Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Cristiane Emi Tsuboi, médica brasileira, conta sua experiência com MSF
  PARTE 2 - 11 de junho, Kapsokwony, Quênia
 

Faz quase três meses que cheguei no Quênia. Nesse tempo, muita coisa aconteceu tanto no contexto político local, nacional, quanto no meu contexto pessoal.

Passamos por operações de emergência durante uma atividade militar. Nesse período, trabalhei mais de 30 dias consecutivos, cobrindo todas as áreas do distrito. Tivemos casos de alta complexidade em um contexto de recursos limitadíssimos.

Fizemos uma intervenção no presídio local (construído para 400 presos, mas que no momento tem 1.450 detentos), enfrentamos rebeliões do lado de dentro dos portões.

Após tanta instabilidade e trabalhos extras, estava esgotada. Resolvi tirar um fim de semana para descansar (meu segundo fim de semana desde que desembarquei). Fui com meu amigo brasileiro, que trabalha com MSF em Nairóbi, para Mombasa. Descansei, recarreguei as baterias e, no fim das contas, estava morrendo de vontade de voltar logo para o meu trabalho. Não via a hora de ver meus pacientes, voltar pras minhas clínicas, ver o andamento de Kopsiro.

Falando em Kopsiro...

Kopsiro é um centro de saúde que foi abandonado após o início dos conflitos tribais. Os vilarejos ao redor foram queimados (inclusive as casas dos funcionários) e até hoje parecem cidades-fantasma. Todos fugiram e a clínica ficou abandonada por alguns anos, quando MSF começou a abrir duas vezes por semana e usar como espaço para nossas clínicas móveis.

Agora, MSF planeja abrir de vez o centro de saúde. Passamos a realizar atendimento de segunda a sexta, implementamos nossas atividades com serviço para o teste voluntário de HIV e realização do teste durante o pré-natal. O próximo passo será manter o funcionamento 24 horas por dia.

Tivemos poucas semanas para planejar tudo: sistema de abastecimento de água, todo o material médico, alugar uma casa para a nossa equipe, recursos humanos, planejamento financeiro, aprovação do orçamento.

Já gastei tanta energia nos hospitais locais, discutindo por causa de descaso, que não vejo a hora de ter um lugar onde possa fazer tudo direitinho para meus pacientes. Da limpeza das enfermarias às prescrições e seguimento das mesmas.

Teremos 21 leitos (femininos, masculinos, pediatria e maternidade), sala de parto, PMTCT (assistência ao parto de mulheres HIV positivo para diminuir a chance de transmissão para o bebê), laboratório, pequenas cirurgias. No futuro, vou levar as clínicas que fazem atendimento a pacientes HIV positivos e tuberculose, pelo menos uma vez por semana. Trabalho bastante duro, principalmente pois não tenho experiência em administração hospitalar. Tento compensar colocando toda minha dedicação nesse projeto.

Além da parte profissional, a vida no campo também não é fácil. Moro numa casa com toda a equipe. Somos dois expatriados (eu e o coordenador de terreno, que é etíope) e mais de 20 quenianos. É bastante complicado trabalhar, comer e dormir com as mesmas pessoas, ainda mais com difernças culturais tão grandes. Apesar das dificuldades, está sendo uma experiência única e bastante interessante.

A casa é simples e parece um sítio, sem água encanada, com galinhas, cabras e bezerros no quintal (ainda tem Tiger, um vira-lata pulguento, meu cachorro preferido). A comida é bastante diferente e ainda estranho um pouco. Como quase todos são quenianos, a comida é predominantemente local.

Kapsokwony, onde fica nossa base-casa-escritório, é uma cidadezinha minúscula sem asfalto, sem prédios, de difícil acesso pelas estradas, que não consta em quase nehum mapa. Possui dois mercadinhos, dois hoteizinhos, algumas lojas (que nunca têm o que se procura) e um hospital bastante simples, sem centro cirúrgico, sem sala de emergência, com raios-X funcionando somente alguns dias por mês. Desde o início dos conflitos, temos toque de recolher. Das 19h às 7h ninguém pode sair de casa por motivos de segurança. A polícia faz rondas durante a noite toda.

Nossas compras são feitas no fim de semana em Kitale, cidade a uma hora de carro. Aproveitamos para usar a internet no cyber cafe, comprar utensílios de uso pessoal (sabonete, xampu, etc...) e comer alguma coisa diferente, iguarias raras como um pacote de pipoca.


Leia a primeira parte do diário de bordo


 

Por: Cristiane Emi Tsuboi