Médico Sem Franteiras
Ana Lúcia da Silva, enfermeira, conta sua primeira experiência com MSF no Camboja
  PARTE 5 - 15 de setembro, Siem Reap, Camboja
 

 

 

Buenos dias, gurizada!

Cinco meses de missão já se passaram aqui no Camboja.

Por aqui seguimos as atividades, com uma mescla de novas atividades com a transferência de nossos pacientes para as clínicas de referência - processo um tanto complexo, pois envolve desde a parte administrativa, transferindo protocolos e formulários e treinando os funcionários destas clínicas até a parte mais intensa, que é explicar para pacientes que são tratados pela equipe médica de MSF há muitos anos que eles receberão nova atenção em uma clínica diferente a partir de certa data. Por conta desse processo, estamos ouvindo muitas mensagens de agradecimento e uma certa decepção por parte dos pacientes, que gostariam de seguir conosco. Mas esse é um processo natural e estamos trabalhando pesado para que a qualidade do serviço e a garantia de medicamentos seja mantida pelo governo local.

Esse mês começamos uma atividade nova voltada para a questão do Planejamento Familiar, tarefa que a princípio parece simples, mas que envolve assuntos ligados a saúde sexual e reprodutiva. Assunto que apresenta uma série de tabus.

Antes de darmos o passo inicial, fizemos um treinamento para o nosso pessoal, com o objetivo de informá-los sobre o que MSF tem a oferecer nesse aspecto. Essa atividade foi super bacana, mas o curioso foi que as nossas funcionárias pouco se manifestaram ( muitas delas não quiseram nem ver os métodos em um momento inicial). A participação maior foi da parte masculina de nossa equipe, fazendo uma série de perguntas sobre métodos, como pílula, implante subcutâneo, preservativo feminino...Enfim, o tipo de questões que usualmente seriam levantadas por mulheres.

Aqui no Camboja, essa questão do comportamento submisso feminino é bastante forte. A mulher é vista como aquela que serve e não é muito comum ver mulheres ocupando cargos importantes. A própria dança típica do país, chamada dança de Apsara, é baseada na dança que as mulheres que "servem o rei" faziam (e fazem até hoje) nas celebrações da realeza. O tom de voz de uma mulher é sempre muito baixo quando ela se dirige a um homem, quase inaudível às vezes. Os cumprimentos se dão de mãos postas e curvando-se (que é sinal de respeito). Bom, a grande maioria da população (homens e mulheres) posta as mãos para dizer "olá" (em Khmer - chymriap suah), mas as mulheres habitualmente são as que se curvam diante dos homens.

O contato físico entre homens e mulhers praticamente não existe. Quando falo em contato físico, refiro-me a aperto de mãos, abraço, andar de mãos dadas na rua, etc. Esse tipo de "intimidade" pública somente é permitido entre pessoas do mesmo sexo (mais comum entre os homens). Pois é, comportamentos sociais divergem muito em cada parte do globo terrestre.
Mas, voltando à questão do Planejamento Familiar: sim, está funcionando bem, principalmente entre nossa equipe!

Outra coisa que me marcou esse mês foi a história de uma garota de 20 e poucos anos que trabalhava em um dos lugares de "prostituição indireta" aqui em Siem Reap. Ela chegou até nós através de uma ONG local, em mal estado geral, desnutrida, bastante doente. Quando coletamos a história de vida, ela nos revelou que se descobriu HIV positivo há um ano, mas nunca contou a ninguém e tampouco procurou seviços de saúde, pois isso poderia atrapalhar sua rotina de trabalho nas boates, em que ela trabalhou até um fim de semana antes de nos procurar. Somente buscou ajuda porque um amigo próximo insistiu que ela deveria ter mais cuidado com sua saúde. Como tinha conhecimento que havia tratamento para HIV, começou a tomar alguns antiretrovirais que comprava no mercado ilegal, sem nenhuma orientação médica.

O resumo da história foi que ela chegou até nós em uma quinta-feira, encaminhamos ela imediatamente para o Centro de Doenças Crônicas para iniciar tratamento, porém na terça-feira seguinte ela faleceu, devido ao péssimo estado geral em que se encontrava. Então, vemos mais um inimigo para lutar contra: o mercado ilegal de medicamentos para o tratamento da AIDS, que é tão perigoso quanto o não tratamento, pois leva a criar casos de multiresistência às drogas utilizadas contra o HIV. Esses medicamentos clandestinos são vendidos principalmente na capital, Pnhom Penh, e a vigilância fármaco-sanitária é bastante cega em relação a esse assunto.

Novas atividades na ala de tuberculose do hospital, principalmente no que diz respeito a sessões de grupo com os pacientes, começaram esse mês, a colaboração dos pacientes é muito boa, participam o tempo todo durante o grupo. Trabalhar com TB para mim é uma tarefa muito recompensadora - me sinto com uma nova energia depois de trocar experiências com os pacientes e sentir que os preparei um pouco mais para encarar o tratamento da tuberculose até o final.

No mais, muitas reuniões para acordar todo esse processo de fechamento de projeto com as ONGs que ficarão (todas elas regadas de muitas frutas locais e muitas perguntas sobre o Brasil...).

Ah, mais uma brasileira integrando nossa equipe na missão cambojana: boas vindas para a enfermeira Kelly Cavallete que agora está em um projeto próximo aqui de Siem Reap! Bom, agora somos três brasucas no Camboja, mais um e a língua oficial do projeto muda de inglês para português!

Quanto à situação do conflito pela disputa do templo entre Camboja e Tailândia, foi oficialmente encerrado no final do mês de agosto depois de um acordo entre os dois países. Mesmo assim os soldados mantêm constante vigilância nos dois lados da fronteira.

Sigo por aqui, mais notícias em uma próxima.

Abraço,

Ana Lúcia


Leia a quarta parte do diário de bordo

 

Por: Ana Lúcia da Silva