Médico Sem Franteiras
Diário de Bordo: Carla Satie Kamitsuji, psiquiatra brasileira, conta sua experiência com MSF
  PARTE 8 - Outubro, Attiak, norte de Uganda.
 

Após quase nove meses aqui em Uganda, minha primeira missão com MSF chega ao fim. Nossa, como passou rápido! Sinto uma mistura de alegria e tristeza. Alegria, pois irei rever pessoas queridas que deixei no Brasil e tristeza por deixar aqui em Uganda novos amigos e uma vida que foi muito intensa devido às novidades (incluindo as dificuldades) com as quais me deparei. De certa forma, estou deixando meu lar. Não imaginei que a tristeza fosse ser tão grande. Demorou uns 30 minutos para eu conseguir parar de chorar no carro na minha última viagem Atiak-Gulu. Alguns dos funcionários nacionais que estavam no carro comigo ficaram preocupados, achando que eu estava MUITO mal.

Incrível, mas ao fim dos nove meses estava bem menos cansada que nos meus três, quatro meses de missão. Acredito que seja por estar bem mais adaptada às condições de vida, ambiente e ao trabalho.

Os três últimos meses foram dedicados para avaliar o andamento da unidade de saúde mental sem a minha supervisão tão de perto e treinar os “clinical officers” (profissional que tem o papel de médico, seria um ‘técnico médico’ que faz quase tudo que um médico faz. Na atenção primária eles fazem o mesmo que um médico). Enfim, preparar minha saída escrevendo relatórios para a equipe de expatriados do terreno que ficarão aqui em Uganda dando continuidade ao projeto.

Algumas coisas que me marcaram foram:

- Percebi o quanto nos comunicamos de forma não-verbal. Apesar de eu não falar o idioma local, pude me conectar com muitos dos pacientes atendidos pelas conselheiras (tipo de terapeutas). Um deles, um “menino” de 20 anos com retardo mental importante devido à malária cerebral aos 6 meses de idade e que após algumas sessões me surpreendeu quando a mãe relatou que ele pediu para ir ao centro de saúde onde havia uma branca (eu).

- Ao mesmo tempo que somos tão diferentes (língua, cultura, história de vida), somos também muito parecidos (problemas de relacionamento, preocupação com o próprio bem-estar e com o de pessoas queridas, angústias existenciais).

- O ser humano é capaz de se adaptar às mais diversas situações. Eu não imaginava, no primeiro dia, que me adaptaria tão bem às condições de vida que encontrei no terreno (latrina, banho de balde, ausência de eletricidade e água encanada). A partir de maio, passamos a ter energia elétrica (fonte solar) nos quartos, cozinha e “living area”. Mas para banhos noturnos e visitas noturnas à latrina era necessário lampião de querosene ou lanterna.

- O orgulho de ser brasileira. Hoje, quando digo que tenho orgulho de ser brasileira, eu REALMENTE sinto isso! Tanto que agora tenho uma idéia de me fixar no Brasil após mais uma ou algumas missões com MSF.

- As maiores frustrações vieram do convívio intenso com os expatriados que se tornam sua família e não do trabalho como eu imaginava antes de partir. É claro que tudo não é um mar de rosas e as frustrações fazem parte da vida!

Essa foi minha primeira experiência com MSF. Na balança o saldo foi BEM positivo! Tanto que irei para uma segunda missão. Ainda não sei para onde, nem quando. Só sei que vou!

 

Por: Carla Satie Kamitsuji

 
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