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Após
quase nove meses aqui em Uganda, minha primeira missão com
MSF chega ao fim. Nossa, como passou rápido! Sinto uma mistura
de alegria e tristeza. Alegria, pois irei rever pessoas queridas
que deixei no Brasil e tristeza por deixar aqui em Uganda novos
amigos e uma vida que foi muito intensa devido às novidades
(incluindo as dificuldades) com as quais me deparei. De certa forma,
estou deixando meu lar. Não imaginei que a tristeza fosse
ser tão grande. Demorou uns 30 minutos para eu conseguir
parar de chorar no carro na minha última viagem Atiak-Gulu.
Alguns dos funcionários nacionais que estavam no carro comigo
ficaram preocupados, achando que eu estava MUITO mal.
Incrível, mas ao fim dos nove meses estava bem menos cansada
que nos meus três, quatro meses de missão. Acredito
que seja por estar bem mais adaptada às condições
de vida, ambiente e ao trabalho.
Os três últimos meses foram dedicados para avaliar
o andamento da unidade de saúde mental sem a minha supervisão
tão de perto e treinar os “clinical officers”
(profissional que tem o papel de médico, seria um ‘técnico
médico’ que faz quase tudo que um médico faz.
Na atenção primária eles fazem o mesmo que
um médico). Enfim, preparar minha saída escrevendo
relatórios para a equipe de expatriados do terreno que ficarão
aqui em Uganda dando continuidade ao projeto.
Algumas coisas que me marcaram foram:
- Percebi o quanto nos comunicamos de forma não-verbal. Apesar
de eu não falar o idioma local, pude me conectar com muitos
dos pacientes atendidos pelas conselheiras (tipo de terapeutas).
Um deles, um “menino” de 20 anos com retardo mental
importante devido à malária cerebral aos 6 meses de
idade e que após algumas sessões me surpreendeu quando
a mãe relatou que ele pediu para ir ao centro de saúde
onde havia uma branca (eu).
- Ao mesmo tempo que somos tão diferentes (língua,
cultura, história de vida), somos também muito parecidos
(problemas de relacionamento, preocupação com o próprio
bem-estar e com o de pessoas queridas, angústias existenciais).
- O ser humano é capaz de se adaptar às mais diversas
situações. Eu não imaginava, no primeiro dia,
que me adaptaria tão bem às condições
de vida que encontrei no terreno (latrina, banho de balde, ausência
de eletricidade e água encanada). A partir de maio, passamos
a ter energia elétrica (fonte solar) nos quartos, cozinha
e “living area”. Mas para banhos noturnos e visitas
noturnas à latrina era necessário lampião de
querosene ou lanterna.
- O orgulho de ser brasileira. Hoje, quando digo que tenho orgulho
de ser brasileira, eu REALMENTE sinto isso! Tanto que agora tenho
uma idéia de me fixar no Brasil após mais uma ou algumas
missões com MSF.
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As maiores frustrações vieram do convívio intenso
com os expatriados que se tornam sua família e não
do trabalho como eu imaginava antes de partir. É claro que
tudo não é um mar de rosas e as frustrações
fazem parte da vida!
Essa foi minha primeira experiência com MSF. Na balança
o saldo foi BEM positivo! Tanto que irei para uma segunda missão.
Ainda não sei para onde, nem quando. Só sei que vou!
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