mesmo de começar.

Essa semana recebi suprimentos médicos para começar as atividades: 300 garrafas de fluidos, centenas de injetáveis. Pior de tudo é que todo dia me lembro de alguma coisa que ainda preciso pedir. Metronidazol EV, Oxacilina, catéter de foley, ai ai ai, estou ficando maluquinha...

E só para ajudar, o time de Kitale está fechando o projeto. Vou receber todos os suprimentos deles, tentar organizar e doar grande parte.

Apesar da grande carga de trabalho, me sinto feliz e realizada profissionalmente.

Leia a segunda parte do diário de bordo


 

Por: Cristiane Emi Tsuboi