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Buenos
dias, gurizada!
Cinco meses de missão já se passaram aqui no Camboja.
Por aqui seguimos as atividades, com uma mescla de novas atividades
com a transferência de nossos pacientes para as clínicas
de referência - processo um tanto complexo, pois envolve desde
a parte administrativa, transferindo protocolos e formulários
e treinando os funcionários destas clínicas até
a parte mais intensa, que é explicar para pacientes que são
tratados pela equipe médica de MSF há muitos anos
que eles receberão nova atenção em uma clínica
diferente a partir de certa data. Por conta desse processo, estamos
ouvindo muitas mensagens de agradecimento e uma certa decepção
por parte dos pacientes, que gostariam de seguir conosco. Mas esse
é um processo natural e estamos trabalhando pesado para que
a qualidade do serviço e a garantia de medicamentos seja
mantida pelo governo local.
Esse mês começamos uma atividade nova voltada para
a questão do Planejamento Familiar, tarefa que a princípio
parece simples, mas que envolve assuntos ligados a saúde
sexual e reprodutiva. Assunto que apresenta uma série de
tabus.
Antes de darmos o passo inicial, fizemos um treinamento para o nosso
pessoal, com o objetivo de informá-los sobre o que MSF tem
a oferecer nesse aspecto. Essa atividade foi super bacana, mas o
curioso foi que as nossas funcionárias pouco se manifestaram
( muitas delas não quiseram nem ver os métodos em
um momento inicial). A participação maior foi da parte
masculina de nossa equipe, fazendo uma série de perguntas
sobre métodos, como pílula, implante subcutâneo,
preservativo feminino...Enfim, o tipo de questões que usualmente
seriam levantadas por mulheres.
Aqui no Camboja, essa questão do comportamento submisso feminino
é bastante forte. A mulher é vista como aquela que
serve e não é muito comum ver mulheres ocupando cargos
importantes. A própria dança típica do país,
chamada dança de Apsara, é baseada na dança
que as mulheres que "servem o rei" faziam (e fazem até
hoje) nas celebrações da realeza. O tom de voz de
uma mulher é sempre muito baixo quando ela se dirige a um
homem, quase inaudível às vezes. Os cumprimentos se
dão de mãos postas e curvando-se (que é sinal
de respeito). Bom, a grande maioria da população (homens
e mulheres) posta as mãos para dizer "olá"
(em Khmer - chymriap suah), mas as mulheres habitualmente são
as que se curvam diante dos homens.
O contato físico entre homens e mulhers praticamente não
existe. Quando falo em contato físico, refiro-me a aperto
de mãos, abraço, andar de mãos dadas na rua,
etc. Esse tipo de "intimidade" pública somente
é permitido entre pessoas do mesmo sexo (mais comum entre
os homens). Pois é, comportamentos sociais divergem muito
em cada parte do globo terrestre.
Mas, voltando à questão do Planejamento Familiar:
sim, está funcionando bem, principalmente entre nossa equipe!
Outra coisa que me marcou esse mês foi a história de
uma garota de 20 e poucos anos que trabalhava em um dos lugares
de "prostituição indireta" aqui em Siem
Reap. Ela chegou até nós através de uma ONG
local, em mal estado geral, desnutrida, bastante doente. Quando
coletamos a história de vida, ela nos revelou que se descobriu
HIV positivo há um ano, mas nunca contou a ninguém
e tampouco procurou seviços de saúde, pois isso poderia
atrapalhar sua rotina de trabalho nas boates, em que ela trabalhou
até um fim de semana antes de nos procurar. Somente buscou
ajuda porque um amigo próximo insistiu que ela deveria ter
mais cuidado com sua saúde. Como tinha conhecimento que havia
tratamento para HIV, começou a tomar alguns antiretrovirais
que comprava no mercado ilegal, sem nenhuma orientação
médica.
O resumo da história foi que ela chegou até nós
em uma quinta-feira, encaminhamos ela imediatamente para o Centro
de Doenças Crônicas para iniciar tratamento, porém
na terça-feira seguinte ela faleceu, devido ao péssimo
estado geral em que se encontrava. Então, vemos mais um inimigo
para lutar contra: o mercado ilegal de medicamentos para o tratamento
da AIDS, que é tão perigoso quanto o não tratamento,
pois leva a criar casos de multiresistência às drogas
utilizadas contra o HIV. Esses medicamentos clandestinos são
vendidos principalmente na capital, Pnhom Penh, e a vigilância
fármaco-sanitária é bastante cega em relação
a esse assunto.
Novas atividades na ala de tuberculose do hospital, principalmente
no que diz respeito a sessões de grupo com os pacientes,
começaram esse mês, a colaboração dos
pacientes é muito boa, participam o tempo todo durante o
grupo. Trabalhar com TB para mim é uma tarefa muito recompensadora
- me sinto com uma nova energia depois de trocar experiências
com os pacientes e sentir que os preparei um pouco mais para encarar
o tratamento da tuberculose até o final.
No mais, muitas reuniões para acordar todo esse processo
de fechamento de projeto com as ONGs que ficarão (todas elas
regadas de muitas frutas locais e muitas perguntas sobre o Brasil...).
Ah, mais uma brasileira integrando nossa equipe na missão
cambojana: boas vindas para a enfermeira Kelly Cavallete que agora
está em um projeto próximo aqui de Siem Reap! Bom,
agora somos três brasucas no Camboja, mais um e a língua
oficial do projeto muda de inglês para português!
Quanto à situação do conflito pela disputa
do templo entre Camboja e Tailândia, foi oficialmente encerrado
no final do mês de agosto depois de um acordo entre os dois
países. Mesmo assim os soldados mantêm constante vigilância
nos dois lados da fronteira.
Sigo
por aqui, mais notícias em uma próxima.
Abraço,
Ana Lúcia
Leia
a quarta parte do diário de bordo
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